Capítulo 26 - RESOLVENDO JUNTOS

1256 Words
A viagem de volta foi silenciosa, mas não de um jeito r**m. Aurora estava sentada no banco do passageiro da Ferrari de Lucian, seus dedos deslizando preguiçosamente pela barra de seu vestido de seda branca, o olhar percorrendo a suave névoa de luzes da cidade pela janela. Lucian dirigia com uma mão, a outra repousando casualmente na alavanca de câmbio, mas seus nós dos dedos estavam brancos de tanto que a segurava. Nenhum dos dois falou. Mas o silêncio não parecia vazio. Parecia... pleno. Carregado. Reverente. Como o momento logo após a explosão de um fogo de artifício, a quietude ecoando no peito. Seus olhos se voltavam para ela de vez em quando. Como se ele não pudesse evitar. Quando chegaram à rua dela, ele diminuiu a velocidade até parar suavemente em frente à sua casa, o motor ronronando baixo sob eles. Aurora se virou para ele, um sorriso hesitante surgindo em seus lábios. "Obrigada", disse ela suavemente. "Por esta noite." Lucian sustentou o olhar dela. Sua voz era baixa. "De nada." E então, por um segundo, nenhum dos dois se moveu. A tensão agora era suave, terna. Roçava-os como seda. Ela se inclinou para a frente, sem ousar muito, apenas um sopro mais perto. Seus lábios pressionaram os dele, suave, fugaz, um beijo quente e fantasmagórico. E antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, ela se afastou, sorrindo como se seu coração estivesse brilhando de dentro para fora. "Boa noite, Lucian." Ela sumiu antes que ele pudesse responder, correndo pelo corredor, o vestido balançando atrás dela como uma chama. Ele ficou sentado ali por um momento, encarando o lugar onde ela estivera. Então... "Droga." Porque, de repente, tudo veio à tona. O beijo. O encontro. O jeito como a mão dela se encaixou perfeitamente na dele. O jeito como ela o olhou. O jeito como tudo aquilo o aterrorizava profundamente. ------------------------------------------------------------------ Quando Lucian voltou para casa, seu peito estava apertado. Não era que ele se arrependesse, Deus, não. Aquele beijo na varanda tinha sido tudo. Ele tinha falado sério quando disse que queria que fosse especial. Queria que ela soubesse o quão sério aquilo era para ele. Mas agora? Agora parecia... real. Tangível. Como se, se ele estragasse tudo, não perderia apenas uma garota, perderia ela. Ele caminhou a passos largos pelo silêncio da casa como se o tivesse ofendido, tirando o casaco, servindo-se de uma bebida que nem sequer tocou. Sua mente estava a mil. Ela era diferente. Ele não podia simplesmente tratar aquilo como algo casual. Ele não queria. E isso? Isso o assustava mais do que qualquer outra coisa em anos. Ele andava de um lado para o outro. Sentou-se no sofá. Encarou a tela escura do celular. Ela me deu um beijo de boa noite. Isso deve significar alguma coisa. Mas sua mente se recusava a se acalmar. E se ela o achasse intenso demais? E se ele tivesse sido muito direto ao planejar todo o encontro? E se ele a tivesse deixado sobrecarregada? Às 2 da manhã, Lucian ainda estava acordado, esparramado na cama de calça de moletom e nada mais, com um braço cobrindo o rosto. A casa estava silenciosa. Sua mente, não. Ele não conseguiu dormir. ------------------------------------------------------------------ Enquanto isso, do outro lado da cidade, Aurora não estava muito melhor. Ela passou de estar nas nuvens a entrar em pânico em tempo recorde. No momento em que entrou em casa, sentiu o coração acelerar de todas as maneiras erradas. Aquele beijo, os dois, tinha sido algo que ela nunca havia experimentado. Mas agora ela não sabia o que aconteceria a seguir. Ela não parava de repassar tudo: o vinho, a luz de velas, o jeito como ele a olhou como se ela fosse a única pessoa na Terra. As palavras dele na varanda: "Eu queria te beijar". Ele tinha sido claro. Honesto. Até mesmo gentil. Então por que seu cérebro estava dando cambalhotas agora? Ela ficou acordada por horas. A mente a mil. Num minuto, queria mandar uma mensagem para ele. No minuto seguinte, jogou o celular do outro lado do quarto. Em um dado momento, levantou-se, vestiu o pijama, penteou o cabelo e se jogou de volta na cama com um gemido. Não era que ela não quisesse aquilo. Queria. Mais do que tudo. Era isso que tornava tudo tão assustador. Ela nunca tinha se sentido assim antes. Nunca quisera ser vista, realmente vista, por alguém até conhecê-lo. E agora que ele a tinha visto, ela não sabia o que fazer. Então, ficou acordada até as 3 da manhã, olhos arregalados na escuridão, divagando silenciosamente. ------------------------------------------------------------------ Na manhã seguinte, o pânico ainda não havia passado completamente. Aurora sentou-se na cama, com os joelhos junto ao peito, o moletom fechado e o cabelo despenteado. Ela encarava o celular sobre o edredom como se fosse uma bomba-relógio. "Manda uma mensagem para ele", sussurrou para si mesma. Ela não mandou. Então gritou no travesseiro novamente. Às 11h47, com o coração disparado e o rosto em chamas, ela finalmente digitou uma palavra: Oi. E imediatamente jogou o celular na cama como se fosse uma granada prestes a explodir. Ela se jogou de costas, olhando para o teto. "O que eu fiz?" Uma pausa. Então a vibração. Sr. Sério: Venha aqui. Seu estômago embrulhou. Ela prendeu a respiração. Sentou-se tão rápido que seu cabelo praticamente levitou. Ela encarou a mensagem. Então se levantou. Então gritou novamente. Em seguida, correu para vestir roupas limpas e sair de casa como se nada tivesse acontecido. Escapando de uma cena de crime. ------------------------------------------------------------------ A porta de Lucian se abriu antes que ela pudesse bater. Ele simplesmente ficou parado ali, encostado no batente como se não tivesse se mexido desde que lhe mandara a mensagem. Sua camisa estava um pouco amassada, seu cabelo bagunçado como se ele tivesse passado a mão nele a noite toda. Ela abriu a boca para falar. Mas nada saiu. "Oi", ele disse primeiro. "Oi", ela sussurrou, sua voz mais baixa agora. "Entre." No instante em que a porta se fechou atrás dela, o silêncio voltou. Não era constrangedor. Apenas denso. Elétrico. Ela ficou parada na entrada, olhando para ele. Ele parecia cansado. Exausto. Como se algo o estivesse oprimindo. "Eu nunca fiz isso antes", ela disse. Ele piscou. Ela deu de ombros, abraçando os próprios braços. "Não exatamente. Não como... namorar alguém de quem eu realmente gosto." Lucian não falou imediatamente. Mas quando o fez, sua voz estava rouca. "Nem eu." Ela riu uma vez. "Isso me faz sentir melhor." Ele deu um passo em sua direção. Apenas um passo. Depois outro. "Eu falei sério na varanda", disse ele. "Já faz um tempo que penso em te beijar. Planejei aquela noite porque... queria que fosse perfeito. Para nós." O coração de Aurora apertou. "Eu sei", disse ela. "Eu senti. Mas aí cheguei em casa e entrei em pânico." "Eu também." Os dois riram. Foi uma risada ofegante. Um pouco tensa. "Eu não sabia o que mandar por mensagem", admitiu ela. "Eu nem sabia se devia mandar mensagem." Ela olhou para ele, examinando seu rosto. "E agora?" Lucian ficou em silêncio. Então, aproximou-se, afastando delicadamente uma mecha de cabelo atrás da orelha dela. "Agora vamos tentar", disse ele. "Vamos descobrir. Juntos." Os olhos dela se arregalaram um pouco. "Você quer?" "Eu já quero." Foi isso. A última barreira desmoronou. Ela se aconchegou nele, envolvendo-o pela cintura. Os braços dele a envolveram, fortes e seguros. E na quietude da casa dele, abraçados, o medo começou a se dissipar. Não completamente. Mas o suficiente para começar.
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