Segundas-feiras já são ruins por natureza.
Segundas-feiras com novas contratações impostas por meu pai são piores.
Segundas-feiras em que preciso fingir que estou animado são praticamente tortura.
Chego cedo, como sempre, porque o departamento criativo não se administra sozinho. Meus designers já estão na correria e a equipe de mídia parece que não dormiu desde sexta-feira.
Giro a caneca de café na mão, tentando ignorar a sensação de que hoje vai ser um inferno.
— Harry? — ouço Hillary me chamar, aparecendo com a sua prancheta habitual. — A nova gerente chega hoje. O seu pai pediu para você recebê-la pessoalmente.
Claro.
Óbvio.
Meu pai fez de tudo para tornar isso ainda mais desconfortável.
— Excelente — ironizo. — Nada como começar a semana com surpresas.
— Você vai ser simpático? — ela pergunta, levantando uma sobrancelha.
— Eu sempre sou simpático.
Hillary ri.
Ok, talvez eu não seja.
Estou indo em direção à recepção quando ouço passos rápidos ecoando pelo corredor. Mas antes que eu veja qualquer coisa, alguém vira a esquina com tanta pressa que esbarra diretamente no meu braço, quase derrubando a minha caneca.
— d***a! — a voz feminina diz.
Seguro o café por reflexo. Ela segura a bolsa dela. Nenhum líquido é derramado, mas ainda assim olho irritado para a pessoa responsável pela quase tragédia.
E é aí que a vejo pela primeira vez.
Eu não sabia o nome dela até agora, mas sei na mesma hora.
Não teria como confundir.
Pele clara, cabelos pretos longos, olhos verdes que me encaram como se eu fosse o culpado pelo planeta estar girando mais rápido hoje. Baixa — comparada a mim — mas com postura firme, de quem não aceita desaforo.
Roupa elegante, mas sem frescura.
Jovem.
Muito jovem.
— Você anda sempre sem olhar pra frente? — ela pergunta, ajeitando o blazer como se eu tivesse estragado ele só de existir perto dela.
Arqueio a sobrancelha.
Temos uma atrevida.
— Eu estava andando normalmente — respondo. — Você que veio voando pela esquina.
— Talvez se a empresa tivesse placas indicando a recepção, ninguém viraria o corredor no susto — ela rebate.
Hillary aparece ao meu lado, tentando não sorrir.
— Harry, essa é Madison Bennett. Sua nova gerente de contas.
Ah.
Então é isso.
A responsável por arruinar a minha segunda-feira.
Madison estende a mão.
Apertar ou não apertar?
Eu decido apertar — profissionalismo básico — mas ela aperta de volta com firmeza, sem hesitar, como se estivesse se apresentando para um colega, não para o chefe.
— Você chegou cedo — digo, porque não tenho nada melhor para falar e a minha mente ainda está processando o fato de que meu pai contratou... isso.
— Eu gosto de chegar no horário — ela responde, com aquele tom polido que me irrita mais do que deveria.
— No horário seria às oito — digo, olhando para o relógio. — Você chegou quinze minutos antes.
— Então acho que é bom começar a semana surpreendendo alguém — ela dispara, sem perder tempo.
Hillary tosse baixinho para esconder o riso.
Ok.
A menina tem língua afiada.
Isso pode ser um problema.
Ou uma diversão.
Ainda não decidi.
— Vamos ao meu escritório — digo, me virando. — Preciso explicar algumas coisas sobre o departamento antes de você começar.
— Claro.
Ela me acompanha, passos decididos, postura reta.
Percebo alguns olhares curiosos dos funcionários no caminho. O departamento inteiro adora fofoca, e uma contratação feita pelo chefe supremo naturalmente gera especulações.
Ao entrar no meu escritório, fecho a porta.
Ela fica em pé, observando cada detalhe — os quadros das campanhas premiadas, a mesa de madeira clara, a parede de vidro com vista para o prédio ao lado.
— Você está preparada para um trabalho difícil? — pergunto, direto.
— Estou preparada para qualquer coisa — ela diz, sem hesitar.
Essa segurança irrita.
E atrai.
Eu não precisava disso hoje.
— A Cooper & Co. Advertising não é um campo de treinamento — aviso. — É uma empresa séria. A pressão é real. Os prazos são curtos. Os clientes são exigentes. E eu sou pior do que todos eles juntos.
— Eu percebi — ela responde, cruzando os braços de leve. — E mesmo assim estou aqui.
Meu peito se expande involuntariamente.
Arrogância ou coragem?
Ainda não sei.
Antes que eu responda, batem na porta.
Bethany.
Claro.
Porque hoje o universo decidiu brincar comigo.
— Harry? — ela entra sem pedir licença, como sempre. — Preciso falar com você sobre o evento da Vinson & Grey...
E então ela vê Madison.
O sorriso plástico dela vacila por meio segundo.
Um segundo perfeito.
— Oh — Bethany diz, avaliando. — Não sabia que você estava ocupado.
Madison observa a cena com calma.
Muito calma.
Como se estivesse analisando um novo cliente ou um incêndio controlado.
Perfeito.
Segunda-feira realmente começou.
E eu já não sei se quero terminar esse dia...
Ou deixar ele piorar um pouco só para ver até onde essa garota consegue me provocar.
— Esta é a Madison Bennett — digo. — A nova gerente de contas.
Bethany inclina a cabeça, analisando. Um segundo a mais do que o educado.
— Seja bem-vinda — fala, educada demais para ser sincera. — Espero que se adapte rápido. Aqui pode ser… intenso.
Madison sorri de leve.
Nada mais. Nenhuma explicação. Nenhuma defesa.
Isso parece incomodar Bethany mais do que qualquer resposta atravessada.
— Depois falamos, Harry — ela diz, tocando o meu braço de forma breve, quase automática. — Não vou atrapalhar.
Ela sai como entrou: deixando presença no ar.
Quando a porta se fecha, o silêncio se instala.
Madison volta o olhar para mim, neutra, profissional, como se aquela interrupção não tivesse significado absolutamente nada.
E talvez, para ela, realmente não tenha.
Mas para mim, fica claro que esta segunda-feira acabou de ganhar uma camada extra de complexidade.
E, pela primeira vez em anos, percebo que controle talvez não seja suficiente para lidar com o que acabou de chegar.