As manhãs de domingo eram sagradas para Aurora. Sem despertador, sem maquiagem, sem pressa. Apenas olhos sonolentos, meias felpudas e o aroma persistente de lavanda do seu spray de travesseiro.
Seu apartamento estava silencioso, a luz do sol entrando pelas janelas. Havia paz em seu apartamento enquanto um vinil do Haim tocava suavemente no canto, e sua amada planta monstera finalmente dava sinais de vida depois de semanas sendo ignorada.
Ela caminhou descalça até a cozinha e se serviu de café. Seu telefone vibrou e ela deu uma olhada nele com um sorriso.
Zara: "Brunch em 30 minutos. Vista algo bonito. A Liv está ameaçando pedir as panquecas sem a gente."
Alina: "Ela vai mesmo. Ela já está vestida. Gloss e rímel. Socorro!"
Isla: "Vou levar minha câmera analógica. Ninguém se vista sem graça."
Aurora sorriu animada para o celular, tomando um gole de café e folheando o guarda-roupa em busca de uma roupa que ainda não tivesse usado, o que, infelizmente, era impossível. Finalmente, vestiu um vestido de verão amarelo-manteiga que brilhava à luz do sol por causa do glitter espalhado pelas peças, resultado de passeios recentes. Para surpresa de todos, não chovia nas ruas movimentadas de Londres, e Aurora aproveitou a oportunidade. Completou o look com seus óculos de sol vintage favoritos e alguns anéis empilhados para dar um toque dramático. Ela se arrumou um pouco... não para ninguém em particular, é claro. Bem, talvez, só por precaução, mas Aurora rapidamente desviou a atenção para não se aprofundar mais nisso.
O brunch com as amigas foi em um café aconchegante com cadeiras diferentes, luzinhas de fada penduradas no teto e vasos de plantas em xícaras de chá. O ar tinha cheiro de chai de baunilha e croissants quentinhos.
Zara já tomava um latte de leite de aveia, vestindo um macacão de linho e cantarolando uma música enquanto batucava os dedos nas mesas rústicas. Liv sentou-se ao lado dela, no meio de um desabafo sobre um homem que a ignorou por duas semanas e depois tentou "acidentalmente" esbarrar nela nos correios.
"Ele disse: 'Nossa, que engraçado te ver aqui'", disse Liv, sem demonstrar nenhuma emoção. "Hum, oi??? Senhor, o senhor mora em Notting Hill. Eu moro em Camden. O senhor teve que mudar o CEP para me encontrar?"
Alina gargalhou. "Isso definitivamente não é coincidência, talvez você devesse aparecer na casa dele e fazer o mesmo."
Isla tirou uma foto do momento, sorrindo por trás da lente. "Liv, se inclina para a luz. Preciso disso para a sua era 'homens são uma doença'."
As meninas riram baixinho. Liv se inclinou mesmo assim.
Aurora observava as meninas com um sorriso no rosto, cada risada que saía da boca delas reconstruindo sua alma, uma distração temporária dele.
Um silêncio se instalou entre as meninas. Zara trocou olhares curiosos com elas depois de fixar o olhar em Aurora, pronta para saber tudo sobre seu "homem misterioso".
"Então", disse Zara arrastando as palavras, tomando um gole de café devagar. "Alguma novidade sobre o seu homem m*l-humorado?"
"Aff", resmungou Aurora, escondendo-se atrás da sua mimosa. "Nem era tão sério assim."
"Nunca é", disse Alina. "Até ele aparecer nos seus sonhos, e pior ainda se for em câmera lenta."
"Ele mandou mensagem?", perguntou Liv, curiosa.
"Eu não tenho o número dele." Os olhos delas se arregalaram.
"Você nem sabe o nome dele", apontou Isla, com as sobrancelhas arqueadas, orgulhosa da sua afirmação enquanto tomava um grande gole do seu Aperol Spritz.
"Eu sei!", disse Aurora. Então, timidamente, murmurou: "Mais ou menos."
Os olhos de Zara brilharam. "Amor, Sr. Sério não é o nome dele", disse Zara, rindo sem parar.
"Escuta!! Se ele aparecer de novo, dessa vez eu digo algo que faça sentido. Talvez. E! Eu vou descobrir o nome dele, eu juro."
"É melhor mesmo", Alina sorriu maliciosamente. "Porque da próxima vez, vamos te seguir e fingir que somos suas guarda-costas. Só por precaução, caso ele seja bonito e perigoso."
"Ou bonito porque é perigoso", murmurou Liv. "Não que eu aprove isso."
Depois do brunch, elas entraram em várias boutiques a duas ruas de distância. O tempo passou voando enquanto as garotas passavam o resto do dia rindo sem parar, experimentando vestidos ora bonitos, ora absolutamente ridículos.
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Enquanto isso, do outro lado da cidade, a manhã de Lucian era completamente diferente, repleta de socos, suor e silêncio.
Sua academia estava quase vazia, exceto pelo som de golpes fortes atingindo o couro. O saco de pancadas balançava na corrente, zombando dele. Ele se movia com precisão mecânica, cada golpe cronometrado como um relógio. Não havia expressão em seu rosto, apenas uma necessidade implacável de socar alguma coisa.
Seus músculos abdominais brilhavam de suor, mas ele não se importava. Ele precisava disso. Mais do que dormir, mais do que comer, pois era a única coisa que o tirava da própria cabeça.
Dos intermináveis e-mails, das negociações bilionárias e das salas de reunião.
E dela.
Seu punho atingiu o saco novamente, com tanta força que a corrente rangeu. Foi então que Matteo, que acabara de aparecer com o resto do grupo e parecia estar encostado na parede próxima com os braços cruzados, finalmente decidiu falar.
"Cara", ele disse casualmente, "Você vai acabar com esse saco. Que diabos ele fez? O que você fez?"
Lucian não respondeu. Apenas arrancou as luvas como se estivessem sufocando-o e as jogou no banco com um grunhido.
Dante, sentado em uma caixa pliométrica como se estivesse assistindo a uma peça de teatro, ergueu uma sobrancelha. "Você está quieto hoje. Isso é estranho até para você."
"Deve ser por causa de todo esse leite de amêndoas", acrescentou Nico secamente do canto, pernas cruzadas, celular na mão. "Te deixa mole."
Lucian lançou-lhe um olhar fulminante. Ele o obrigou a comprar aquele leite. i****a.
Dante sorriu de canto, relaxando por perto. "Ele provavelmente está pensando naquela garota de novo."
Lucian os encarou com um olhar vazio enquanto sua mandíbula se contraía. "Que garota?"
"Aquela com as opiniões fortes que ele não para de encontrar, eu chamo isso de destino", disse Matteo, levantando as mãos inocentemente ao terminar a frase. Seu amigo de longa data. O único que podia falar com ele daquele jeito sem ser punido.
"Ela não é—" Lucian começou, mas logo se calou. Porque o que quer que ele estivesse prestes a dizer seria mentira, e todos sabiam disso.
Os rapazes trocaram olhares, sobrancelhas arqueadas, sorrisos presunçosos. Algo não dito passou entre eles.
Isso? Isso era novo.
Lucian agarrou o tecido esfregou a toalha no próprio rosto com um pouco de agressividade demais. "Que idiotas irritantes", murmurou.
"Ele é obcecado", cantou Dante. "E você nem tem o número dela. Ha."
"Você não tem uma modelo para paquerar ou algo assim?", disparou Lucian.
"Só na terça-feira", sorriu Dante. "O que me deixa completamente livre para te irritar até lá."
Lucian se moveu para enrolar os pulsos novamente, mas Matteo deu um passo à frente e colocou a mão em seu ombro. "Sabe do que você realmente precisa?"
"Se você disser terapia, eu te nocauteio."
"Eu ia dizer", continuou Matteo, completamente impassível, "volte para o maldito ringue."
Lucian congelou no meio do processo de enrolar os pulsos.
"Vamos lá", insistiu Matteo. "Já faz meses. O circuito sente sua falta." "Puxa, como sentimos falta disso."
"Vai rolar uma briga", acrescentou Nico, finalmente se endireitando. "Uma briga daquelas. A galera do underground já está em polvorosa. Todo mundo pergunta quando o seu fantasma favorito vai reaparecer."
Rafe não desviou o olhar do celular. "Seu histórico ainda está limpo. Todo mundo quer ver se você vai quebrá-lo."
"Estou ocupado", murmurou Lucian, sentando-se no banco. "Você sabe disso."
"Você está sempre ocupado", retrucou Matteo. "Essa é a ideia. Você precisa extravasar antes de explodir e começar a demitir gente como da última vez."
Lucian permaneceu em silêncio, franzindo a testa para as mãos. Seus nós dos dedos estavam em carne viva, a pele levemente rachada pelos impactos repetidos.
Dante se inclinou para frente. "Você está tenso desde que aquela garota apareceu. Seja lá o que estiver acontecendo nessa sua cabeça sobrecarregada, é assim que você lida com isso. Você bate em coisas. Você vence brigas." "Você sai do outro lado menos assassino."
Lucian encarou o chão, a mente girando. Fazia muito tempo. Ele não pisava no ringue clandestino há mais de três meses. Não desde Tóquio. Não desde que quebrou o nariz e o braço daquele cara e saiu antes do gongo final.
Ele sentia falta daquilo, do anonimato e da sensação de liberar sua frustração através do sangue e dos hematomas, em vez daquelas reuniões e coletivas de imprensa idiotas.
O que o levou a finalmente dizer, bem baixinho...
"Onde é a luta?"
Nico sorriu. "Armazém perto do Cais Leste. Um mês. Estão chamando de O Despertar." "Faz sentido, não?"
"Pense bem", acrescentou Matteo. "É sobre se sentir vivo de novo."
Depois disso, foram almoçar. Rafe fez o pedido sem perguntar. Dante flertou com a garçonete, que fingiu não ouvi-lo.
Lucian beliscava a comida como uma criança, o apetite perdido em meio ao eco de seus próprios pensamentos.
Uma garota.
Não qualquer garota.
A garota que lhe dera um desenho e agira como se não fosse nada demais.
A garota que fazia piadas que ele não entendia, mas queria entender.
A garota que não sabia seu nome e o fazia sentir que ainda tinha tempo para ser alguém.
Ela não tinha motivo para assombrar seus pensamentos a cada segundo.
E, no entanto... ela estava. Roubando sua paz. Sorrindo em câmera lenta. Os pensamentos não paravam.
Ele não disse nada enquanto alguns amigos conversavam. Não precisava. Porque, mesmo por trás dos óculos escuros, seus amigos sabiam exatamente no que... ou em quem... ele estava pensando.
E Aurora?
Aurora não fazia ideia de quantas vezes Lucian sonhava com a voz dela. Ou de quão perto ele estivera de voltar àquele ringue, não apenas para lutar, mas para esquecer.
E talvez fosse essa a parte que mais o assustava.