O dia começou cedo na casa dos Mendonça, nessa casa ninguém fica com tempo ocioso, por isso sempre acordo cedo para dar conta de tudo o que preciso fazer durante meu dia.
Como sempre, já estava de pé antes das 6h colocando minha roupa de treino. Tenho uma academia montada em casa para facilitar a minha vida e isso garante a minha boa forma já que possuo uma tendência natural a ganhar peso, coisa que eu tento evitar a todos custo pois além de querer manter o shape, me preocupo muito com a saúde. Como médico sei bem os benefícios que o exercício traz a nossa vida e por isso faço disso uma prioridade constante.
Depois de ter treinado por 40 minutos de forma intensa caminhei para o banheiro onde tomei um banho minucioso, aparando a minha barba e colocando o meu terno sob medida.
Cheiroso e satisfeito com o que via no espelho sai do quarto rumo a sala de jantar que encontrei perfeitamente arrumada como a minha amada Sônia gostava. Automaticamente parei ainda no batente, sentindo uma pontada no peito e uma tristeza profunda por lembrar que mais uma vez não havia sido ela a arrumar o ambiente. Ela foi o grande amor da minha vida, uma mulher linda e com um coração enorme que conheci na faculdade de medicina. Chegou mudando tudo na minha vida, me ajudando a ver o mundo com mais leveza e cor. Fez meus dias ficarem alegres e me deu o melhor presente que uma mulher pode dar a um homem - um lar feliz.
‘Pena que não durou tempo suficiente.’
Com um bolo na garganta, uma saudade enorme no peito e várias lembranças rondando minha cabeça terminei de entrar no cômodo tentando deixar de lado a sensação de dor e vazio que sempre sinto ao pensar nela.
Sentei-me em meu lugar, olhei para o seu lugar que agora sempre fica vago e desejei ardentemente que nossa separação fosse apenas uma ilusão. Mas a entrada de Vânia, minha governanta me fez lembrar que não é.
Antes da partida de Sônia, apenas nós dois e nosso filho Miguel morávamos aqui. Ela administrava e mantinha tudo como queria e não aceitava a ajuda profissional contínua, aceitando apenas alguém 1 vez na semana pois dizia que prezava pela nossa privacidade. E como eu a amava mais que tudo, simplesmente aceitava o que ela queria. Mas agora isso mudou, depois que ela se foi, precisei contratar alguém permanente para me auxiliar pois além de não ter tempo, não entendo nada dos afazeres domésticos e de crianças, o que me deixou bem perdido nos primeiros dias.
‘Foi um alívio contar com a ajuda da dona Vânia desde então.’
Ela não conseguiu fazer a dor diminuir, mas em contrapartida segura o peso da organização da casa e me ajuda com o Miguel. Ele é uma criança maravilhosa, parecido com mãe não só no físico, mas na bondade também, o que de certa forma dificulta a nossa aproximação pois cada vez que olho para ele, vejo a minha Sônia. Mesmo com essa dificuldade, amo meu filho e é por ele que eu não abandonei tudo e sumir no mundo, é por ele que eu vivo um dia de cada vez suportando a dor que a ausência da sua mãe me traz.
Eu ainda pensava nela quando ouço seus passos apressados próximo ao cômodo, me deixando saber que ele está correndo mais uma vez enquanto é seguido pela senhora que chama a sua atenção:
—Desse jeito vai se machucar, Miguel.
—Vou não vovó Vânia, eu sou veloz igual o flash oh.
Como imaginei ele entra correndo como um foguete levando um susto quando me vê que o faz parar no lugar.
—Pai…
—Oi campeão, quer dizer que você é o mais novo flash?
—Sou… viu como sou rápido?
—Vi, é muito rápido mesmo. Mas a senhora Vânia tem razão, correr desse jeito é perigo. Por que não deixar para fazer isso lá fora quando chegar da escola?
—Ah pai…
Ele vem para o seu lugar, se senta ao meu lado esquerdo como foi ensinado a fazer enquanto fala como uma matraca. Já a senhora entra no ambiente em seguida e fica sem jeito quando me encontra, começando a se explicar:
—Desculpa senhor, ele largou minha mão e …
—Tudo bem… conheço bem essa carinha.
