Exatamente uma semana havia se passado e, como Lucian prometera alguns dias atrás, a manhã de terça-feira chegou com Lucian esperando do lado de fora do prédio dela naquele carro preto e elegante, como se tivesse saído direto de um filme de James Bond, só que mais sombrio e menos brega.
Mas, pouco antes de fechar a porta da frente, seus olhos pousaram na pilha de cartas sobre a mesa do corredor, com letras vermelhas em negrito gritando para ela do envelope de cima.
AVISO FINAL: AUMENTO DE ALUGUEL
Ela fez uma careta.
Três cartas, todas dizendo a mesma coisa: seu aluguel ia aumentar. Tipo, drasticamente. E a menos que quisesse viver de miojo vencido e lágrimas, teria que pegar mais turnos na lanchonete. O que significava noites mais longas, pés doloridos e ainda menos tempo para dormir, respirar ou, tipo, existir.
Ela gemeu baixinho e empurrou o pensamento para o fundo da mente enquanto saía. Porque de jeito nenhum ela deixaria o estresse do aluguel arruinar aquele momento.
Aurora desceu correndo os degraus da frente de casa, mochila a tiracolo e celular na mão, o coração dando um palpitinho ridículo ao vê-lo.
Ele já tinha saído do carro.
E estava segurando a porta aberta.
Ela piscou. "Nossa. Chique."
Lucian a encarou com um olhar seco, mas o canto da boca se curvou num sorriso. "Você está atrasada."
"Não estou. Você que chegou adiantado", ela respondeu, entrando no carro e se acomodando no banco de couro que tinha um leve cheiro dele, colônia fresca e o toque cítrico da menta.
Lucian fechou a porta atrás dela e deu a volta no carro. Quando ele entrou e ligou o motor, ela estava sorrindo para ele.
Então: "Eu ia perguntar", disse ele, baixo e cauteloso, como se as palavras fossem estranhas à sua língua, "você disse que faz bolos, né?"
Aurora se animou. "Sim. Por quê?"
Lucian ficou em silêncio por um instante a mais do que o necessário.
Então: "Quinta-feira. Eu vou aí."
Ela se virou para encará-lo. "Espera, você está se convidando para jantar na minha casa?"
Ele deu de ombros. "Você falou sobre fazer um bolo e assistir a um filme semana passada."
O rosto dela se iluminou como uma árvore de Natal. "Meu Deus. Você realmente se lembrou?"
Outro olhar. "Claro que me lembrei."
E sim, tudo bem, o coração dela deu um salto.
Eles mergulharam em um silêncio confortável por um tempo, a cidade despertando ao redor deles, pedestres passando rapidamente.
Aurora mordeu o lábio pensativamente. "Certo. Quinta-feira. Eu faço o bolo. Você cozinha."
A sobrancelha de Lucian se arqueou. "Claro."
"E traga vinho." Ela acrescentou com um murmúrio.
Ele assentiu, parecendo calmo demais para alguém que acabara de se convidar para jantar na casa de uma garota. Mas, afinal, ele era Lucian. Ele não hesitou nem quando um prédio estava pegando fogo ao seu redor.
Quando pararam em frente à universidade dela, o clima mudou um pouco.
Lucian estacionou, desligou o motor e se virou para ela.
"Obrigada pela carona", disse Aurora, pegando a bolsa. "A gente se vê em breve, tá?"
Ele murmurou algo indeciso, com um leve brilho nos olhos. "Claro."
E então saiu do carro. Deu a volta. Abriu a porta.
Aurora saiu e, bum, sentiu. Todo o olhar de todos os estudantes que passavam.
Lucian não só parecia deslocado ali, como parecia intocável. Alto, frio e intimidador em seu habitual terno preto, com aquela expressão assassina no rosto. As garotas o encaravam descaradamente. Alguns rapazes também. E alguns olhares se voltaram para ela.
Especificamente, aqueles olhares de "o que diabos ela está fazendo com ele?".
Aurora manteve a cabeça erguida. Deu um sorrisinho de canto, só por diversão. "Você está causando um escândalo."
"Estou parado", respondeu ele, sem demonstrar qualquer emoção.
Ela revirou os olhos e piscou para ele. "Te vejo na quinta."
E com isso, virou-se e entrou no prédio, com as bochechas coradas.
Sua aula começaria em cinco minutos, então ela correu para o auditório, encontrou um lugar perto do meio e se acomodou, até perceber que algo estava errado.
Seu coração disparou.
Droga. Seu laptop.
