O som de dedos teclando rapidamente ecoava pelo escritório elegante e iluminado pelo sol. Lucian estava sentado à sua mesa, os olhos semicerrados diante da pilha de e-mails. A parede de vidro do escritório deixava entrar a suave luz dourada da manhã, mas o homem não desviara o olhar da tela desde as 5h da manhã. Estava concentrado, sobrancelhas franzidas, as mãos dançando sobre o teclado como se tivesse algo a provar.
Seu telefone vibrou e ele finalmente desviou o olhar da tela, a mente insistindo para que o checasse.
Tulipa: Bom dia, Luc!! Sonhei que estávamos tentando adotar um pinguim, mas o abrigo disse não porque você parecia assustador demais 😭
Tulipa: Mas não se preocupe, eu argumentei e disse que você é só "misterioso" e mesmo assim eles disseram não... trágico, sabe?
Tulipa: Que aleatório, rs. Enfim, como foi seu dia? Não trabalhe demais, tá?! "Te vejo em breve de qualquer forma."
Ele encarou a mensagem por um momento, e então se viu quase sorrindo, o que era praticamente ilegal para o seu rosto. Digitou uma resposta rapidamente, antes que o raro momento de ternura o traísse.
Sr. Sério: Bom dia. Reunião em 30 minutos. Vou tentar.
Sr. Sério: Aliás, aquele pinguim perdeu a chance. Eu teria comprado uma geleira particular para ele.
Tulipa: OH??? Ok, Sr. Dinheiro.
Tulipa: Vai ostentar sua carteira recheada para salvar pinguins imaginários agora, é? 💸💅
Ele exalou pelo nariz, tocando na tela novamente, parando enquanto tentava encontrar algo minimamente afetuoso sem parecer que estava perdendo a pose.
Sr. Sério: Eu faria pior por você.
Ele desligou a tela. E imediatamente a ligou de novo. A resposta dela veio rápido.
Tulipa: ???????????????
Tulipa: Com licença, preciso ir gritar... Um travesseiro rapidinho, já volto.
Lucian não levantou os olhos quando as portas do seu escritório se abriram com um clique algum tempo depois. Ele não precisava. Matteo não bateu. Rafe nem se deu ao trabalho de cumprimentar. E o silêncio que se instalou com a pessoa era distintamente familiar.
"Coloque na mesa", murmurou Lucian, com os olhos fixos na tela enquanto as projeções financeiras rolavam, colunas de números mudando com um movimento do seu pulso.
"Ninguém trouxe nada para você, cara", disse Nico arrastado do canto.
Lucian olhou para cima. Nico estava esparramado no sofá de couro como se morasse ali, segurando um doce em uma das mãos e sorrindo de canto. "Você tem companhia."
Lucian piscou. "Por que você está aqui?"
"Por que você ainda está trabalhando?", interrompeu Matteo, entrando logo atrás dele. "Você sabe que horas são, né?", perguntou Matteo, olhando para o relógio e erguendo uma sobrancelha.
Lucian não olhou para cima. "Agora não. "Estou tentando terminar esta proposta."
"Cara, já são quase onze", disse Dante, se jogando no sofá de couro como se fosse o dono do lugar. "Você não ia se encontrar com a Rory?" Agora a chamavam por esse apelido. Todos eles. Ele tentou disfarçar o ciúme que sentia.
Lucian congelou. Seus dedos pararam no meio de uma tecla, piscando uma vez enquanto seu olhar se voltava para o horário no canto da tela. d***a. Ele estava atrasado.
"Ela vai te m***r", disse Nico, prestativo, colocando uma uva na boca da fruteira intocada na mesinha lateral.
"Achei que fossem oito horas", murmurou ele, salvando a proposta com algumas teclas pressionadas com força.
"Por que ninguém me avisou antes?", murmurou Lucian, levantando-se rapidamente. Seu celular vibrou e ele o pegou imediatamente, os olhos percorrendo a tela.
Aurora: Oi :) Estou aqui fora quando você estiver pronto! Sem pressa, eu sei que você está provavelmente está tramando alguma coisa sobre dominação mundial, rsrs.
Ele relaxou ao ler a mensagem, os lábios lutando para não esboçar um pequeno sorriso.
"Sem pressa", zombou Matteo. "Olha só para ele." Ele está quase sorrindo para o celular como um protagonista de comédia romântica apaixonado.
"Ele não parecia tão feliz assim há... nunca", acrescentou Rafe.
Dante assobiou. "Ele está com algum problema."
Lucian não se dignou a respondê-los. Vestiu o casaco, pegou o celular e as chaves e saiu pela porta.
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Lucian encontrou Aurora no saguão do prédio. Ela já estava esperando, agasalhada com um suéter creme e com seu sorriso suave de sempre, balançando levemente nos calcanhares como se tentasse se aquecer. Ela conversava animadamente com Marcus, seu segurança, enquanto riam e trocavam sorrisos.
