Capítulo 4 - Mundo pequeno, cidade grande

1295 Words
Londres era o tipo de lugar que fazia as pessoas se sentirem pequenas. Como se pudessem desaparecer completamente e ninguém notasse. E depois da viagem caótica de semanas atrás, foi exatamente isso que Aurora presumiu ter acontecido. Ele tinha ido embora. Agora, uma história que ela contaria em festas. O Sr. Sério era apenas um homem qualquer que Aurora havia encontrado. Até que deixou de ser. Era mais uma manhã cinzenta na cidade. Aurora acordou tarde e quase torceu o tornozelo pulando sobre um azulejo quebrado na estação de metrô. Quando chegou mancando ao restaurante italiano para o seu turno, o mundo já parecia tê-la mastigado e cuspido fora. O lugar estava como sempre: fervilhando com conversas em uma dúzia de idiomas, a cozinha fumegando como um campo de batalha e o gerente berrando ordens como um Gordon Ramsay de baixo orçamento. Aurora prendeu o cabelo com uma presilha, pegou uma bandeja e mergulhou de cabeça no modo sobrevivência. Sorria, anote os pedidos, esquive-se do cliente assíduo e assustador que sempre pedia guardanapos extras como se fosse um código para alguma coisa – e repita. Ela tentou se distrair com o ritmo daquilo tudo. Se se mantivesse ocupada o suficiente, não pensaria nele. Não pensaria em como seus olhos eram azuis. Não se perguntaria qual era o seu nome. Ou por que a lembrança dele fazia seu estômago revirar, no meio de guardanapos dobrados. As horas se confundiram. A campainha da porta tocou. Ela não viu quem era a princípio. Não imediatamente. Estava polindo uma taça de vinho quando se virou e o viu. Sr. Sério. Seu aperto na taça afrouxou e, felizmente, ela escorregou até o balcão logo abaixo, deixando apenas uma pequena rachadura visível. O coração de Aurora batia forte contra as costelas como se quisesse sair, seu estômago dando cambalhotas. Ela piscou. Uma vez. Duas vezes. Ele estava fechando a porta atrás de si quando se virou lentamente. E então seus olhares se encontraram. "Que mundo pequeno", ela sussurrou, meio admirada, meio incrédula. E então ela começou a se mover. Caminhando mais rápido que seus colegas pelo restaurante, desviando-se das mesas com destreza. Ela o alcançou e, sem pensar, o abraçou. O Sr. Sério congelou. Completamente, absolutamente imóvel. Como se alguém tivesse apertado o botão de pausa. Ele a olhou como se ela não fosse real, como se talvez fosse uma alucinação causada pelo estresse ou pelo excesso de café expresso. Os olhos dela brilharam quando ela se afastou o suficiente para sorrir para ele. "Sr. Sério", ela sussurrou, tonta de incredulidade. "O senhor está mesmo aqui? Como?" Ele não respondeu imediatamente. Sua mão instintivamente segurou sua cintura quando ela esbarrou nele, e permaneceu ali, firme e inabalável. Aurora deu meio passo para trás, piscando para ele. "Você parece que viu um fantasma", disse ela com uma risada suave. "Também está chocado que eu existo? Porque eu também. Você é muito misterioso, sabia?" Mesmo assim, ele não disse nada. Nem mesmo um sorriso irônico. Ela estalou a língua de forma brincalhona. "Dessa vez eu não estou bêbada, eu juro. Estou completamente sóbria. Bem... no meu terceiro café gelado com leite, mas isso não conta." Ele a examinou de cima a baixo lentamente, com os olhos indecifráveis. "Ainda quieto, né? Tudo bem." Ela começou a falar. Porque não conseguia ficar calada. Contou sobre seu péssimo emprego de garçonete, como vivia derrubando coisas e, por algum motivo, ainda não tinha sido demitida. Sobre seu senhorio problemático que aumentava o aluguel como se fosse um esporte. Sobre seus intermináveis ​​trabalhos da faculdade. E ainda acrescentou que coentro tinha gosto de sabão, porque aquilo era um horror. Ele piscou lentamente. Ainda sem palavras. "Ah, qual é", provocou ela. "Nem um sorrisinho? Você tem que admitir, coentro é a pior e**a de