A mensagem chegou de manhã cedo. A luz do sol invadia a cozinha, e o cheiro quente de café já impregnava seu moletom. Seu celular vibrou uma vez, depois outra.
Matteo: Oi
Matteo: Ele não está muito bem hoje.
Matteo: Tipo, muito m*l mesmo.
Matteo: Você não ouviu isso de mim, mas tem um negócio enorme dando errado e um monte de gente nova na equipe.
Matteo: Se você não estiver ocupada, talvez possa dar uma passada lá?
Ela fez uma pausa, lendo a mensagem duas vezes. Então, franziu a testa.
Rory: Ele não está dando conta do recado?
Matteo: Ele está tentando. Mas está sendo grosseiro com os caras, m*l fala, não comeu nada.
Matteo: Não conte para ele que eu te disse. Ele vai me m***r.
Matteo: Mas ele bem que poderia usar você agora.
Era tudo o que ela precisava.
Seu estômago deu uma reviravolta. Ela abriu as mensagens com Lucian e encarou a última conversa, respostas secas e curtas. Não era típico dele. Bem... não como ele era com ela.
Ela digitou uma mensagem rapidamente.
Tulipa: Oi, Luc. Tudo bem?
Uma pausa. Então:
Sr. Sério: Só trabalho.
Tulipa: r**m?
Sr. Sério: É. Só muito trabalho. Desculpa.
Ela encarou a tela por um segundo, o polegar pairando. Algo no tom dele, monótono, cansado, fez seus instintos gritarem. Não era só "estar ocupado". Era esgotamento.
Ela não respondeu.
Em vez disso, foi até a geladeira.
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O tilintar das panelas ecoou pela pequena cozinha enquanto Aurora se inclinava sobre o fogão, mexendo com a concentração silenciosa reservada para algo sagrado. Embora seu turno da manhã tivesse terminado há apenas uma hora, em vez de se jogar no sofá como de costume, ela prendeu o cabelo, arregaçou as mangas e começou a trabalhar.
Havia frango com alecrim fritando na frigideira, um recipiente com salada de macarrão na bancada e legumes assados terminando de assar no forno. Nada muito pesado, Luc reclamaria se sentisse sono depois, mas o suficiente para que ela sentisse que alguém se importava.
Isso era mais do que um almoço.
Era uma oferta de paz em um campo de batalha no qual ela não podia entrar.
Ao meio-dia, ela entrou no prédio dele com um propósito definido.
"E aí, Marcus?", ela chamou ao passar pelas portas da frente, segurando uma sacola de Tupperware como se fosse uma maleta essencial para uma missão.
Marcus, o segurança corpulento que havia se afeiçoado a ela depois de algumas visitas, ergueu uma sobrancelha. "De volta, senhorita encrenqueira?"
"Alguém tem que manter seu CEO vivo", ela piscou.
Ele soltou uma risadinha baixa e apertou o botão do elevador para ela. "Ele está lá em cima, mas se prepare. Está um caos."
"Eu tenho reforços", disse ela, erguendo a bolsa.
"Está tudo certo, Rory", disse Marcus, já digitando algo no sistema. "O elevador exclusivo para o chefe, que só aceita impressões digitais, não é mais tão exclusivo assim. A segurança registrou você semana passada, considere-se oficialmente na lista."
Aurora piscou. "Espera, sério?"
"Sim", Marcus sorriu, já escaneando o código de barras dela. "Você está no sistema agora, direto para o último andar quando quiser."
Suas bochechas coraram instantaneamente, um calor subindo por seu rosto. Lucian tinha feito isso? Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, tentando disfarçar, mas a palpitação no peito a traiu. "Ah", murmurou ela, sorrindo para si mesma. "Isso é... até que é fofo."
O elevador abriu com um sinal sonoro no andar da diretoria, elegante e estranhamente silencioso, e Aurora saiu como se fosse dona do lugar. Rina ergueu os olhos da sua mesa e olhou duas vezes, surpresa.
"Ah! Rory. Ele não mencionou..."
"Eu não contei para ele", disse Aurora, com um sorriso suave. "Ele está lá dentro?"
Rina assentiu rapidamente e riu. "Ele não saiu da mesa há horas."
"Perfeito. Volto para fofocar mais tarde", afirmou com uma piscadela.
Ela empurrou a pesada porta de vidro do escritório dele.
Lucian parecia... acabado.
Olheiras profundas emolduravam seus olhos. Seu paletó, geralmente impecável, estava jogado sobre o encosto da cadeira. As mangas estavam arregaçadas, e ele massageava as têmporas com os dedos enquanto encarava planilhas como se elas o tivessem traído pessoalmente. O som da porta se abrindo nem o fez olhar para cima a princípio.
"Matteo, eu já te disse, estou ocupado."
Então ele ergueu o olhar. Lentamente.
Confuso. Piscando. "Aurora?"
