A fazenda estava agora mais reforçada do que nunca. Haviam melhorado todos os sistemas de segurança, porque as crianças estavam se tornando adolescentes muito rapidamente, e queriam ter certeza de que nenhum deles sairia sozinho. A maioria tinha espírito livre e, por terem ficado tanto tempo presos na seita, ainda carregavam dentro deles aquele desejo intenso de liberdade. Ainda assim, todos eram crianças felizes, protegidas e seguras.
A estrutura da fazenda também tinha melhorado bastante. As vendas do leite de búfala rendiam um bom valor para cada morador, além das vendas de gado para fora. Naquele dia, estavam reunidos para o almoço todos os homens, e Aliah estava sentado, com Dakota ao lado dele.
Mas Olena estava preocupada com o garoto, porque ele parecia ter se tornado, mais uma vez, introspectivo.
Quando o almoço terminou, ela se sentou ao lado de Calton.
— Não acha que Aliah está ainda mais calado do que era?
O garoto havia passado um longo período sem falar por causa da surdez, mas, depois da cirurgia, começou a falar aos poucos e tinha melhorado muito o vocabulário. Era inteligentíssimo, aprendia línguas com facilidade e conversava com o pai, com a mãe, com o padrinho, com Dakota e com Hércules... que estava naquela fase das conversas aleatórias, sobre tudo e sobre nada. Era realmente uma criança descobrindo o mundo e, mesmo sendo autista, Aliah não escapava das interações com o irmão. Com ele, inclusive, tinha uma paciência tremenda.
Calton olhou para Olena e
— Está, mas eu acho que, dessa vez, é só a personalidade dele. Personalidade... e o autismo também. Ele está feliz, nunca sorriu tanto, continua pintando muito bem, trabalha e está feliz com a vida. Acho que vamos ter que respeitar esse jeito mais calado dele. Callebe mesmo explicou que isso faz parte da personalidade dele.
Olena entendeu. Vinha de uma família que conversava muito, e ali na fazenda ela e as outras mulheres também falavam bastante. Às vezes, estranhava o fato de o filho não falar tanto, mas sabia que Calton tinha razão.
Depois disso, ela se levantou e foi até Aliah. Segurou o rosto dele com as mãos e beijou todo o rosto. Ganhou um sorriso do garoto. Às vezes, Olena achava que ele nem gostava tanto daqueles afetos que ela costumava lhe dar, mas, o amava tanto que não conseguia evitar, mesmo ele sendo quase um homem.
Mais tarde, foi para a cozinha, ligou uma música e começou a arrumar algumas coisas, mas, quando Aliah entrou, os dois foram dançar juntos.Ele tinha aprendido a dançar com ela e agora dançava com Dakota também. Com a mãe, dançava músicas bonitas e tranquilas. Com Dakota, dançava valsa e bolero. E dançavam muito bem.
Aliah parecia sentir a música de uma maneira totalmente diferente das outras pessoas.
Quando terminaram, Olena ganhou um beijo no rosto. O garoto então foi para fora, observar a construção que faziam. Estavam terminando uma casa de madeira para ele e Dakota. Faltavam apenas os detalhes finais e, na semana seguinte, comprariam todos os móveis. Terminaria de virar homem nos braços dela..
Aliah e Dakota estavam descobrindo o que era um relacionamento de verdade. Tinham tido liberdade, aconselhamento e muito amor ao longo dos últimos meses. Ainda não tinham tido uma relação sex.ual completa, mas, em compensação, tinham descoberto o corpo um do outro — os toques, os beijos — e aprendido que não sabiam mais viver um sem o outro.
Inclusive...
Dakota tinha recebido uma proposta para passar uma temporada na França como modelo, já que havia se saído muito bem naquele meio. Quando a proposta chegou, Aliah entrou em uma crise tão intensa que Calton precisou abraçá-lo e segurá-lo, ou o menino teria se machucado. Até mesmo Callebe foi chamado para passar um tempo com o afilhado, porque a crise tinha sido realmente forte.
Mas Dakota não chegou nem a cogitar a possibilidade de ir.
Primeiro, porque amava aquele garoto estranho que era seu namorado.
E segundo, porque nunca deixaria a fazenda. Era o lugar mais seguro para ela, e sabia que não seria feliz longe da família que tinham construído.Ela se contentava em desfilar em solo brasileiro, em ser modelo fotográfica para algumas lojas e também para as roupas que produziam na própria fazenda.
A fábrica, inclusive, estava indo ainda melhor do que antes. Já cogitavam abrir uma loja em um shopping. Mas, sempre que o assunto surgia, os homens desconversavam ou dificultavam o planejamento.
