Tentei alimentá-la com o melhor lanche que tem por perto enquanto aproveito para saber mais sobre a vida delas. Confesso que acabei ficando ainda mais preocupado conforme ela vai falando sobre as dificuldades que enfrenta para ter as coisas que deveriam ser simples e fáceis na vida de qualquer pessoa. Isso só aumentou ainda mais a minha empatia por elas.
Enquanto ela respondia as coisas que eu perguntava meu cérebro ficava pensando:
‘Porque existe tanto sofrimento no mundo? Porque tantas pessoas boas precisam passar por essas coisas?’
Claramente uma vive pela outra, mas estão prestes a se separar. Isso é tão triste que até a pessoa mais fria de coração deve se compadecer diante dessa situação.
Conforme íamos conversando, minha convicção em se empenhar ainda mais para prolongar os dias da dona Joana lhe dando o máximo de conforto só aumentou.
‘Preciso me empenhar mais, nem tanto pela senhora, mas por essa adolescente que sofrerá profundamente em várias esferas diferente ao perder a única pessoa que possui.’
Eu pensava nisso enquanto ouvia sua explicação quando ouvi meu celular tocar. Como médico não posso simplesmente desligá-lo ou ignorá-lo, então tive que atender e que bom que eu fiz isso porque a notícia não era nada boa. Nem acreditei quando ouvi o nome da dona Joana sendo proferido do outro lado da linha.
Meu coração parou enquanto olhava o rosto meigo da sua filha a minha frente e tudo o que pensei foi:
‘Preciso correr, preciso ajudá-la o quanto antes.’
Sem tempo para explicações calmas, revelei parcialmente o que acontecia, se limitando apenas a voltar o quanto antes para o interior do hospital trazendo-a comigo. Para a nossa sorte não tínhamos nos afastado demais e após uma breve corrida ambos estávamos diante da porta do quarto.
Parado diante da Júlia, vi em seus olhos o medo da perda. Reconhecendo por causa própria, prometi fazer o meu melhor ainda sem saber o que acontecia dentro do quarto porque não quero que ela descubra o quão doloroso é a dor que a morte gera em quem fica. Minha vontade era confortá-la com um abraço, deixar uma palavra de esperança, mas neste momento eu seria muito mais útil cuidando da sua mãe do que sendo um amigo.
Então entrei apressadamente no quarto já vendo a equipe se movimentando com agilidade para reanimá-la, administrando as medicações necessárias e o médico auxiliar com o carrinho de parada próximo ao leito, usando o desfibrilador em seu peito com a intenção de ressuscitá-la.
—O que houve? Ela estava bem a 20 minutos atrás.
—Ela entrou em PCR.
Mais do que depressa me aproximei perguntando o que já tinham feito ouvindo uma técnica começar a mencionar todo o passo a passo realizado ao mesmo tempo que outra enfia em minhas mãos luvas estéril.
—Fizemos a manobra manual mas ela não apresentou melhora, então administramos a adrenalina e entramos com o desfibrilador.
(...)
Tudo aconteceu muito rápido, olhei para a senhora deitada à minha frente e vi seu corpo mole, sem vida enquanto o monitor apita sem parar, anunciando que estamos perdendo a dona Joana devido a uma parada cardiorespiratória.
Assim que foi possível assumi a manobra tirando o desfibrilador das mãos do assistente enquanto peço:
—Injeta mais uma adrenalina…
Enquanto a enfermeira fazia o que pedi, olhei mais uma vez para a senhora e implorei:
—Vamos dona Joana, eu preciso da sua ajuda. Volta pra gente, volte pra Júlia. Ela precisa da senhora!
Assim fizeram e em seguida eu avisei antes de descarregar sobre seu peito.
—1, 2, 3, AFASTA…
Todos se afastaram do leito e eu apertei o botão torcendo para que a manobra funcione, em seguida olhei para o monitor buscando algum sinal de resposta, mas ele não veio. Ainda tentei mais uma vez, ouvindo a informação que eu não queria em seguida.
—Última tentativa RCP sem sucesso, doutor.
Olhei em choque e sem acreditar para meu assistente que faz sinal de negativo com a cabeça, me confirmando o que eu mais quis evitar. Seu olhar me diz que eu devia anunciar uma das falas que eu mais detesto na minha profissão e que me faz sentir um bolo enorme na garganta.
Como sempre acontece nessas horas todos param em seus lugares, respirando profundamente, com dificuldade de acreditar que nossa luta foi em vão, que perdemos mais uma batalha.
Então sem opção, desviei o olhar, olhei para o relógio, voltei a olhar nos olhos do assistente anunciando contra vontade:
—Hora do óbito 16:12h.
A agitação e adrenalina dá lugar a sensação de impotência e frustração e aos poucos todos começam a se mover devagar para afastar os instrumentos e equipamentos usados.
Mas eu não! Nesse primeiro momento senti como se o chão tivesse saído dos meus pés enquanto olho para o corpo imóvel da dona Joana em cima do leito diante de mim, me fazendo pensar no rosto meigo da Júlia que teria que enfrentar em instantes.
‘O que eu vou dizer aquela adolescente? Como vou dizer que não consegui ajudar a sua mãe?’
E o que veio depois foi ainda pior, o nervosismo que sinto é tanto que a bile subiu e eu me vi obrigado a correr a procura da pia para vomitar. Coloquei tudo para fora assim que fiquei diante dela, sentindo a adrenalina fazer meu corpo tremer por alguns instantes.
Quando enfim parei de vomitar, tentei estabilizar a respiração olhando para o meu reflexo diante do vidro escuro me lembrando que fazia anos que esse tipo de coisa não acontecia e isso só serviu para me alertar.
‘Estou emocionalmente envolvido nesse caso.’
Uma enfermeira parou do meu lado perguntando se eu precisava de ajuda, mas sem olhar para ela respondi que não. Então ela se afastou e eu lavei minha boca pensando que ainda tenho que cumprir a segunda pior parte da profissão e desta vez ela teria um peso ainda maior.
Olhando o meu reflexo fixamente, me recompus da melhor forma possível criando coragem para fazer o que precisava e quando me senti minimamente pronto, segui a procura da mais nova órfã do mundo.
Cada passo teve um peso diferente e entrar no corredor não foi fácil. Meus olhos procuraram contra vontade por Júlia que assim que me notou veio ao meu encontro perguntando esperançosa, segurando os meus braços assim que ficamos próximos:
—E então doutor, ela está bem? Posso ver a minha mãe agora?