todas." Quando parou para respirar, percebeu que ele não se mexera. Apenas ficou parado ali. Observando-a. Ela riu, massageando a têmpora. "Isso é tão estranho, juro que pensei que você fosse um sonho. Fiquei repassando aquele voo como se fosse um delírio febril. Ou melhor, alcoólico! E agora você simplesmente aparece aqui? No meu trabalho? É meio grosseiro, na verdade, aparecer assim, sem avisar." A boca dele se contraiu. m*l. Quase como se um sorriso tivesse considerado aparecer, mas desistido. Nesse instante, uma voz brusca soou atrás dela. "Aurora! Volte para o balcão agora ou você vai cobrir o turno da noite!" Aurora estremeceu. Virou-se e viu seu gerente a encarando como se ela tivesse acabado de insultar a mãe dele. Ela não tinha feito isso. Ela acha. "Eu estava apenas cumprimentando um... Hum... amigo de longa data", disse ela, erguendo as mãos como se fosse inocente (ela não era). "Não me importa se ele é seu primo ou seu quiroprático, volte para as suas mesas ou eu vou te designar para limpar o banheiro!" Ela fez uma careta. "Que charme. Nada como a ameaça de água sanitária e pias entupidas para me lembrar dos meus sonhos." Ela se virou para o Sr. Sério, que a encarava com um olhar fulminante na direção atrás dela. Estranho. Ela murmurou para ele: "O dever me chama. A comida não espera por ninguém. Mas não desapareça de novo, ok?" Ele não disse nada, mas o jeito como seu olhar suavizou levemente nas bordas pareceu um sussurro. Ela respirou fundo uma vez, com a voz trêmula, antes de se apressar em direção às mesas. Ele a observou... Como se ela fosse o caos em movimento, um turbilhão de cores e calor invadindo o seu mundo que era tingido por tons de cinza, apenas. Ela atendia duas mesas enquanto o mantinha em seu campo de visão periférico o tempo todo. Ele não se mexeu. Nem sequer fez um pedido. Apenas ficou parado ali, como se estivesse debatendo algo consigo mesmo. Alguns minutos depois, ele finalmente se aproximou do balcão. Sua voz era baixa. "Café. Preto." Aurora se virou bruscamente da máquina de expresso e sorriu. "Escolha ousada. Você parece ser alguém que gosta de café amargo." Ele piscou para ela. "Estou brincando", acrescentou ela rapidamente. "Mais ou menos." Ela deslizou o café em sua direção. Seus dedos se roçaram. "Gostei do seu nome, aliás", disse ele de repente. Ela piscou. "Você... como sabe meu nome?" Será que esse cara era um perseguidor secreto? Ele olhou de relance na direção da voz do gerente que gritava da cozinha. E se lembrou do seu nome ser cuspido aos gritos pelo o seu chefe há alguns minutos atrás. "Acabei de levar uma bronca. Uma bronca daquelas." Aurora riu, uma risada genuína que iluminou todo o seu rosto. "Justo. É meio que o preço a se pagar por ser um desastre ambulante." Então, de repente, o telefone dele tocou. Ele cerrou os dentes. Não olhou para a tela. Apenas pressionou o telefone contra a orelha. Silêncio. "Estou a caminho." A voz dele era severa. Fria de novo. Profissional. Uma muralha. Não literalmente, claro, isso seria estranho, pensou Aurora. Ela deu um passo para trás, perdendo um pouco o ânimo, mas seu interesse reacendeu, as palavras escapando de sua boca sem controle enquanto um sorriso voltava a surgir em seu rosto. "Ooooh, quem era? Você tem uma reunião de negócios? Você parece alguém do meio empresarial. Parecia importante, é melhor você se apressar, não quero que seja demitido, sabe? Nossa! E se você for o chefe? É? Pode me contar. Você provavelmente é dono do prédio do outro lado da rua, não é?" Ele não respondeu. Apenas acenou com a cabeça uma vez e se virou para sair. Aurora encarou o lugar onde ele estava. Seu coração palpitava. Suas mãos ainda formigavam. Sem nomes. Sem números. De novo. Talvez o universo ainda não tivesse terminado de brincar. Talvez o destino estivesse apenas começando.
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