Eu não deveria estar pensando nela.
Ou melhor — não deveria estar irritado pensando nela.
Mas desde que Madison Bennett entrou naquela sala hoje de manhã, com a postura confiante demais para uma novata e um sorriso educado demais para ser verdadeiro, eu sinto como se alguém tivesse movido a minha mesa trinta centímetros para a esquerda sem me avisar.
Incômodo. Desnecessário. E irritante pra c*****o.
Uma gerente de contas de vinte e cinco anos.
Contratada diretamente pelo meu pai.
Jogada no meu setor sem consultar ninguém — especialmente eu.
Perfeito.
Da minha sala, através do vidro, vejo Madison na mesa que preparei às pressas. Ela está inclinada sobre alguns briefings antigos, os olhos varrendo as páginas com uma atenção quase... afiada.
Ela não está perdida.
Não está insegura.
Não está nervosa como qualquer pessoa normal estaria no primeiro dia.
Isso, de alguma forma, me deixa ainda mais irritado.
Quando alguém não sabe o que está fazendo, eu sei lidar.
Mas alguém que age como se já soubesse tudo?
Aí é outra história.
Eu me aproximo do corredor, só observando. Ela não percebe — ou talvez perceba e finja que não. Ela passa o dedo por uma página, depois pega uma caneta e faz uma anotação organizada, rápida, precisa.
Droga.
Ela trabalha bem.
Ou pelo menos parece trabalhar.
Estou tão concentrado tentando achar algum erro que não percebo Noah se aproximando até ouvir a voz dele atrás de mim:
— Você está vigiando a novata, é?
— Não é "novata". É gerente de contas — resmungo, ainda olhando para Madison.
— Hm. Uma novata gerente de contas. — Ele cruza os braços, olhando pelo vidro. — Ela parece competente.
— Ela parece irritante — corrijo.
— Engraçado, porque você parece obcecado.
Dou um passo para longe do vidro, bufando.
— Não estou obcecado. Estou avaliando.
Noah ergue as sobrancelhas, claramente se divertindo.
— Claro. Avaliando. — Ele dá dois tapinhas na minha nuca, provocando. — Estou indo abrir o pub. Você vem depois? Preciso de alguém para fingir que sabe jogar dardos.
— Eu sei jogar dardos.
— Aham, se jogar dardos significa errar a parede inteira... — Noah ri. — Passa lá quando sair da toca de vidro.
Ele vai embora e eu paro finalmente de olhar para Madison.
Ou tento parar.
Volto para a minha sala, mas a imagem dela lá fora — concentrada, profissional, completamente alheia ao fato de que está ocupando um espaço que deveria ser meu decidir — me acompanha por horas.
Quando o expediente termina, estou exausto demais pra continuar fingindo que não preciso sair dali.
Então pego as minhas chaves e vou ao único lugar onde a minha cabeça funciona: o pub do Noah.
O The Crowned Bear está mais cheio que o normal. Trio ao vivo tocando na frente, cheiro de cerveja artesanal e madeira polida, luzes amareladas que deixam tudo com um ar quase aconchegante demais para um estabelecimento administrado por alguém tão caótico quanto Noah.
Ele me vê entrar e ergue o copo, sorrindo como quem já sabia que eu iria.
— Olha só, o príncipe do marketing. Senta aí.
Eu me sento no balcão, soltando um suspiro tão cansado que até o barman do canto olha de lado.
— Dia difícil? — Noah pergunta, servindo o meu copo.
— Se você soubesse...
— Eu sei. — Ele ri. — É por isso que eu abri outra torneira antes de você chegar.
Dou um gole longo, deixando a bebida descer queimando um pouco.
— Ela mexeu com você — ele diz, sem rodeios.
— Ela não mexeu comigo — retruco rápido demais. — Ela só... entrou no setor achando que já entendia tudo.
— Talvez entenda — Noah sugere, apoiando o queixo na mão. — o seu problema não é ela ser inexperiente. O seu problema é que ela não parece intimidada por você.
Eu fico em silêncio.
Porque, infelizmente, ele está certo.
— Não gosto desse tipo de funcionário — digo, finalmente. — Gente que chega e já acha que pode mudar tudo.
— Hm. Gente como você quando começou na agência? — ele provoca.
Reviro os olhos.
Ele ri.
— Tá bom, sério agora — Noah continua. — Ela trabalha bem?
Eu lembro da forma como ela analisava os briefings.
Da postura focada.
Das anotações rápidas.
— ...Sim — admito, contrariado.
— Então talvez o problema seja outro.
— Qual?
Ele dá um sorriso lento, malandro.
— Você está com medo de perder o controle, Harry. E honestamente? — ele ergue o copo — Eu acho isso ótimo.
Reviro os olhos e bebo mais.
Mas a verdade é simples:
Eu não sei se Madison Bennett está ali para trabalhar, para desafiar meu pai...
Ou para me desequilibrar.
E isso — isso sim — me deixa completamente irritado.
Porque, pela primeira vez em muito tempo... alguém conseguiu.
E o pior é que não consigo simplesmente ignorar. Cada gesto dela, cada movimento calculado, fica gravado na minha cabeça como se fosse uma fita repetindo em loop. Quando ela pega a caneta, quando franze levemente a testa ao ler um parágrafo, eu noto. E odeio notar.
Não é só competência. É confiança. Aquela confiança irritante que faz parecer que nada pode dar errado ao redor dela — e que, secretamente, me desafia sem precisar falar uma palavra.
Sento de volta na minha cadeira, cruzo os braços e tento me concentrar nos relatórios que pipocam na minha tela, mas tudo parece cinza e sem vida comparado à presença dela.
Puxo o café para mais perto e tomo outro gole, tentando, em vão, acalmar o efeito que ela teve sobre mim.
Eu não sei se é fascínio ou frustração. Provavelmente os dois. Mas sei de uma coisa: ela não é alguém que se esquece facilmente. E se ela acha que vai chegar aqui e passar despercebida, está enganada.
Porque Madison Bennett pode até estar tentando ser apenas mais uma gerente de contas. Mas comigo, ela já mexeu com muito mais do que isso: com o meu ritmo, meu controle e, de um jeito que eu odeio admitir, com minha curiosidade.
E isso é perigoso.