Eles não queriam que as mulheres saíssem todos os dias para trabalhar fora.
Primeiro, por questão de segurança — não queriam vê-las expostas em uma loja de shopping por tanto tempo.
E segundo, porque, enquanto eles cuidavam da parte mais pesada da fazenda — limpeza, trato com os animais, ração, manutenção — eram elas que sustentavam a rotina da casa, principalmente na cozinha.
E eles comiam muito.Então, as mulheres acabavam cedendo.
Podia até parecer um pensamento machista… mas não vinha de um lugar de desrespeito — e, de certa forma, elas também entendiam isso.
A campainha tocou..
Hector até tentou se levantar, mas Shakespeare correu na frente e foi até o portão. Agora, o portão era quase todo fechado, reforçado, e o garoto sabia que não devia abrir para ninguém.
Mesmo assim, voltou correndo.
— O que foi? — Atenas perguntou.
— Tem uma moça lá na frente… — ele falou. — Ela tá com uma bolsa… chorando… e disse que a irmã de Aliah está chamando por ele.
Aliah deixou o prato que comia.. Os genitores dele tinham outros filhos, mas nunca quis saber de nenhum deles. Nem dos genitores… nem dos filhos deles.
Não queria.
Ainda assim, teve a sensação de que quem estava lá fora não iria embora facilmente. Dakota olhou para ele.. E o viu balançar a cabeça em negação, o garoto, nem era mais um garoto, era um homem, e tinha um humor pesado, Dakota não sabia se o humor dele, era fruto do autismo, ou do contato com Callebe e Salomão Martins..Até mesmo aprender a atirar , Aliah tinha aprendido, construiu uma arma caseira e treinava na fazenda.
Shakespeare falou o que ouviu no portão..
— Ela falou que se chama Monalisa… que veio de fugida… e que precisa de ajuda. Disse que os outros irmãos, por não terem nenhuma deficiência, foram mandados para os Estados Unidos para viver com parentes… e ela não pôde ir.
Um silêncio caiu.
— Querem casar ela com um tal de Jacó Bourbon… — Shakespeare completou.
Jacó Borboun era o pai de Mouse, o pai de Mouse.
Hector se levantou... Casar uma menina com um homem bem mais velho, com idade para ser o pai dela, não podiam permitir..
— Vocês fiquem aqui. Eu vou lá falar com a menina.
Ele caminhou até o portão. Era pai… e não podia deixar uma garota naquela situação, do lado de fora.
Quando chegou, viu a jovem parada, com uma sacola simples na mão, o rosto inchado de chorar.
— Pode me explicar o que está acontecendo? — ele perguntou, com calma.
Ela respirou fundo, tentando se controlar.
— Eu vim pedir ajuda… porque sei que meu irmão foi bem tratado aqui. Ele não era… quando morava com os meus pais.
Hector ficou em silêncio.
— Eu preciso de ajuda — ela continuou. — Vão me casar. O nome dele é Jacó Bourbon. Ele não é fe.io… mas tem idade para ser meu pai. E eu não quero me casar com ele. Não gosto dele. E não é justo… eu me casar só para que meus pais não sejam despejados.
Era uma situação complicada.
__ Achei que Sérgio e Priscila tratavam você e os outros filhos bem..
___ Meus pais nunca gostaram muito de mim. Gostavam mais quando achavam que eu ainda podia ser “útil”… que ia me casar e ajudar eles de alguma forma. Tenho uma deficiência intelectual leve, e não consegui passar na faculdade, então dependo deles para muita coisa..
Ela abaixou o olhar.
— Os seus irmãos?
Sabia que tinha mais dois irmãos... naquela história.. Além de Aliah, Sérgio e Priscila Bittencourt tiveram mais três filhos, Aliah já moravava na fazenda Monalisa estava ali, faltavam dois.
__ Foram para os Estados Unidos, vão morar como irmão da mamãe, mas ele não me quis lá, porque a mulher dele senti ciúmes de mim.
Ele deu alguns passos para trás… e abriu o portão.
— Entra.
Ela hesitou por um segundo… e entrou.
— A gente vai ver o que faz — ele disse.
Porque, no fundo, ele sabia…Não podiam simplesmente virar as costas.Mesmo com tudo que tinha acontecido… mesmo com as mágoas… mesmo com o passado complicado…
Eles não eram o tipo de gente que deixava alguém na rua, ainda mais uma menina que devia ter no máximo dezoito anos.. Devia ser um ano mais velha que Aliah..