POV 4 - MADISON

1001 Words
Entrar no escritório de Harry Cooper é como entrar em um daqueles anúncios publicitários clean e caros demais para o meu bolso. Minimalista. Organizado. Intimidador. E frio. Muito frio. Quase tão frio quanto o dono do lugar. Tento não demonstrar, mas o primeiro encontro foi... intenso. Ele tem aquela presença de quem sabe exatamente o que está fazendo e espera que todo mundo à volta acompanhe o seu ritmo. O tipo de pessoa que não aceita erros. Ou atrasos. Ou pessoas virando corredores muito rápido e quase derrubando o café dele. Mas eu também não aceito gente me olhando de cima, então acho que estamos quites. Harry me observa como se estivesse tentando decifrar um código secreto. Talvez o meu rosto. Talvez o meu currículo. Talvez o fato de eu existir. — Você vai ter bastante trabalho — ele diz, como se estivesse oferecendo um desafio. Sendo bem sincera... eu gosto de desafios. Mas antes que eu responda, a porta se abre sem aviso. E entra ela. Cabelos loiros brilhando, salto alto que anuncia cada passo e um perfume que chega no ambiente antes dela. Linda, confiante e vestindo um daqueles conjuntos que só funcionam em pessoas que nasceram sabendo posar para fotos. — Harry? — ela diz com a voz doce demais para ser real. — Não sabia que você estava ocupado. Claro que sabia. Pessoas como ela sempre sabem. Eu me viro para observar. Ela me olha de cima a baixo em uma análise rápida, calculada. O tipo de olhar que mede ameaça. Eu conheço esse olhar. Eu já recebi esse olhar antes. Harry suspira como quem esperava a interrupção ou como quem está acostumado com ela. — Bethany — ele diz, num tom neutro. — Estou com a nova gerente de contas. Ah. Então essa é Bethany. O nome que encontrei nos comentários falando sobre "o passado cada vez mais presente do Cooper". A ex-namorada. Ou ex-alguma coisa. Ela sorri para mim. Aquele tipo de sorriso educado, mas distante. Polido demais para ser verdadeiro. — Seja bem-vinda — ela diz. — A Cooper & Co. é uma empresa incrível. Tenho certeza que... você vai se adaptar. Tradução: boa sorte, querida, você vai precisar. — Obrigada — respondo no mesmo tom educado. — Estou animada para começar. E ela pisca, como se tivesse me desafiado sem palavras. Harry limpa a garganta. — Bethany, depois falamos. Agora estou apresentando o setor para a Madison. Ela toca de leve no braço dele — um toque íntimo demais para alguém que deveria estar apenas "falando sobre o evento". — Claro. Não vou atrapalhar. Aham. Claro. Ela sai, mas o perfume fica. Junto com a sensação curiosa de que acabei de entrar num território que pertenceu a ela por muito tempo. E talvez ainda pertença um pouco. Harry volta a me encarar, como se nada tivesse acontecido. — Vamos — ele diz, pegando a pasta com o meu cronograma. — Vou te mostrar o departamento criativo. Saímos do escritório e o corredor se abre para o espaço mais movimentado que já vi. Telas ligadas, pessoas correndo, cafés vazios, quadros de referências nas paredes. O caos organizado que eu amo. A equipe me olha com curiosidade, cochicha baixinho quando pensa que eu não escuto. Eu escuto. — Aquele é o pessoal de design — Harry diz, apontando para três pessoas discutindo fontes com intensidade de guerra. — Ali é o time de mídia. E aqui é onde você vai trabalhar. Meu lugar. Minha mesa. Minha nova vida. Sento para testar a cadeira. É confortável. Perfeita. Funcional. — Vai ser puxado — ele avisa, encostado no batente da porta. — É um departamento que exige resultado. — Foi por isso que eu aceitei — respondo, encarando de volta. Ele inclina a cabeça, como se estivesse reavaliando a minha existência. — Não se intimide com ninguém da equipe. Tradução: não se intimide com Bethany. — Não me intimido fácil — digo. E é verdade. Mas no fundo... No fundo, sei que o olhar de Bethany vai ficar ecoando por um tempo. Não porque eu me sinta ameaçada. Mas porque ela deixou claro que estou entrando em um jogo que começou muito antes de eu chegar. E Harry... Harry é definitivamente o tipo de prêmio que faz muita gente jogar sujo. Enquanto observo a movimentação ao redor, percebo como cada detalhe parece cuidadosamente planejado. O jeito que as telas estão posicionadas, a luz entrando pelas janelas, até o silêncio tenso nos corredores quando ele passa — tudo é projetado para testar você, para medir sua reação. E, pela primeira vez, percebo que controle talvez não seja suficiente para lidar com o que acabou de chegar. Cada passo que dou, cada gesto meu, será observado. Cada decisão terá impacto. Se Bethany ainda tiver alguma sombra sobre Harry… isso significa que nem tudo aqui será apenas trabalho. É um tabuleiro de xadrez, e eu sou a peça nova, observada de todos os ângulos. E isso… isso me excita e me assusta ao mesmo tempo. Sento-me e ajusto a cadeira, respirando fundo. Tento me concentrar nos projetos à minha frente, mas não posso ignorar os olhares da equipe, a presença magnética de Harry, e a lembrança de Bethany pairando como um aviso silencioso. Cada movimento daqui em diante terá que ser calculado. Preciso provar meu valor, não apenas como gerente de contas, mas como alguém que pode sobreviver nesse ambiente onde talento e poder se misturam perigosamente. E uma parte de mim… não quer apenas sobreviver. Quer jogar. Olho novamente para Harry, apoiado casualmente na porta, com aquele olhar que parece ver através de mim. É irritante e fascinante ao mesmo tempo. Tento focar nos arquivos sobre a mesa, mas a presença dele preenche cada centímetro do meu campo de visão. Bethany desapareceu, mas a sensação de que ainda está ali paira no ar, como uma sombra invisível. E eu sei que este lugar, esta equipe, e principalmente ele… testarão cada limite que eu tenho. Estou pronta.
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