Ela o havia deixado no banco do passageiro. No carro de Lucian.
Apressando-se, ela se levantou, pronta para sair correndo e rezar aos deuses da pontualidade para que ele ainda não tivesse ido embora.
Mas antes mesmo que pudesse alcançar a porta, ela se abriu.
E lá estava ele.
Lucian entrou na sala de aula como se tivesse saído de um filme, devagar, em silêncio, impecavelmente vestido, com o laptop em uma mão e um copo de café para viagem na outra.
A sala inteira ficou em silêncio.
Dezenas de olhares se voltaram para ele.
Aurora congelou, piscando.
O olhar de Lucian a encontrou instantaneamente.
"Você esqueceu isso", disse ele, com a voz plana, mas de alguma forma ainda calorosa.
Ela quase derreteu. Ali mesmo.
Ela deu um passo em sua direção, completamente vermelha, mas tentando disfarçar. "Obrigada."
Ele lhe entregou o laptop e o café. "Bem doce. Do jeito que você gosta."
Alguém atrás dela deu um suspiro. Um suspiro de verdade.
Ela piscou para ele. "Como você... sabe o meu pedido?"
Lucian não respondeu. Apenas deu de ombros, como quem diz "sei de tudo".
E Aurora, agora com um sorriso bobo no rosto, inclinou-se e beijou sua bochecha.
Ele nem sequer se mexeu. Mas ela notou que as orelhas dele ficaram levemente rosadas.
Ela, no entanto, estava completamente vermelha como um tomate agora que ele assentia.
Ele se virou e saiu com a mesma naturalidade com que entrou, deixando um rastro de sussurros.
Aurora abraçou o laptop contra o peito e voltou para o seu lugar como se fosse dona da universidade inteira. Ela viu uma garota franzindo a testa, outra boquiaberta.
Assim que se sentou, Zara, que tinha presenciado tudo da última fileira, deslizou para o assento ao lado dela com uma expressão de puro espanto.
"COMO É?!"
Aurora engasgou com uma risada. "Oi para você também."
"Não, com licença", Zara sussurrou, com os olhos arregalados. "O Lucian acabou de entregar seu laptop e um café como se fosse seu namorado de algum grupo mafioso?!"
Aurora piscou. "Eu... talvez?"
Zara deu um empurrãozinho nela, em tom de brincadeira. "Amiga, ele sabe o seu pedido de café. Entrou aqui como se fosse o dono do pedaço. E você deu um beijo na bochecha dele. Isso não é comportamento normal. Isso é comportamento de 'eu tenho um namorado e ele pode arruinar a sua vida'."
Aurora deu uma risadinha, com o rosto corado. "Cala a boca."
Zara pegou o celular. "Ah, eu não vou calar a boca. Vou mandar isso pro grupo. A Liv vai surtar."
Em segundos, o celular dela vibrou.
Grupo: AURORA ESTÁ APAIXONADA
Zara: Acabei de presenciar uma comédia romântica ao vivo. O Lucian trouxe café e o laptop da Aurora e ela beijou ele na frente de todo mundo como se fosse a protagonista.
Liv: COMO ASSIM???
Isla: PARA!
Alina: EU SABIA QUE ELE ESTAVA A FIM DELA, MEU DEUS!
Zara: Quase morri.
Liv: ESTOU GRITANDO.
Isla: Isso é a vida real ou entramos num romance?
Alina: Tá bom, mas quando vamos interrogá-la?
Zara: Depois da aula. Ela está encurralada. Sem escapatória.
Aurora gemeu e enterrou o rosto nas mãos.
"Por que vocês são tão dramáticas?"
Zara bufou. "Porque vocês estão vivendo a fantasia de todo mundo. Óbvio."
Quando finalmente abriu o laptop, a tela acendeu e ela prendeu a respiração.
Um post-it rosa neon estava colado logo acima do teclado.
Com uma caligrafia nítida e elegante, estava escrito:
"Não sei como você ainda não tem meu número. Me liga da próxima vez, princesa. — L.T."
Aurora ficou olhando fixamente.
Então deu uma risadinha, cobriu o rosto e imediatamente adicionou o número aos contatos.
Lucian, salvo como: Sr. Sério.
Aurora: Agora você tem o meu também. Caso você queira aparecer em mais alguma das minhas aulas <3
A resposta veio mais rápido do que o esperado.
Sr. Sério: Anotado.
Uma palavra. Mas mesmo assim a deixou estupidamente eufórica.
E sim, ela estava completamente perdida.