POV 3 - HARRY

1001 Words
Segundas-feiras já são ruins por natureza. Segundas-feiras com novas contratações impostas por meu pai são piores. Segundas-feiras em que preciso fingir que estou animado são praticamente tortura. Chego cedo, como sempre, porque o departamento criativo não se administra sozinho. Meus designers já estão na correria e a equipe de mídia parece que não dormiu desde sexta-feira. Giro a caneca de café na mão, tentando ignorar a sensação de que hoje vai ser um inferno. — Harry? — ouço Hillary me chamar, aparecendo com a sua prancheta habitual. — A nova gerente chega hoje. O seu pai pediu para você recebê-la pessoalmente. Claro. Óbvio. Meu pai fez de tudo para tornar isso ainda mais desconfortável. — Excelente — ironizo. — Nada como começar a semana com surpresas. — Você vai ser simpático? — ela pergunta, levantando uma sobrancelha. — Eu sempre sou simpático. Hillary ri. Ok, talvez eu não seja. Estou indo em direção à recepção quando ouço passos rápidos ecoando pelo corredor. Mas antes que eu veja qualquer coisa, alguém vira a esquina com tanta pressa que esbarra diretamente no meu braço, quase derrubando a minha caneca. — d***a! — a voz feminina diz. Seguro o café por reflexo. Ela segura a bolsa dela. Nenhum líquido é derramado, mas ainda assim olho irritado para a pessoa responsável pela quase tragédia. E é aí que a vejo pela primeira vez. Eu não sabia o nome dela até agora, mas sei na mesma hora. Não teria como confundir. Pele clara, cabelos pretos longos, olhos verdes que me encaram como se eu fosse o culpado pelo planeta estar girando mais rápido hoje. Baixa — comparada a mim — mas com postura firme, de quem não aceita desaforo. Roupa elegante, mas sem frescura. Jovem. Muito jovem. — Você anda sempre sem olhar pra frente? — ela pergunta, ajeitando o blazer como se eu tivesse estragado ele só de existir perto dela. Arqueio a sobrancelha. Temos uma atrevida. — Eu estava andando normalmente — respondo. — Você que veio voando pela esquina. — Talvez se a empresa tivesse placas indicando a recepção, ninguém viraria o corredor no susto — ela rebate. Hillary aparece ao meu lado, tentando não sorrir. — Harry, essa é Madison Bennett. Sua nova gerente de contas. Ah. Então é isso. A responsável por arruinar a minha segunda-feira. Madison estende a mão. Apertar ou não apertar? Eu decido apertar — profissionalismo básico — mas ela aperta de volta com firmeza, sem hesitar, como se estivesse se apresentando para um colega, não para o chefe. — Você chegou cedo — digo, porque não tenho nada melhor para falar e a minha mente ainda está processando o fato de que meu pai contratou... isso. — Eu gosto de chegar no horário — ela responde, com aquele tom polido que me irrita mais do que deveria. — No horário seria às oito — digo, olhando para o relógio. — Você chegou quinze minutos antes. — Então acho que é bom começar a semana surpreendendo alguém — ela dispara, sem perder tempo. Hillary tosse baixinho para esconder o riso. Ok. A menina tem língua afiada. Isso pode ser um problema. Ou uma diversão. Ainda não decidi. — Vamos ao meu escritório — digo, me virando. — Preciso explicar algumas coisas sobre o departamento antes de você começar. — Claro. Ela me acompanha, passos decididos, postura reta. Percebo alguns olhares curiosos dos funcionários no caminho. O departamento inteiro adora fofoca, e uma contratação feita pelo chefe supremo naturalmente gera especulações. Ao entrar no meu escritório, fecho a porta. Ela fica em pé, observando cada detalhe — os quadros das campanhas premiadas, a mesa de madeira clara, a parede de vidro com vista para o prédio ao lado. — Você está preparada para um trabalho difícil? — pergunto, direto. — Estou preparada para qualquer coisa — ela diz, sem hesitar. Essa segurança irrita. E atrai. Eu não precisava disso hoje. — A Cooper & Co. Advertising não é um campo de treinamento — aviso. — É uma empresa séria. A pressão é real. Os prazos são curtos. Os clientes são exigentes. E eu sou pior do que todos eles juntos. — Eu percebi — ela responde, cruzando os braços de leve. — E mesmo assim estou aqui. Meu peito se expande involuntariamente. Arrogância ou coragem? Ainda não sei. Antes que eu responda, batem na porta. Bethany. Claro. Porque hoje o universo decidiu brincar comigo. — Harry? — ela entra sem pedir licença, como sempre. — Preciso falar com você sobre o evento da Vinson & Grey... E então ela vê Madison. O sorriso plástico dela vacila por meio segundo. Um segundo perfeito. — Oh — Bethany diz, avaliando. — Não sabia que você estava ocupado. Madison observa a cena com calma. Muito calma. Como se estivesse analisando um novo cliente ou um incêndio controlado. Perfeito. Segunda-feira realmente começou. E eu já não sei se quero terminar esse dia... Ou deixar ele piorar um pouco só para ver até onde essa garota consegue me provocar. — Esta é a Madison Bennett — digo. — A nova gerente de contas. Bethany inclina a cabeça, analisando. Um segundo a mais do que o educado. — Seja bem-vinda — fala, educada demais para ser sincera. — Espero que se adapte rápido. Aqui pode ser… intenso. Madison sorri de leve. Nada mais. Nenhuma explicação. Nenhuma defesa. Isso parece incomodar Bethany mais do que qualquer resposta atravessada. — Depois falamos, Harry — ela diz, tocando o meu braço de forma breve, quase automática. — Não vou atrapalhar. Ela sai como entrou: deixando presença no ar. Quando a porta se fecha, o silêncio se instala. Madison volta o olhar para mim, neutra, profissional, como se aquela interrupção não tivesse significado absolutamente nada. E talvez, para ela, realmente não tenha. Mas para mim, fica claro que esta segunda-feira acabou de ganhar uma camada extra de complexidade. E, pela primeira vez em anos, percebo que controle talvez não seja suficiente para lidar com o que acabou de chegar.
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