Estou sentada próximo a janela de vidro que está embasado pela poeira, olho pelas grades e contemplo a vida acontecendo lá fora.
O sol brilha intensamente no céu azul de verão encoberto com algumas nuvens brancas que passam vagarosamente formando imagens difíceis de definir. A brisa traz um vento quente que me faz suar ainda mais nesse ambiente abafado enquanto os pássaros voam livremente procurando comida e abrigo para descansar e pessoas bem arrumadas caminham apressadamente de um lado para o outro, seguindo os seus caminhos e vivendo as suas vidas sem imaginar o que se passa aqui dentro.
‘Queria eu poder fazer o mesmo.’
Prestando mais atenção vejo uma adolescente assim como eu andando animada ao lado das colegas enquanto conversa, ela está com um vestido estampado de flores na cor rosa e uma sapatilha creme nos pés. Seu cabelo ondulado está solto e balança a cada passo que dá tamanha é sua empolgação ao caminhar. Ela parece feliz, sorrindo o tempo todo em meio as suas falas e me faz pensar:
‘Será que um dia eu vou ser feliz assim de novo? Livre de preocupações e incertezas. Assim, espero.’
Por um momento desejo estar em seu lugar, mas o bip do aparelho dentro do quarto me faz lembrar que minha realidade é bem diferente.
Estou ao lado do leito da minha mãe, ela se chama Joana e dorme tranquilamente sedada pela morfina depois de uma crise intensa de dor. Já eu, me chamo Júlia. Tenho 17 anos e vivo praticamente dentro do hospital, ao lado dela há exatos 11 meses.
Ela está em fase terminal de um câncer colorretal que descobrimos tarde demais devido a demora em conseguir consultas no sistema público de saúde.
Ficamos apenas nós duas depois que meu pai faleceu e isso me preocupa todos os dias porque não faço ideia do que vou fazer da minha vida se alguma coisa acontecer com ela.
Meus pais se conheceram tarde, mas viveram um verdadeiro amor e foram muitos felizes até o dia que ele partiu apesar dos problemas que enfrentaram. Minha mãe sempre me conta essa história e ela me faz querer viver um amor tão verdadeiro quanto o que eles tiveram.
Eu sou filha única e demorei para nascer, por algum motivo desconhecido minha mãe sempre perdia os bebês até que eu cheguei. Lembro-me de todas as vezes em que ela me disse que sou a alegria que faltava para a nossa família. Isso sempre me fez sorrir, mas hoje eu me questiono:
‘Quem eu vou alegrar quando ela partir?’
Pelo jeito não alegrarei a vida de ninguém e provavelmente irei viver sozinha nas ruas porque não terei como me manter. Nossa única renda vem do auxílio doença que ela recebe e que eu vou perder caso ela parta. Todos os dias esse tormento ronda a minha cabeça por algumas horas quando fico em silêncio vendo a minha mãe ter seu momento de paz enquanto a medicação faz o seu efeito.
Enquanto penso, escuto a voz do anjo que Deus colocou nas nossas vidas - Dr Mário, o melhor oncologista do Brasil!
Encontrá-lo foi a constatação que Deus existe e olhou para nós diante desse momento tão difícil. Ele foi o único médico que se disponibilizou a cuidar da minha mãe com empatia e carinho todos esses dias. As vezes acho que se não fosse a insistência dele, ela já teria partido.
Ele é um homem fantástico que nem precisava trabalhar aqui, mas vem duas vezes na semana cuidar de quem não pode pagar para se tratar nas redes das suas várias clínicas particulares. Ele é alto, magro, com cabelos e olhos castanhos, usa uma barba bem feita que o deixa muito bonito, mas não tenho dúvidas que a sua real beleza vem de sua simpatia e educação.
—Olá Júlia, como vocês estão hoje? Fiquei sabendo que dona Joana estava sentindo muitas dores. Quero que saiba que assim que soube mandei que administrasse o melhor remédio que nós temos.
Imediatamente meus olhos procuram por ele e um vislumbre de esperança surge com sua chegada que como sempre vem acompanhada de um enorme e lindo sorriso e sua simpatia.
—É verdade, doutor. Eu fiquei bem preocupada. Foi horrível vê-la sentindo tanta dor! E dessa vez ela gritou muito.
Falei já me colocando de pé, caminhando para perto dele que assim que ouviu me olhou com pesar e respondeu:
—Oh pequena, sinto muito que tenha que presenciar esse tipo de coisa. Gostaria muito de poder fazer mais, mas dada a situação da doença a medicina não me permite.
—Eu sei que o senhor faz tudo o que pode doutor e eu agradeço por isso.
Como sempre ele monitora os equipamentos, olha as informações acrescentadas pelos técnicos de enfermagem no quadro de beira de leito, observa o corpo dela e depois me olha por um tempo falando:
—Bem, aparentemente tudo está sob controle agora e ela parece bem confortável.
—Sim!
—Mais tarde eu volto para vê-la de novo.
—Tá bem e obrigada.
Ele se afasta para sair, mas pára, me olha novamente e pergunta:
—Por acaso você já comeu hoje, Júlia?
Meu rosto queima com a pergunta, mas me forço a falar a verdade:
—Ainda não.
—Então venha me fazer companhia, estou cheio de fome, mas detesto comer sozinho.
No fundo eu queria ir, mas não tinha dinheiro para pagar então respondi envergonhada:
—Eu agradeço o convite, mas estou sem dinheiro, doutor.
—Não se preocupe com isso, hoje é por minha conta!
Ele respondeu vindo ao meu encontro, passando o braço pelo o meu ombro com respeito para me encaminhar para a saída do quarto.
—E não se preocupe com sua mãe, pela quantidade de medicação que foi administrada ela dormirá por mais algumas horas, nos dando tempo o suficiente para comer com calma.
Ele não me deu opção de negar, simplesmente me fez caminhar entrando no corredor, me levando para fora do hospital enquanto fala sem parar sobre seu filho, me fazendo pensar:
‘Será que esse médico existe mesmo ou ele é um anjo da guarda que Deus colocou no nosso caminho?’