Foi só quando entraram que Lucian a sentiu cambalear, levemente.
Ele percebeu, quase imperceptível, apenas uma mudança no peso dela, mas o suficiente para que suas sobrancelhas se franzissem em silencioso alarme.
"Cuidado, querida", murmurou ele, amparando-a com uma mão firme na cintura.
"Estou bem", disse Aurora rapidamente, disfarçando com um sorriso tímido. Mas seus olhos pareciam um pouco vidrados demais, e seus passos um pouco lentos demais. Até aquele pequeno sorriso parecia forçado.
"Você comeu desde que caiu?"
Ela hesitou.
Erro de principiante.
Os olhos de Lucian se aguçaram como um bisturi. "Aurora."
Ela estremeceu ao ouvir seu nome como se fosse uma acusação formal. "Eu tomei... café?", ofereceu ela, com a voz se elevando como se pudesse ser uma resposta aceitável.
Ele exalou como se ela tivesse acabado de lhe contar que lambia postes de metrô por diversão.
"Sente-se", ordenou ele, já a guiando em direção ao sofá com uma mão gentil, porém insistente.
"Mas—"
"Sente-se."
Não era uma sugestão. Ela se jogou nas almofadas com um suspiro, braços cruzados, murmurando algo inaudível.
Ele já estava na cozinha, vasculhando os armários com a fúria silenciosa de alguém tentando esconder a preocupação. Um minuto depois, voltou com um prato. Não eram apenas petiscos, mas comida de verdade. Quente. Balanceada. Feita para sustentar um ser humano, e não apenas uma universitária ansiosa movida a adrenalina e cafeína.
Aurora piscou, olhando para o prato como se ele a tivesse insultado pessoalmente.
"Não estou com fome", disse ela.
"Você só tomou café", disse Lucian secamente.
"Cafeína é um grão. Grãos são proteína", murmurou ela, estreitando os olhos. Lucian a encarou.
Apenas encarou.
Ela suspirou dramaticamente. "Tudo bem, então."
Ele lhe entregou o prato e um garfo com a autoridade silenciosa de alguém que já havia feito isso antes e não aceitaria um não como resposta. Sentou-se ao lado dela, braços cruzados, observando cada garfada como se estivesse mentalmente marcando pontos.
Ela comeu. Devagar. A contragosto. Mas comeu. Porque era ele.
Quando ela estava na metade, ele ligou a TV. Algo suave, britânico e agressivamente aconchegante. Não era o seu gosto habitual, mas o ruído de fundo era reconfortante.
Por fim, ela se inclinou para ele. Só um pouco. Seu ombro roçou em seu braço.
Ele não se afastou.
Quando ela terminou o prato e o colocou de lado, ele se levantou.
"Estou cheia", ela disse desconfiada.
"Não está", ele respondeu da cozinha.
"Eu literalmente vou explodir."
"Você não está, literalmente", respondeu ele calmamente. Um instante depois, voltou com uma tigela, fatias de frutas, um ou dois doces e outra xícara de chá.
"Lucian", ela gemeu.
"Você precisa de energia." Ele se acomodou ao lado dela, mais relaxado desta vez. "Você desmaiou. Você caiu. Você assustou as pessoas."
Ela cruzou os braços. "Eu não te assustei."
Ele a encarou por um longo tempo. "Assustou sim."
E foi isso.
Ele pegou uma fatia de pera e a levou até os lábios dela.
Ela piscou. "Você está me alimentando agora?"
"Aparentemente."
Então ela deixou.
Sem piadas, sem sorrisos irônicos, sem sarcasmo. Apenas gestos suaves e um cuidado silencioso. As pontas dos dedos dele roçando seus lábios de vez em quando, demorando um segundo a mais do que o necessário.
O quarto pareceu quente novamente. Como um segredo sendo guardado.
Quando ela terminou, ele se levantou novamente para guardar as coisas. Ela finalmente se permitiu relaxar, afundando a cabeça na almofada.
Ele voltou sem dizer uma palavra e sentou-se ao lado dela. Ela se moveu instintivamente, aconchegando-se em seu peito. Sua bochecha contra o ombro dele, os dedos brincando inquietos com a barra da manga.
"Obrigada", ela sussurrou.
Ele não disse nada. Apenas virou levemente a cabeça para olhá-la, sua expressão indecifrável, mas mais suave que o habitual. Seus olhos encontraram os dela.
Eles estavam perto. Perto demais.
Ela sentiu a respiração dele.
Ele sentiu a dela.
Ela se inclinou para frente.
Ele também.
Seus narizes se roçaram. A mão dela encontrou o peito dele, os dedos se enroscando na camisa. A mão dele pairou perto do queixo dela.
E então...
Ele se afastou.
Não bruscamente. Não com alarme. Apenas o suficiente. Apenas um sopro de espaço entre eles.
Aurora piscou.
Confusa.
Seu coração ainda estava acelerado. Seu peito subia e descia com esforço.
Mas Lucian não explicou nada. Apenas pegou o controle remoto e apertou o play, os olhos fixos na tela. Mandíbula tensa.
Ela permaneceu imóvel.
Não se mexeu.
Não se inclinou para trás.
Algo em seu estômago se revirou.
Ela mordeu a parte interna da bochecha.
Pensou... pensou que ele quisesse beijá-la.
E agora, não sabia o que pensar.
O filme continuou. Os personagens falavam. A chuva caía. Mas o calor havia desaparecido.
Ela se afastou um pouco dele.
E ele não a impediu.