Ela não disse nada. Simplesmente entrou, fechou a porta atrás de si e caminhou até ele. Colocou a sacola sobre a mesa dele e delicadamente virou a cadeira em sua direção.
"O que você...?"
Ela sorriu e balançou a cabeça. "Oi, Luc."
Os olhos dele a examinaram, ainda atônitos. "Você não me disse que viria."
"Eu sei", disse ela, agachando-se ao lado dele e tirando os recipientes. "Porque se eu tivesse dito, você teria dito para não vir. E eu teria te ignorado de qualquer maneira."
Um suspiro lento escapou de seu peito, como um balão murchando.
"Eu trouxe o almoço."
"Aurora..."
"Você não comeu, não é?"
Silêncio.
"Era o que eu imaginava." Ela tirou as tampas. O aroma de alho e ervas invadiu o ambiente. Ele a observava como se ela fosse uma aparição divina enviada para trazer a salvação.
Ela espetou um pedaço de frango com um garfo e o ergueu. "Abra."
Ele hesitou por um segundo a mais do que deveria.
"Lucian Thorne", ela avisou.
Isso foi o suficiente. Ele obedeceu.
Assim que...Assim que a comida tocou sua língua, ele fechou os olhos e suspirou. Ela deu uma risadinha. "Meu Deus, você estava morrendo de fome?"
"Aparentemente", murmurou ele, mastigando, com a voz mais baixa que o normal. "Está muito bom."
"Eu sou incrível", disse ela alegremente, dando-lhe mais uma garfada.
Nos minutos seguintes, ela alternou entre alimentá-lo e deixá-lo comer sozinho enquanto se sentava na beirada da mesa dele. As linhas rígidas do corpo dele começaram a relaxar, e a ruga entre as sobrancelhas suavizou. Ele se recostou, apenas observando-a enquanto ela contava uma história engraçada do seu turno naquela manhã.
"E aí um garoto me disse que eu pareço uma tulipa, o que foi estranho, mas meio fofo", ela riu.
Ele sorriu, um sorriso de verdade, os cantos da boca se curvando para cima como se nem doesse. "Parece mesmo."
Ela fez uma pausa. "Parece o quê?"
"Parece uma tulipa."
Ela inclinou a cabeça. "Isso não faz o menor sentido."
Lucian deu de ombros, com um brilho caloroso no olhar. "Para mim, faz."
Um minuto se passou.
"Você age como se esta fosse a primeira refeição da sua vida", provocou ela, com o queixo apoiado na palma da mão.
Ele nem sequer olhou para cima. "Poderia muito bem ser."
"Que dramático", ela riu, cutucando o joelho dele com o pé.
Lucian ergueu os olhos para ela e, pela primeira vez naquele dia, seus olhos estavam menos sombrios, menos cansados. "Obrigado."
Ela revirou os olhos, mas a sensação de frio na barriga não mentia. "É, é. Coma essa sua maldita massa."
Assim que terminou o prato (e ela o fez beber água também, porque alegava que ele tinha os hábitos de hidratação de um cacto desidratado), Lucian o colocou de lado e voltou para o computador. Ele ainda tinha uma montanha de trabalho para fazer, mas a presença dela no quarto fazia com que tudo parecesse menos sufocante. Aurora se levantou, se espreguiçou e decidiu pegar um copo d'água na copa, do lado de fora do escritório. Assim que entrou, viu Jamie encostado casualmente no balcão, mexendo no celular com um sorriso tranquilo que não chegava aos olhos. Ele parecia confortável demais para alguém que normalmente não tinha acesso a este andar.
"Ah, oi Jamie", disse ela, genuinamente surpresa. "Pensei que este andar fosse proibido, a menos que você fosse o chefe ou algo assim."
Jamie deu uma risadinha, guardando o celular no bolso e se afastando do balcão. "Normalmente, sim. Mas hoje estou ajudando com algumas coisas administrativas para a equipe financeira, só para substituir alguém. Eles tinham uns documentos urgentes para entregar e, aparentemente, ninguém mais estava disponível. Sabe como são esses pedidos de última hora."
Aurora assentiu educadamente, aceitando a desculpa. "Certo, o clássico 'precisamos disso para ontem'."
"Exatamente", disse Jamie com um sorriso amigável que fez suas covinhas aparecerem. "Então, como está o Lucian? Vocês dois parecem uma equipe sólida ultimamente. Eu queria perguntar."
Aurora sorriu levemente, um pouco de calor surgindo apesar do constrangimento. "Estamos resolvendo as coisas. É... complicado, mas bom."
O olhar de Jamie permaneceu em seu rosto um pouco mais do que o esperado, como se ele estivesse procurando algo além da superfície. Então, em um tom mais leve, ele disse: "Esse tipo de proximidade pode ser... complicado, no entanto. Principalmente quando novas pessoas entram na história. Pode realmente bagunçar as coisas."
Aurora deu de ombros, tentando disfarçar. "É, às vezes. Mas o Lucian está bem focado no trabalho, então eu tento manter as coisas simples e longe de dramas."
