Matteo encarava o próprio reflexo no espelho do banheiro como se estivesse diante de um estranho.� A água fria escorria pelas mãos entrelaçadas, mas não apagava a pressão latejante na nuca, nem a sensação incômoda de que alguma coisa, em algum ponto do caminho, tinha saído completamente do controle.�Respirou fundo, contando mentalmente, como fazia quando precisava se manter à tona: um, dois, três, quatro. A contagem nunca falhava. Mas, naquela noite, parecia apenas empurrar o caos alguns centímetros para trás, sem realmente afastá‑lo.�Lembrou da sala silenciosa, dos papéis alinhados demais sobre a mesa, do sorriso preciso de Bia — pequeno, porém calculado, como se cada músculo do rosto fosse ensaiado.� A cena voltava inteira, cortando sua paz em pedaços. Ela ajeitando as folhas, os dedos percorrendo os cantos como quem organiza não só documentos, mas histórias. Versões. Narrativas.�Secou o rosto com força, como se pudesse arrancar a dúvida da pele. Quando apagou a luz e saiu do banheiro, o corredor parecia maior, mais escuro, como se cada sombra abrigasse uma pergunta que ele ainda não tinha coragem de fazer.Bia estava no quarto, sentada na cama, com o celular na mão. A luz da tela iluminava o rosto, criando um halo suave em torno de seus traços delicados. Ela levantou os olhos quando o ouviu entrar e o sorriso surgiu quase no automático — doce, levemente cansado, do tipo que pedia cuidado em vez de confronto.�— Você demorou — comentou, ajeitando o cabelo atrás da orelha. — Tá tudo bem?Matteo apoiou o ombro na lateral da porta, sem se aproximar de imediato. Observou-a em silêncio por alguns segundos, tentando decifrar o que existia para além da expressão tranquila.— Tô pensando — respondeu, por fim. A voz saiu mais baixa do que ele gostaria. — Em muita coisa.Ela franziu o cenho, mas o olhar cintilou rápido, como se estivesse calculando o peso de cada palavra que poderia usar a seguir.— Pensando… em nós? — pressionou, com um toque de vulnerabilidade exata, medido.Ele hesitou. A resposta óbvia era “sim”. Mas não era só isso. Pensava nos horários que não batiam. Nas datas. No ultrassom que ela tentou evitar. No jeito como a história do atraso parecia ter sido montada para caber, não para convencer.— Em tudo — ele corrigiu. — No tempo. Nas coisas que aconteceram.O silêncio caiu entre os dois, denso. Bia abaixou o olhar, mordeu o lábio inferior, os ombros desabando suavemente, como se tivesse sido atingida por algo invisível. Era uma performance perfeita de fragilidade, e Matteo odiou a si mesmo por reconhecer isso como uma performance.— Eu sei que você tá estranho comigo — murmurou ela, a voz embargada na medida certa. — Desde o ultrassom… você mudou.Ele avançou alguns passos, mas parou no meio do caminho.— Não é só por isso, Bia.Ela respirou fundo, como se reunisse coragem, e levantou novamente o olhar para ele. Havia brilho nas pupilas, lágrimas ainda contidas, mas prontas para aparecer se necessário.— Então fala comigo, Matteo. — A voz dela tremeu. — Se você tem dúvida sobre mim, sobre o bebê, sobre qualquer coisa… fala. Eu não aguento essa distância silenciosa. Parece que eu fiz algo h******l e nem sei o quê.Ele sentiu o golpe. Culpa. A estratégia mais antiga e mais eficiente.— Eu só tô tentando entender algumas coisas — respondeu, buscando um tom neutro. — Tipo as datas. As contas.A primeira lágrima escorreu, rápida, como se estivesse apenas aguardando autorização.— Você acha… — ela engoliu em seco, deixando a frase morrer no ar. — Você acha que eu inventaria uma gravidez? Que eu brincaria com uma coisa dessas?Matteo fechou os olhos por um segundo. A imagem de Bia na sala, reorganizando papéis, surgiu novamente — aquelas folhas podiam ser qualquer coisa: exames, recibos, impressões, evidências.� Ele não tinha visto o conteúdo, só a ordem obsessiva.— Eu não quero pensar isso de você — disse, abrindo os olhos. — Mas eu também não consigo ignorar quando as coisas não encaixam.Bia respirou fundo, como se estivesse tentando se manter inteira.— As coisas não encaixam porque a minha vida é um caos, Matteo — disparou, de repente, a voz mais alta. — Eu tô nervosa, grávida, cansada, com medo de te perder… E, ainda assim, parece que qualquer coisa que eu faça é usado contra mim.Ela se levantou da cama, o corpo pequeno parecendo maior pela postura ereta, pelos ombros tensionados.— Você sabe como minha família é. — Ela deu uma risada curta, amarga. — Você sabe como eles sempre dão um jeito de me colocar como a frágil, a que precisa ser protegida.Matteo sentiu o estômago revirar. A frase vinha com a intenção de limpar a própria imagem — se até a família a pintava como vítima, como poderia ser manipuladora? Era um argumento inteligente.— Mas não é só a sua família que constrói essa imagem — retrucou, devagar. — Às vezes… parece que você também usa isso.Ela congelou. Por um instante, a máscara escorregou imperceptivelmente — o olhar ficou mais duro, a mandíbula trincou. Foi rápido, mas Matteo viu. E, ao reconhecer, sentiu algo dentro dele se partir de vez.— Você tá dizendo que eu me faço de vítima? — perguntou, com a voz fria.Ele poderia recuar. Poderia amenizar, dizer que exagerou, que estava cansado. Mas alguma coisa — talvez o acúmulo de pequenas incoerências, talvez
continua......