POV 1 - HARRY

1117 Words
Meu pai nunca me chama no escritório dele sem motivo. E quando chama, geralmente é para destruir o meu humor. O corredor até a porta dele parece mais longo do que realmente é. Tapete grosso, paredes claras demais, quadros caros demais — tudo naquele andar existe para lembrar quem manda ali. E não sou eu. Nunca fui, apesar do sobrenome pendurado na fachada do prédio. Bato duas vezes na porta de madeira escura antes de entrar. Ele nem levanta os olhos da tela. — Sente-se. Ótimo. Começou. Cruzo os braços antes mesmo de perceber o gesto. Um reflexo antigo, infantil talvez, mas inevitável. Obedeço. A cadeira de couro é confortável demais para a situação. O escritório inteiro é grande demais, silencioso demais, carregado demais daquela autoridade que sempre me fez sentir como se estivesse prestes a ser demitido… mesmo sendo o filho dele. Mesmo sendo o responsável direto pelas campanhas que mantêm essa empresa respirando relevância. Ele digita mais alguns segundos, deliberadamente me ignorando. O silêncio não é distração; é estratégia. Meu pai sempre gostou de fazer os outros esperarem. — Você tem uma nova gerente de contas a partir de segunda-feira — ele anuncia, seco, como se estivesse comunicando a mudança do clima. — Como é? — arqueio as sobrancelhas. — E quando exatamente você ia me avisar? Meu pai ergue finalmente o olhar. A expressão dele diz tudo: não tenho paciência para o seu drama, Harry. — Estou avisando agora. — Pai, eu sou o chefe do departamento criativo. Eu deveria entrevistar as pessoas que vão trabalhar diretamente comigo. É assim que funciona em qualquer empresa minimamente organizada. — Não quando eu encontro alguém qualificado — rebate. — E antes que você pergunte: sim, ela é extremamente qualificada. Qualificado. Certo. Então existe uma nova estrela brilhando na constelação Cooper & Co., e aparentemente eu sou o único que não foi informado. — Quem é? — pergunto, tentando manter algum controle na voz. — Pelo menos o currículo eu posso ver? Ele empurra uma pasta fechada para o canto da mesa, mas não toca nela. — Não precisa. Confie em mim. Meu maxilar trava. — Você contratou alguém para a minha equipe sem me consultar e quer que eu "confie"? — Sim. Quase rio. Quase. Mas sei que rir do meu pai só renderia mais um sermão de quarenta minutos sobre liderança, disciplina, e como "emoção é inimiga dos grandes homens". — Ótimo — solto, levantando da cadeira. — m*l posso esperar para conhecer o gênio. — Ela chega segunda às oito. Eu já estava de costas quando paro. — Ela? Um detalhe pequeno. Um pronome simples. Mas tudo muda quando ele cai no ar. — Sim — meu pai responde. — E é jovem. Mas brilhante. Ah, perfeito. Uma mulher. Jovem. Brilhante. Contratada diretamente por ele, sem passar por mim. Exatamente o tipo de variável que transforma qualquer semana comum em um campo minado. Não digo mais nada. Saio do escritório e fecho a porta com mais força do que deveria. Só quando viro o corredor é que percebo que alguém me espera, encostada na parede, braços cruzados, ferindo o carpete com salto alto. Bethany. Ótimo. O universo realmente está contra mim hoje. — Vi a sua cara saindo do escritório do Richard — ela diz, empurrando o ombro contra o meu, como se ainda tivesse esse direito. — Aconteceu alguma coisa? Bethany sempre aparece quando não devia. Sempre com aquele olhar que mistura preocupação falsa com interesse real demais. A expressão de posso consertar você que só piora o meu humor. — Meu pai contratou alguém sem me avisar. Para a minha equipe — respondo, passando a mão pelo cabelo enquanto começo a andar pelo corredor. Ela me acompanha, claro. Bethany nunca entende o conceito de espaço. — Ele nunca faz isso — ela comenta, interessada demais. — Quem é? — Não sei. E isso é exatamente o problema. — Você pode pedir para ele cancelar — ela sugere, e a voz dela vira algo doce, quase convincente. — Ele sempre te escuta. — Hoje não. Entramos no elevador. As portas se fecham com um estalo metálico que deixa o espaço pequeno demais rápido demais. Bethany se aproxima, como se o movimento fosse natural. Como se os nossos corpos ainda pertencessem ao mesmo território. O perfume dela me atinge — familiar, doce demais, carregado de lembranças que não pedi para revisitar. É o cheiro de noites longas, de decisões ruins, de s**o usado como distração. — Harry… — ela murmura, tocando meu braço. Os dedos deslizam um pouco além do necessário. — Você sabe que, se quiser conversar… desabafar… eu estou aqui. Bethany nunca supera nada. Nem a gente. Nem o término. Nem a ideia de que pode voltar a ser minha distração favorita. — Não preciso conversar — digo, mas ela sorri, como se não acreditasse nem por um segundo. — Eu sinto a sua tensão daqui — ela provoca. — Aposto que posso ajudar. Por um segundo, sinto a fisgada antiga. O impulso conhecido. A facilidade perigosa de cair no que é confortável só para não lidar com o que é novo. Mas hoje, não. Hoje, existe algo diferente cutucando a minha paciência. Uma curiosidade afiada demais. Uma incógnita com nome ainda desconhecido. O elevador se abre no andar do departamento criativo. O barulho, a luz, a rotina voltam como um t**a. — Não hoje, Bethany — digo, firme. Ela revira os olhos, mas recua. Respiro fundo. Segunda-feira promete ser um inferno. E, pela primeira vez em muito tempo, eu não estou tentando evitar o incêndio. Estou curioso para ver o tamanho do estrago. Porque seja lá quem for essa nova gerente de contas… meu pai não joga peças assim no tabuleiro sem motivo. E eu m*l posso esperar para descobrir o nome do meu novo problema. E enquanto caminho até a minha sala, cada passo parece ecoar uma pergunta que meu pai se recusou a responder. Por que agora? Por que sem me consultar? E, principalmente, por que ela? Abro a porta do departamento criativo e observo o espaço que construí com tanto controle, tantas decisões calculadas. Uma engrenagem que funciona porque eu conheço cada peça, cada fraqueza, cada talento. Até segunda-feira. Até essa mulher atravessar aquela porta e bagunçar um equilíbrio que eu nem sabia que estava por um fio. Sento na minha mesa, mas não consigo trabalhar. A curiosidade se mistura à irritação, e algo mais perigoso começa a surgir por baixo disso tudo: expectativa. Seja quem for essa nova gerente de contas, ela já conseguiu algo raro. Prender a minha atenção antes mesmo de existir para mim. E isso… definitivamente não é um bom sinal.
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