Jamie assentiu lentamente, sem nunca desviar o olhar do dela. "Boa jogada. Você tem que ter cuidado no mundo dele. A dinâmica de poder pode mudar rapidamente, e é sempre interessante ver como as pessoas lidam com isso."
Ela piscou, sem saber como responder, mas querendo manter o clima leve. "Acho que sim. Honestamente, ainda estou aprendendo a lidar com tudo isso."
Jamie sorriu, mas havia algo um pouco artificial no sorriso, como se estivesse ensaiando. "É, bem, nem sempre é óbvio até as coisas começarem a ficar complicadas. É aí que você vê do que as pessoas são realmente feitas."
Aurora engoliu em seco e forçou uma risada. "Parece que você já viu muita confusão."
"Ah, você não faz ideia", disse Jamie, piscando o olho e tocando a têmpora. "É por isso que eu sempre procuro por pessoas boas. Pessoas como você."
Ela retribuiu com um pequeno sorriso, embora uma inquietação a incomodasse. "Obrigada, Jamie. Isso significa muito."
Ele lhe deu um sorriso pequeno e reconfortante. "Bem, não vou te atrapalhar. Só pensei em dar uma passada para ver se estava tudo bem."
"Sim, obrigada", disse Aurora, ainda um pouco confusa, mas retribuindo o sorriso. "Agradeço."
Quando Jamie se virou para sair, olhou por cima do ombro com um olhar casual: "Se precisar de alguma coisa, não hesite em me chamar."
Aurora o observou se afastar, o charme natural ainda pairando no ar. Mas, à medida que seus passos se distanciavam, ela se perguntou se não teria imaginado aquele breve lampejo, apenas uma fração de segundo, de algo mais sombrio por trás daqueles olhos calmos.
Ela afastou o pensamento e começou a voltar para o escritório de Lucian, sentando-se em sua mesa enquanto ele levantava um...Ele a encarou com uma sobrancelha arqueada.
"Tudo bem se eu ficar um pouco?", perguntou ela.
Ele inclinou a cabeça em direção ao sofá macio encostado no canto do escritório. "Só se você prometer não dormir nele de novo."
"Sem promessas, Luc", ela cantarolou enquanto pegava uma das almofadas e se jogava no sofá.
Ele resmungou, mas ela viu um sorriso surgir em seus lábios.
Enquanto Lucian fazia uma ligação, Aurora caminhou até a mesa de centro e folheou um elegante bloco de notas de couro, abrindo-o em uma página em branco. Seus olhos brilharam.
"Essas anotações são para assuntos de trabalho ou posso usá-las para o caos?"
Lucian, ainda ao telefone, olhou para ela e ergueu uma sobrancelha. Ela interpretou isso como permissão.
Destacou uma caneta e começou a rabiscar: uma versão muito m*l desenhada dele em sua mesa, curvado como um gremlin. Ao lado, um balão com as palavras "Relatórios. Mais relatórios. Estresse. Morte." Então, no canto, ela acrescentou uma pequena tulipa ao lado do nome dele e a coloriu com as canetas que encontrou na gaveta.
Lucian encerrou a ligação, girando levemente na cadeira. "É melhor você não estar danificando propriedade da empresa."
"Tarde demais", disse ela sem levantar os olhos.
Ele atravessou a sala para espiar por cima do ombro dela, com os braços cruzados. "O que é isso...?"
Ela fechou o caderno com um estalo e o apertou contra o peito. "Nada!"
Ele estreitou os olhos. "Mostre-me."
"Não. Você vai usar isso contra mim ou algo assim."
"Talvez", admitiu ele, embora a suavidade em seu olhar o denunciasse. Ele estendeu a mão e passou os dedos pelos cabelos dela, depois pela bochecha. "Fique até eu terminar?"
Ela sorriu para ele. "Obviamente."
Lucian voltou para sua mesa, agora menos tenso, enquanto ela se aconchegava no sofá e retomava seus rabiscos sem sentido. De vez em quando, ela resmungava comentários sarcásticos sobre o jargão corporativo que ele usava nas ligações.
"Você acabou de dizer 'otimizar a alavancagem interfuncional' em voz alta?"
Lucian nem sequer levantou os olhos. "Sim."
"Você deveria ser preso."
Ele conteve um sorriso irônico.
Os minutos se transformaram em uma hora. Quando ele terminou, as luzes lá fora começaram a se apagar, criando uma névoa dourada. Ele caminhou até ela, que estava meio adormecida com o caderno no colo.
Ele o pegou delicadamente e abriu na página em que ela havia desenhado. A tulipa se destacava no canto, ao lado do nome dele. Ele a contornou com o polegar.
Em silêncio, ele se sentou ao lado dela e se inclinou para frente.
"Oi, Tulipa", murmurou.
Ela entreabriu um olho e sorriu sonolenta. "Oi, Luc."
E ambos perceberam:
Estavam se apaixonando.
Um pelo outro.