As primeiras provas

823 Words
Depois do café, a casa foi se enchendo de sons comuns: talheres, água na pia, o desenho ligado na sala para distrair Ana Liz. Por fora, tudo parecia normal. Por dentro, nada estava.Bia saiu pouco depois, alegando que precisava resolver umas coisas no centro de Maricá.� Deu um beijo rápido em Matteo, um abraço em Ana Liz e um sorriso medido para Aurora.— Mais tarde eu passo aqui de novo — disse, ajeitando a bolsa no ombro. — Qualquer coisa, me liga.Quando o portão se fechou atrás dela, o silêncio que ficou não foi exatamente confortável. Matteo encostou-se na bancada, cruzando os braços, observando Aurora em silêncio por alguns segundos.— Ela sabe — murmurou Aurora, sem olhar para ele.— Ela desconfia — corrigiu Matteo, pensativo. — Mas isso não muda o que a gente precisa fazer.Aurora o encarou. — Que é?Ele respirou fundo. — Eu disse ontem que vi sinais. Mas está na hora de parar de viver de sensação. Eu preciso de algo concreto.Matteo sempre foi observador. Era uma qualidade que o ajudava no trabalho, nas ruas, nos detalhes que ninguém via. E agora, aquela mesma atenção começava a se voltar totalmente para Bia.Mais tarde, enquanto Ana Liz brincava na sala e Aurora dobrava roupas no quarto, Matteo pegou o celular, sentou-se à mesa e começou a revisar mensagens antigas com Bia. Conversas, horários, justificativas demais. Explicações perfeitas demais.Algumas coisas não batiam.Viagens que ela dizia ter feito sozinha, mas nas fotos sempre aparecia cortando alguém na borda do quadro. Reuniões de trabalho que terminavam tarde, mas com intervalos de horas sem mensagens, sem localização, sem nada. E, em meio a tudo, uma insistência constante para que ele confiasse cegamente nela, ao mesmo tempo em que o deixava sempre em dívida emocional. Isso se parecia muito com manipulação emocional descrita em relacionamentos abusivos, em que o parceiro se faz de vítima para ganhar controle.�Matteo fechou os olhos por um instante. Podia ser coincidência. Podia ser paranoia. Mas, depois da noite anterior, ele não queria mais viver de “podia ser”.Foi então que se lembrou de algo: um comentário solto de um amigo em comum, meses atrás, sobre “a forma como a Bia sempre cai em pé”. Sobre como ela sempre parecia sair como a boazinha de qualquer situação complicada.Ele pegou o telefone e mandou uma mensagem para esse amigo. “Cara, você lembra daquela história da Bia com a ex-chefe dela? Me conta de novo, mas sem filtro.”A resposta demorou alguns minutos para vir. Quando veio, não foi curta.Enquanto lia, o queixo de Matteo foi travando. A tal história, que Bia sempre havia contado como um caso de injustiça contra ela, não parecia tão inocente assim na versão dos outros. Não havia sido apenas uma “chefe abusiva” e uma “Bia perseguida”. Havia insinuações de que Bia se aproximara da família da chefe, ganhara confiança de todo mundo, e depois usara informações pessoais em uma situação de chantagem velada, se colocando como vítima o tempo todo — um padrão típico de manipuladores que se fingem de frágeis para controlar o outro.�— Não… — Matteo sussurrou para si mesmo, o estômago se revirando.— Matteo? — a voz de Aurora veio da porta.Ele levantou o olhar. Aurora se encostou ao batente, os braços cruzados, como se estivesse se preparando para qualquer resposta.— O que foi?Ele pensou por um segundo se devia poupar. Mas já tinham passado da fase de meias verdades.— Lembra daquela história da Bia e a ex-chefe dela? — perguntou. — Não foi bem do jeito que ela contou.Ele resumiu. Contou o que ouvira, as versões diferentes, os pequenos golpes de boa moça, a forma como Bia virava o jogo sempre a favor dela, usando culpa, lágrimas e palavras certas.Quando terminou, Aurora estava pálida. — Então… ela sempre foi assim.— Parece que sim — respondeu ele, com a voz mais dura do que pretendia. — E se foi capaz disso lá atrás… eu não duvido de mais nada agora.Aurora sentiu um arrepio percorrer a coluna. Não era só sobre traição. Era sobre controle. Sobre alguém que sabia exatamente como se pintar de vítima, como aparecer como a boa mulher, a boa namorada, a boa tia — enquanto por trás mexia nos fios de todo mundo.— Matteo… — ela disse, num sussurro. — Se você for até o fim com isso… não vai ter volta.Ele sustentou o olhar dela, firme. — A gente já passou do ponto de volta, Aurora. Agora eu preciso da verdade. Toda ela.Lá fora, o céu começava a nublar, como se a cidade sentisse a mudança de temperatura que ainda não tinha chegado na pele. Em Maricá, os dias costumavam ser tranquilos para quem olhava de longe.� Dentro daquela casa, porém, uma guerra silenciosa começava — e ninguém mais ali seria o mesmo quando a máscara de Bia finalmente caísse.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD