Capítulo 10 - Dentro do ringue

1947 Words
Alguns dias depois, Aurora estava de volta ao escritório dele. O zumbido baixo ao fundo era pontuado apenas pelo suave farfalhar de papéis e o rangido ocasional da cadeira giratória. Aurora girava preguiçosamente, as pernas balançando na beirada da cadeira, os olhos brilhantes e vibrantes de energia. Ela tinha aquela aura tagarela e incontrolável, falando muito mais do que o normal, preenchendo o silêncio como um raio de sol. Lucian olhou para a mulher, aumentando sua confiança e seu vocabulário. Ele caminhou até sua mesa e bateu nela. Uma vez. Duas vezes. Chamando a atenção de Aurora. "Você está livre amanhã?", perguntou, sua voz cortando o zumbido baixo do escritório. Aurora parou de girar, as sobrancelhas se erguendo. "Amanhã? Ah, sim, acho que sim. Mas tenho uma aula na faculdade." Ele ergueu uma sobrancelha. "Que aula?" Ela sorriu, começando a falar como se estivesse dando uma mini palestra TED. "Negócios e empreendedorismo. É meio louco, para ser sincera. Não se trata apenas de abrir empresas ou ganhar dinheiro, certo? Trata-se de como os negócios realmente crescem, como as pessoas criam coisas do nada. A correria, os riscos, a criatividade, tudo isso está envolvido. Além disso, debatemos o tempo todo se é possível ser ético e bem-sucedido, ou se é apenas um sonho impossível. Tipo, dá para construir um negócio de verdade que realmente se importe com as pessoas e o planeta sem se vender? É complicado, mas aposto que você entende." Suas mãos gesticulavam enquanto falava, e seus olhos brilhavam de entusiasmo. Então seu sorriso suavizou. "Mas também? Algumas coisas são realmente complicadas. Tipo, descobrir o que funciona fora dos livros. A vida real não é organizada, sabe? É bagunçada. Às vezes me sinto totalmente perdida, como se estivesse me afogando em todas as áreas cinzentas." Lucian ergueu os olhos, sua expressão indecifrável por um instante. Então, com a voz um pouco truncada, mas mais suave que o normal, ele perguntou: "Você gostou?" Aurora assentiu, mordendo o lábio. "Sim. Gostei. Me faz pensar diferente, não só em como ganhar dinheiro, mas também por que alguém iria querer fazer isso. É inspirador, mas também um pouco assustador." Ele ficou em silêncio por um momento e então disse: "Se você quiser... pode me pedir ajuda." Ela piscou, surpresa. "Sério? Você me ajudaria com isso?" Ele assentiu brevemente. "Sim. Estou por perto." O sorriso de Aurora se alargou, mas ela hesitou, como se quisesse dizer mais alguma coisa. "Certo. Obrigada. Isso significa muito." Ele olhou para os arquivos. "Vista-se casualmente. Te busco depois da aula." Ela inclinou a cabeça, a curiosidade vencendo. "Espera... mas o que é isso? O que vamos fazer?" Ele balançou a cabeça, com um lampejo de divertimento nos olhos. "Você vai ver." Aurora sorriu e balançou a cabeça para ele. "Sinto que você já falou demais comigo para um ano inteiro, vai pegar mais leve?" Lucian lançou-lhe um olhar de brincadeira e não disse uma palavra. De novo. ------------------------------------------------------------------ Na tarde seguinte, a universidade fervilhava, os alunos saíam das salas de aula e se espalhavam pelo gramado como se fossem os últimos cinco minutos de um festival de música. Aurora saiu do prédio, com a bolsa a tiracolo, ainda conversando animadamente com um rapaz da sua turma que tinha saído ao seu lado. "Não, falando sério, o palestrante convidado da semana passada foi insano", dizia o rapaz, folheando as anotações. "Perdi completamente a parte sobre contabilidade de sustentabilidade, posso pegar as suas depois?" Aurora riu. "Claro, claro. Só me lembre antes do fim da semana, ou juro que vou esquecer." Enquanto caminhavam pela multidão, os olhos dela se voltaram rapidamente para trás, por um segundo, para se certificar de que ele não os estava seguindo. Satisfeita, ela voltou a se concentrar na conversa, fingindo que não estava checando. Eles ainda estavam rindo quando um elegante carro preto deslizou até a calçada, sua pintura praticamente absorvendo a luz do sol. Parou com uma suavidade que exalava poder, precisão e riqueza. Lucian saiu como uma sombra se desdobrando em um homem, sua presença absorvendo o calor do ar num raio de três metros. Olhares começaram a se formar ao seu redor, garotas cochichando e rindo baixinho. Ele não disse nada. Não precisava. Seus olhos procuraram por Aurora, e finalmente sua busca terminou quando a viu encarando um garoto, seus lindos cabelos loiros balançando enquanto falava. Ela estava encarando um garoto. Um garoto. Seus olhos se fixaram num olhar fulminante. Não para ela, mas sim para o rapaz ao lado de Aurora, como uma mira de atirador. Ele apareceu atrás dela, e ela instantaneamente sentiu sua energia e a mudança na atmosfera para algo tenso e frio. Ele manteve o olhar fixo no garoto i****a à sua frente. O rapaz hesitou. Seu sorriso vacilou, seus passos vacilaram. Ele olhou para Lucian, piscou como se tivesse acabado de perceber que a própria Morte estava diante dele e murmurou: "Certo, uh, eu... te vejo depois, Aurora." Desapareceu. Evaporou. Como vapor. Aurora acenou confusa em despedida, mas se virou, com os olhos arregalados, e estendeu a mão para segurar levemente o braço de Lucian. "Que diabos foi isso? Você o vaporizou com o olhar?" Lucian nem sequer piscou. "Não gostei. O corte de cabelo dele." Aurora riu, surpresa. "Essa é a sua razão?" "O corte de cabelo dele?" Ele começou a caminhar com ela, em um ritmo lento. Abriu a porta do passageiro sem dizer mais nada. Ela entrou, ainda rindo baixinho. Eles saíram da universidade e pegaram a estrada. Aurora olhou pela janela, tentando adivinhar para onde estavam indo, mas Lucian não disse nada, os olhos fixos na estrada, uma mão no volante com uma calma irritante. As veias saltavam e os músculos se contraíam a cada virada. "Posso ter uma dica de para onde estamos indo?", perguntou ela, sorrindo enquanto se inclinava levemente para ele. "Não." Ela bufou. "Você é irritante." "Você é barulhenta." Ela engasgou. "Que grosseria." Ele deixou o canto da boca se curvar, quase um sorriso. Ela estava quase lá, pensou. Ali mesmo; sua nova missão oficial era fazê-lo sorrir, um sorriso aberto. Como recompensa, ele teria que comprar biscoitos para ela. Ela não lhe contou isso, ele descobrirá quando... Chegar a hora, ela cantarolou. As ruas mudaram de prédios universitários impecáveis ​​para esquinas mais decadentes, mais sombras, menos semáforos. Finalmente, eles entraram em um beco escondido entre dois armazéns deteriorados. Lucian estacionou, desligou o motor e saiu. Aurora o seguiu, com o coração começando a acelerar um pouco. O prédio era discreto, sem placas, sem pessoas, nada além de uma porta de metal grossa e uma batida grave vinda de dentro, como um batimento cardíaco. Talvez ele a estivesse levando para um bunker da máfia, afinal. Lucian foi na frente, e ela permaneceu perto, suas botas ecoando contra o concreto. Lá dentro, o mundo mudou. Luzes fracas piscavam sobre um amplo espaço subterrâneo, paredes manchadas pelo tempo e suor. O cheiro de couro, metal e adrenalina impregnava o ar. Não era um estádio, era um anel escavado no concreto bruto, cercado por lugares sem assentos e assentos VIP, a multidão já densa nas laterais, vozes baixas de expectativa. O queixo de Aurora se contraiu. "Espera... isso é... boxe clandestino?" Lucian não respondeu. Apenas acenou com a cabeça para alguém perto da entrada e continuou andando. De volta perto dos vestiários, um homem alto e de ombros largos encostou-se na parede, arqueando uma sobrancelha ao vê-los. "E aí", chamou Matteo. "Estava esperando vocês chegarem, o David estava começando a me irritar com o..." Matteo parou. Um lampejo de surpresa surgiu em seu rosto e logo desapareceu ao notar uma mulher parada ao lado de Lucian com um olhar curioso. Então a ficha caiu. "Não esperava ver um acompanhante", disse ele com um sorriso cúmplice para Lucian. Lucian grunhiu em resposta, e Aurora deu um passo à frente com um sorriso rápido. "Oi. Sou Aurora." Matteo apertou a mão dela firmemente. "Matteo. Prazer em conhecê-la." Lucian se virou para ela. "Preciso me trocar." "Você vai ficar bem?" Matteo interrompeu suavemente. "Ela está bem. Eu vou cuidar dela." Lucian olhou entre os dois, hesitando por meio segundo. Então, assentiu e desapareceu atrás de uma cortina. Matteo gesticulou em direção ao corredor. "Vamos. Você quer uma vista melhor." Eles caminharam lado a lado pelo espaço, desviando de pessoas, caixas e sombras. "Então", disse Matteo casualmente, "você já o viu lutar?" Aurora balançou a cabeça. "Não. Nem sabia que ele boxeava até agora. Mas faz sentido, quer dizer, eu o vendo lendo todos aqueles livros de boxe e com as mãos todas machucadas. Sabe?" Ele soltou um assobio baixo. "É, entendi. Então você vai ver só." É... meio brutal, só para avisar." Os olhos dela se arregalaram. "Devo me preocupar?" Matteo deu uma risadinha. Embora ela não tivesse especificado o motivo, ele sabia o que ela queria dizer, ou melhor, o que ela realmente queria saber. "Não. Ele é o melhor. Nunca apanhou." "Você vai ver." Eles chegaram à área VIP, uma estreita faixa de piso elevado com vista para o ringue. Dali, tudo era próximo. Real. Barulhento. Aurora se apoiou no corrimão, com o coração disparado. Então Lucian apareceu. Seu maxilar estava cerrado, os olhos focados como se o resto do mundo não existisse. Quando ele entrou no ringue, a multidão explodiu em barulho. Sem câmeras. Sem patrocinadores. Apenas energia bruta. Ele não olhou ao redor. Mas, pouco antes do gongo soar, seu olhar se ergueu e a encontrou. Aurora sentiu como um choque na espinha. Então o gongo soou. Ele se movia como um raio. Cada soco era um golpe calculado, cada esquiva graciosa e brutal. Seu oponente não tinha a menor chance. A luta não era uma briga, era arte. Arte violenta e estonteante. Aurora não conseguia desviar o olhar. Não conseguia respirar. No terceiro round, a multidão estava ensandecida. O suor brilhava na pele de Lucian, hematomas se formando. como medalhas de batalha. Então, o golpe final. Seu oponente desabou. O sino tocou. Lucian estava de pé, imponente, o peito subindo e descendo, rei do ringue. Aurora estava de pé, batendo palmas freneticamente, gritando o nome dele antes que pudesse se conter. Matteo riu ao lado dela, aplaudindo também a melhor amiga. "Você definitivamente nasceu para ele." Ela corou, mas não parou de comemorar. Nos bastidores, Matteo a guiou pela multidão de volta ao vestiário. "Ei, preciso ir ajudar o Nico com umas coisinhas.""Você sabe como ele é com todos esses contratos", disse Matteo a Lucian enquanto o cumprimentavam. Lucian assentiu brevemente. "Obrigado." Matteo acenou para Aurora em despedida, mas ela o surpreendeu com um rápido abraço, agradecendo pela companhia. Ele sorriu e finalmente saiu. Então ficaram só os dois. Aurora sentou-se ao lado dele enquanto ele enxugava o suor, fazendo uma leve careta. Ela se inclinou, dando leves toques com um pano frio nos hematomas que se formavam em seu ombro. "Você estava insano lá fora, no bom sentido, não se preocupe", disse ela, tentando não parecer muito ofegante. Ele apenas olhou para ela. "Mas falando sério", continuou ela, em um tom mais suave. "Você me assustou um pouco." "Estou bem." "Eu sei", disse ela, e então sorriu. "Mesmo assim." "Deixe-me ajudar." Seus dedos roçaram a bochecha dele, limpando um pequeno corte. Seus olhares se encontraram. "Obrigado", disse ele, em voz baixa. "Sempre", sussurrou ela. Então, sem pensar, ela se inclinou e beijou sua bochecha. Lucian congelou. Ela se afastou com uma risadinha, observando o olhar atônito em seus olhos. Algo não dito passou entre eles, como estática no ar. Nenhum dos dois se moveu. Nenhum dos dois disse nada em voz alta. Mas algo havia mudado. E não voltaria a ser como antes.
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