tensão no quintal

730 Words
A manhã chegou silenciosa demais. A casa dos pais de Aurora já não tinha o mesmo barulho animado dos dias anteriores. O casamento tinha acabado. Os convidados tinham ido embora. Restava apenas o cansaço espalhado pelos corredores. Aurora acordou antes de todos. Ficou alguns segundos sentada na beira da cama, olhando para o nada. A pergunta ainda ecoava: “Os olhos dela… são iguais aos meus, não são?” Ela respirou fundo e se levantou antes que a mente começasse a repetir aquilo outra vez. Na cozinha, a mãe dela já preparava café. — Dormiu bem? — Dormi — Aurora mentiu. Minutos depois, Ana Liz apareceu com o cabelo bagunçado, ainda sonolenta. — Good morning, mommy. — Bom dia, meu amor. A menina alternava naturalmente entre inglês e português. Aurora achava aquilo lindo… e perigoso. Cada vez que Ana Liz misturava os dois mundos, lembrava que estava tentando mantê-los separados. Owen surgiu logo depois. — Morning. Ele beijou a testa de Aurora. Simples. Carinhoso. Presente. Apenas ali, observando e pronto para proteger, sem emoção ou culpa. O portão da frente abriu. Aurora congelou antes mesmo de ouvir a voz. — Bom dia! Matteo. A voz dele era natural demais. Como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse deixado uma pergunta suspensa no meio da dança. — Ele veio buscar umas coisas da festa — a mãe de Aurora comentou casualmente. Claro. Era inevitável. Aurora sentiu o corpo inteiro entrar em alerta. — I’ll take Ana Liz to the backyard — disse rápido para Owen. (Vou levar a Ana Liz para o quintal.) Ele franziu levemente o cenho. — Why? (Por quê?) — Just… fresh air. (Só… ar fresco.) Ela não esperou resposta. Saiu pela porta lateral com a filha pela mão. No quintal, o sol da manhã parecia claro demais. Ana Liz começou a brincar com uma bola pequena, alheia à tensão adulta. Aurora tentou regular a respiração. Ela estava exagerando. Talvez Matteo tivesse deixado aquilo para trás. Talvez fosse apenas impressão. Mas então a porta lateral se abriu. Passos. Ela não precisou virar para saber. — Você está me evitando? A voz dele estava calma. Sem acusação. Sem ironia. Só direta. Aurora se virou devagar. — Não. — Está sim. Ele deu mais um passo, mantendo distância suficiente para não parecer invasivo. — Eu fiz uma pergunta ontem. — E eu não respondi. — Exatamente. O silêncio ficou entre os dois. No fundo do quintal, Ana Liz chutava a bola contra o muro, rindo sozinha. Matteo olhou rapidamente para ela. Depois voltou para Aurora. — Eu não estou acusando você de nada. — Ótimo. — Mas eu não sou cego. O coração dela acelerou. — Você está imaginando coisas. Ele respirou fundo. — Então olha pra mim e diz que eu estou errado. Aurora sustentou o olhar. Era isso. O momento que vinha evitando. Mas antes que pudesse responder — — Mommy! Look! Ana Liz correu até eles com a bola nos braços. Parou entre os dois. Olhou de um para o outro. Inocente. — Can you play with me? (Vocês podem brincar comigo?) O mundo adulto desmoronando. A infância intacta. Matteo abaixou o olhar para a menina. Por um segundo, algo quase suave passou pelo rosto dele. Mas quando voltou a olhar para Aurora, a pergunta ainda estava lá. Sem resposta. E agora, não era mais curiosidade. Era necessidade. Ana Liz continuava a brincar, correndo de um lado para o outro no quintal, rindo, alheia à tensão dos adultos. Matteo observava cada movimento, o instinto paterno borbulhando sem que ele pudesse admitir, enquanto se afastava levemente para não criar conflito. Foi nesse momento que Bia apareceu discretamente na porta do quintal, olhando os dois. Com um sorriso leve e tom curioso, comentou para Aurora: — Nossa… você reparou como ele parece preocupado com você? Quase como se estivesse tentando entender cada gesto seu… Aurora sentiu o frio subir na espinha, mantendo a calma. Matteo desviou o olhar, o peito apertado, mas nada podia ser dito. Ana Liz, ignorante de tudo, chutava a bola para Owen, que se aproximava dela com naturalidade, entrando no jogo sem criar tensão. O silêncio entre Aurora e Matteo carregava mais do que palavras. Ele lutava contra o instinto e a curiosidade, enquanto ela se mantinha firme, controlando cada movimento. Owen apenas sorria para Ana Liz, seguro e protetor, mantendo o segredo intacto.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD