Capítulo 24 - ARREPENDIMENTO

847 Words
Lucian sentiu-se estranho desde o momento em que abriu os olhos. Mal tinha dormido. Sua mente havia vagado pela noite, repassando cada segundo daquele momento no sofá, o rosto de Aurora a centímetros do seu, o toque suave dos dedos dela em seu peito, a respiração quase ofegante daquele quase beijo. E então, o jeito como ele se afastou. Não porque não quisesse. Deus, como ele queria. Ainda sentia o calor fantasma dos lábios dela perto dos seus. Mas ele tinha feito um plano. Um plano de verdade. Já havia reservado o restaurante, escolhido as flores, imaginado como os olhos dela brilhariam ao ver a vista. O primeiro beijo deles não deveria ter acontecido no sofá dele, depois do desmaio, meio cansado e de moletom. Deveria ter um significado. Então ele se afastou. E agora não conseguia parar de pensar na expressão dela depois. A confusão silenciosa. A pequena distância. O jeito como ela não se inclinou para trás, em direção a ele. O jeito como ele saiu sem dizer quase nada. Ele tinha se convencido de que era a decisão certa. Que tudo faria sentido quando chegasse a noite. Mas o silêncio, enquanto isso? Estava o consumindo. Lucian nunca se importou com o silêncio antes. Mas este era ensurdecedor. Ele passou a manhã inteira reclamando com todos no escritório, até com Rina, que parecia pronta para pedir demissão e se jogar na frente de um carro. Ao meio-dia, cancelou todas as reuniões e foi embora. O local subterrâneo era frio e m*l iluminado, com o zumbido baixo das luzes fluorescentes e o eco fraco das luvas batendo nos sacos de pancada. Ele precisava extravasar. Matteo foi o primeiro a se apresentar. Lucian nem falou, apenas assentiu e ergueu os punhos. O treino foi intenso, um turbilhão de socos bloqueados, ganchos esquivados e um jogo de pernas tão preciso que cortava concreto. Lucian não estava se segurando. Não podia. Não quando sentia como se tivesse um tijolo no peito. Matteo deu um tapinha no chão com um grunhido. "Jesus, cara. O que diabos eu fiz?" Lucian sacudiu os ombros, quase sem fôlego. "Quem é o próximo?" Nico simplesmente levantou as duas mãos e deu um passo para trás. "Nem pensar. Estou tentando chegar ao casamento da minha irmã inteiro." Dante deu de ombros dramaticamente, encostando-se na parede com uma garrafa d'água. "Normalmente eu toparia o drama, mas você está com um olhar assassino, e eu acabei de comprar este sérum facial. Então, não." Até Rafe ergueu uma sobrancelha. E ele nunca se esquivava de nada. "O quê?" Lucian retrucou. Matteo pegou uma toalha e jogou-a no peito. "Você está nocauteando as pessoas como se fossem os Jogos Vorazes. Claramente tem alguma coisa errada." Lucian não respondeu. Apenas enxugou o suor do rosto e pegou o celular. Ele encarou o nome dela por um minuto inteiro. Então digitou: Lucian: Esteja pronta às 7. Vamos jantar. A resposta chegou dez minutos depois. Tulip: Ok. Sem emojis. Sem sarcasmo. Só... ok. Ele encarou aquela palavra como se ela pudesse mordê-lo. ------------------------------------------------------------------ Às 18h59 em ponto, Lucian estacionou sua Ferrari em frente à casa dela. Ele saiu, encostou-se na pintura preta impecável e ajeitou os punhos da camisa. Vestia um terno preto sob medida, sem gravata, um casaco escuro e tentava não checar seu reflexo no retrovisor como um completo i****a. Então a porta se abriu. E pela primeira vez na vida, Lucian esqueceu como respirar. Aurora saiu como algo saído de um sonho, a seda branca colada em cada curva perfeita do seu corpo, o vestido captando a luz a cada movimento. Seus cabelos caíam em ondas suaves, seus lábios tingidos de um tom avermelhado que, de alguma forma, fazia o vestido parecer modesto. Lucian não disse nada. Não conseguia. Seus saltos tilintaram enquanto ela se aproximava. Ela não sorriu, mas havia algo indecifrável em seus olhos, um desafio silencioso, uma vulnerabilidade sutil. Então, sem dizer uma palavra, ela se inclinou e beijou sua bochecha. "Oi", disse ela. A voz dele estava rouca. "Oi." Ele abriu a porta para ela, sem nunca desviar os olhos de seu corpo. Ao entrar no carro, ele o segurou com mais força do que o necessário. Concentração. Apenas... concentração. ------------------------------------------------------------------ O restaurante ficava escondido em um canto de Mayfair, discreto por fora, mas a elegância personificada por dentro. Os funcionários se moviam como fantasmas, as vozes sussurradas, as luzes atenuadas para um tom dourado. Eles foram escoltados através do salão principal e subiram uma escadaria privativa. Aurora olhou em volta com os olhos arregalados, mas não perguntou nada. No topo, um conjunto de altas portas de vidro dava para uma varanda privativa. A cidade de Londres se estendia diante deles, brilhando com luzes. Uma mesa estava no centro, coberta com uma toalha de linho branca, iluminada pela luz bruxuleante de velas. Ao redor, arranjos de flores se espalhavam sobre os parapeitos baixos de mármore: rosas, peônias, lavanda e tulipas. Delicados, escolhidos a dedo. Todas as suas favoritas. Aurora se virou lentamente, absorvendo a vista. Lucian a observava. Ele sabia que o momento era oportuno.
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