Ela percebeu o olhar dele quando ele se aproximou, acenando para Marcus enquanto ele voltava ao trabalho.
"Oi", disse ela quando ele se aproximou.
Ele se inclinou, a mão roçando sua cintura como se já fosse um hábito, e lhe deu um beijo na bochecha. "Bom dia, meu bem." "Desculpe o atraso."
Ela piscou, um sorriso se formando em seus lábios. "Você me chama de meu bem agora?"
Lucian deu de ombros, guiando-a para fora com uma mão que repousou levemente em sua lombar. "Você não parece se importar."
"Não me importo", admitiu ela, com um rubor tímido. "Eu gosto."
Seus dedos se roçaram uma vez. Duas. Então, sem hesitar, ela entrelaçou os dedos nos deles.
O mercado de flores já estava repleto de cores e movimento quando chegaram. As barracas transbordavam de flores: tulipas, peônias, rosas de jardim, buquês silvestres que pareciam ter saído de um conto de fadas.
Os olhos dela se arregalaram como os de uma criança numa loja de doces. Ela inspirou profundamente, fechando os olhos por um instante.
"Lucian, olha essas rosas. Elas têm cheiro de sonhos de verão", disse ela, estendendo a mão para tocar as pétalas com dedos delicados.
Lucian a observou, sua expressão suavizando-se. Ela era como uma pintora admirando sua tela, pura admiração e amor entrelaçados em cada movimento. Ele nunca havia pensado em flores dessa maneira. Para ele, elas eram apenas... plantas. Mas com ela, elas se tornaram algo mais. Algo vivo.
Ele permaneceu em silêncio, mas por dentro, sua mente fervilhava. Pegou um buquê de tulipas silvestres, as favoritas dela, pelo que havia aprendido, e as colocou cuidadosamente sob o braço.
Eles passearam pelo mercado, Aurora conversando animadamente sobre diferentes flores, seus significados e como cada uma contava uma história. Lucian fazia perguntas, simples, mas seu tom era curioso, interessado.
"Você acha que as flores realmente mudam como as pessoas se sentem?", perguntou ele em certo momento. Aurora sorriu, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. "Com certeza. As flores são como pequenos pacotes de felicidade. Elas nos lembram de momentos, pessoas, lugares. Às vezes, uma única flor pode mudar o seu dia inteiro."
Lucian assentiu lentamente, guardando essa informação na memória.
O sol subiu e logo se acomodaram no pequeno café, o tilintar das xícaras e os murmúrios dos outros clientes preenchendo o ambiente. Lucian tomou um gole de café, lançando olhares furtivos para Aurora, que ainda estava radiante com a explosão de cores do mercado de flores.
"Então", disse ela, envolvendo a xícara quente com os dedos, "você nunca se cansa de tudo isso..." gesticulou vagamente em direção ao mundo lá fora, "...das pessoas, dos lugares, da correria?"
"Estou acostumado, à minha maneira. Viagens a trabalho, reuniões, negócios que nunca terminam. É sempre um movimento, sempre mudando. Isso torna tudo interessante."
"Parece exaustivo." Ela riu baixinho. "Você está sempre na correria."
Ele deu de ombros, um leve sorriso surgindo em seus lábios. "Alguém tem que manter os negócios funcionando."
Um breve silêncio se instalou entre eles, um silêncio acolhedor e reconfortante.
"Então... família?" Aurora perguntou de repente, quebrando o silêncio como uma brisa suave.
Lucian piscou, pego de surpresa pela mudança repentina. "Família?"
"Sim", ela respondeu, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. "Você sente saudade de casa? Ou sente falta deles quando está ocupado com tudo?"
Ele pensou por um instante, os traços de sua habitual reserva se suavizando. "Às vezes. Vejo meus pais quando posso. Não com a frequência que gostaria, mas o suficiente."
"E você?" ele perguntou gentilmente, devolvendo a pergunta.
O sorriso de Aurora vacilou, tocado por um toque de tristeza. "Os meus moram longe, sempre ocupados com suas próprias vidas. Não os vejo muito. Na verdade, eles não mandam mensagem desde que me mudei para cá, há alguns anos. Acho que se esqueceram."
Lucian estendeu a mão, o polegar roçando levemente o dela.
"Mas aprendi a conviver com isso, então está tudo bem", disse ela.
Eles ficaram em silêncio novamente, mas não era um silêncio desconfortável. Era como se o espaço entre eles se preenchesse com algo mais profundo... confiança, talvez.
"Minha família", acrescentou Lucian depois de um momento. "Eles vão te amar."
Os olhos de Aurora se arregalaram, surpresa misturada com ternura. "Você acha mesmo?"
"Sim, principalmente minha irmã", disse ele, com a voz firme. "Você é importante para mim. Isso importa para eles."
Ela apertou a mão dele gentilmente, um pequeno sorriso brincando em seus lábios. "Ah, obrigada, Luc."