A noite caía silenciosa sobre a casa de Aurora. Lá fora, o vento arrastava folhas secas pelo jardim, sussurrando segredos que apenas a escuridão parecia compreender. Cada sombra que se formava nas paredes prolongava a expectativa, como se o próprio tempo observasse o que estava prestes a acontecer.No quarto ao lado, Ana Liz dormia tranquilamente, o rosto sereno iluminado suavemente pelo abajur. O sono dela era a única paz dentro daquela casa marcada por tantas incertezas. Aurora, porém, permanecia de pé na sala, os olhos fixos em Matteo.O olhar dele era intenso, carregado de sinceridade e de uma determinação silenciosa. Cada gesto, cada respiração, traçava um caminho invisível que os unia — uma linha que o destino parecia insistir em reforçar.— Eu não consigo mais... — começou Matteo, a voz rouca, quase um sussurro. — ...não consigo ficar distante de você. Cada detalhe seu, cada cuidado que teve... eu vi. E tudo que eu quero é ficar do seu lado, Aurora.Aurora sentiu o coração acelerar. Sabia que um único movimento poderia mudar tudo, mas, ao mesmo tempo, percebia que resistir àquele sentimento era impossível. Matteo se aproximou lentamente. O calor da presença dele parecia incendiar o ar entre eles.— Quando vi a Ana Liz, entendi que precisava proteger vocês duas. Mas não apenas fisicamente — algo em mim me ligou a você — disse ele, com firmeza. — E se a Bia está realmente me traindo, eu não vou hesitar. Quero você, Aurora. Quero nós dois.O nome de Bia pairou no ar como uma ferida aberta. Aurora engoliu em seco, dividida entre a razão e o desejo. Matteo estava ali, vulnerável, entregue. E, naquele instante, ela também estava.Eles se aproximaram sem pensar. Um toque, depois outro. As mãos se entrelaçaram, carregando lembranças, arrependimentos, promessas não ditas. O tempo parou. O mundo inteiro se calou, deixando apenas o som dos corações batendo no mesmo ritmo.Mas, mesmo no auge da entrega, a mente de Aurora não descansava. As sutilezas de Bia — os olhares desviados, as perguntas insistentes, os comportamentos contraditórios — formavam um quebra-cabeça perigoso. Ainda não tinha provas, mas a sensação era clara: a máscara de Bia começava a rachar.— Matteo... — sussurrou ela, a voz trêmula, interrompendo o silêncio. — Precisamos ser cuidadosos. Ana Liz precisa de nós, e não podemos expor nada ainda.Ele assentiu, segurando as mãos dela com firmeza.
— Eu sei — respondeu, olhando-a com uma certeza que queimava. — Mas agora eu sei o que quero. Eu não vou deixar você ir. Nem você... nem nossa filha.Aurora suspirou, cedendo à força que os aproximava. O mundo ao redor parecia desaparecer, deixando apenas eles dois, um fio de verdade e desejo que não podia ser ignorado.Enquanto o clima se intensificava e o destino deles se entrelaçava ainda mais, Aurora sentiu o peso da realidade bater como um alerta silencioso.
Ela encostou a testa na dele, os olhos fechados por um segundo… e então abriu.— Matteo… — a voz saiu baixa, mas firme. — E se você estiver errado?Ele franziu a testa, confuso.
— Errado?Aurora respirou fundo e segurou o rosto dele entre as mãos.
— E se a Bia não estiver te traindo? E se tudo isso for só desconfiança? O que eu sou nessa história… se você estiver errado?O silêncio caiu pesado entre eles.
Porque aquela era a pergunta que nenhum dos dois queria enfrentar.
Se Matteo estivesse enganado… Aurora seria apenas a outra.
E Ana Liz estaria no meio de um erro irreversível.Matteo segurou o rosto dela com intensidade, os olhos escurecendo de convicção.
— Eu não estou errado. Eu senti. Eu vi os sinais. E se eu estiver… — ele respirou fundo — eu assumo as consequências. Mas eu não vou fingir que não sinto o que sinto por você.O ar ficou denso.
Não era apenas desejo agora.
Era risco.
Era escolha.
Era ponto de não retorno.E Aurora soube, naquele instante, que qualquer caminho que escolhessem… alguém sairia ferido.