Ela abaixa a cabeça e aguarda o fim da nossa conversa.
—Pai, o senhor vai me levar para a escola hoje?
—Não, tenho que estar na clínica em poucos minutos. Falar nisso, senhora Vânia pode servir o desjejum.
(...)
Após o café saí correndo de casa pois minha agenda está lotada. Como médico, fiz questão de abrir minhas próprias clínicas pois quero garantir o melhor tratamento para os pacientes que me procuram. Infelizmente nem sempre isso é possível aos profissionais nas instituições de saúde.
A primeira clínica que fui é a que fica no centro da cidade, precisava resolver algumas questões burocráticas junto com minha equipe e por isso tínhamos uma reunião. Nós passamos horas resolvendo os mais variados problemas, eu já começava a ficar cansado enquanto minha secretária falava sobre os donativos arrecadados quando meu celular tocou, chamando a minha atenção.
Atendi apressadamente porque era do hospital público que eu presto assistência como voluntário, e a informação que recebi não foi nada boa. Para minha tristeza uma das minhas pacientes em estágio final estava tendo uma crise forte e eu fui chamado. Dona Joana está em seus últimos dias, o que me deixa muito m*l já que sei que não existe nada que possa fazer para ajudá-la a não ser administrar medicações para diminuir a sua dor. Infelizmente seu caso é irreversível e não seria possível dar mais dias de vida a ela mesmo que eu a trouxesse para minha clínica. Baseado nisso, passei algumas instruções pelo telefone depois de entender o que se passava para ajudá-la o quanto antes e depois encerrei a reunião pois precisava vê-la pessoalmente mesmo não sendo dia do meu plantão.
O caso dela mexe particularmente comigo e por mais que eu lute diariamente para manter-se apenas com uma conduta profissional me sinto cada dia mais envolvido. Ela é uma senhora viúva de 58 anos e que tem uma filha de 17 anos que vai ficar sozinha no mundo quando ela partir. Isso me deixa profundamente tocado porque mesmo que ela não seja uma criança, também não é uma adulta e não tem mais nenhum suporte na vida.
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Lembranças ….
Em uma das minhas visitas, Joana estava sentindo muitas dores e sangrava fortemente. Eu já tinha feito o que podia e estávamos esperando a medicação e o procedimento realizado fazer efeito quando me aproximei dela avisando o que esperávamos que acontecesse. Nunca vou esquecer o seu olhar triste e sua pergunta preocupada ao segurar a minha mão:
—Dr, acha que eu ainda tenho alguns meses de vida?
Eu queria dizer que sim, mas não podia mentir, então procurei ser o mais amável possível.
—Estou fazendo o que posso para que tenha.
Ela entendeu no mesmo momento que eu não podia me comprometer e muito menos garantir algo desse porte então respondeu mais para si mesmo, deixando as lágrimas rolarem:
—Só peço a Deus que cuide da minha menina quando essa hora chegar.
Eu sabia que ela queria falar muito mais que isso, mas se conteve, então eu respondi ao lembrar de um dos versículos bíblicos que Sônia costumava recitar:
—Não se preocupe com isso dona Joana, se Ele cuida dos pássaros e das flores, certamente cuidará da sua princesa.
—É verdade! Obrigada por me lembrar, doutor.
Respondeu com um pequeno sorriso nos lábios.
Fim das lembranças…
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Saí da clínica o mais rápido que pude e só parei quando entrei em seu quarto e a encontrei medicada e estabilizada. Ao seu lado estava a sua fiel escudeira, Júlia. Uma adolescente gentil, mas sofrida e que leva o peso que somente um acompanhante de uma doença terminal conhece. Sozinha, não possui uma pessoa sequer para dividir seus medos e inseguranças, o que me toca ainda mais.
Tentei tranquilizá-la o máximo que podia, mas mesmo assim sinto que falhei. Eu pensei em meu retirar para ver outros pacientes, mas em uma olhada rápida no relógio vi que passava das 15 horas e ao olhar para ela soube que ainda não tinha sequer se alimentado então sendo levado pela misericórdia ensinada pela minha amada Sônia a levei para comer porque sei perfeitamente que dificilmente ela faria isso hoje.