A batida veio de novo. Mais alta dessa vez. Mais aguda. Irritantemente humana.
Seu maxilar se contraiu. Ele finalmente desviou o olhar e começou a se levantar, mantendo o silêncio para não acordá-la, mas não foi rápido o suficiente.
A porta se abriu antes que ele pudesse interceptá-la.
"EI, LUCIAN!" A voz de Dante ecoou pelo escritório como uma sirene de nevoeiro com óculos de sol Gucci.
Lucian se moveu rapidamente com uma expressão facial pronta para m***r. Sua cadeira rangeu para trás, seu corpo um borrão de movimento enquanto ele avançava em sua direção com as sobrancelhas arqueadas e um olhar fulminante.
"Para fora", ele disparou, já agarrando a manga de Dante. "Agora."
Dante piscou, paralisado no meio do caminho, perplexo com seu comportamento ainda mais severo do que o normal. "EI! Que diabos-"
Lucian não respondeu. Ele fechou a porta atrás deles com um baque abafado, mas firme.
O ar no corredor estava estéril, silencioso. Tenso.
Rina, assustada com a repentina comoção, olhou para eles com curiosidade antes de tentar conter o riso.
"Você está agindo pior que o Rafe! O que aconteceu—" Dante começou, em seu tom de voz extremamente alto de sempre.
A mão de Lucian já estava sobre a boca. "Fale mais baixo."
As sobrancelhas de Dante se franziram em confusão até que algo fez sentido. Ele inclinou a cabeça de repente, olhou para Lucian com um sorriso cúmplice enquanto um sorriso lento lutava para surgir em seu rosto.
"Tem alguém aí dentro?" ele sussurrou, com os olhos arregalados. "Não. Acredito."
Lucian não respondeu, mas seu silêncio foi uma resposta.
Dante riu baixinho. "Você nunca teve ninguém aí dentro. Nem mesmo a Rina. O que é isso? Acabei de te pegar no meio de um cochilo maratonando Netflix?"
Lucian lançou-lhe um olhar de "você está falando sério?".
Dante ergueu as mãos em sinal de rendição. "Ei, você está dando a impressão de que..."
"Ela adormeceu", disse ele, interrompendo-o baixinho e ajustando a manga da camisa como se a conversa o entediasse, como se não se importasse com o que havia assustado Dante. "Eu não queria acordá-la."
"Ahhh", disse Dante com um sorriso irônico. "Então você é um cavalheiro agora. Uau. Evolução. Meu Deus, espere até eu contar para o Matteo..."
Lucian suspirou, interrompendo-o novamente, cansado de seus devaneios. "Por que você está aqui?"
"Certo, certo", disse Dante, com a voz ainda carregada de diversão. "O lançamento do app do Rafe é mês que vem, lembra? Os servidores precisam de hospedagem. O Matteo disse que sua equipe de infraestrutura daria conta disso melhor do que ninguém. Disse que você devia um favor a ele por ter te tirado daquela confusão em Praga."
Lucian apertou a ponte do nariz. "Tudo bem. Vou mandar as especificações para a equipe. Precisa disso para ontem?"
"Tipo, ontem", disse Dante, mas o sorriso não havia desaparecido. "Vou dizer para o grupo que você disse sim."
Lucian o encarou com um olhar inexpressivo e estava meio virado quando Dante pigarreou novamente.
"Na verdade... preciso enviar o contrato pelo seu servidor seguro. O Nico me bloqueou o acesso ao nosso painel... de novo. Eu disse a ele que apaguei sem querer a playlist dele no Spotify, e ele está me castigando desde então. Preciso usar seu computador por uns dois segundos. Prometo que nem vou respirar fundo para não fazer barulho"
Lucian o encarou por um longo e inexpressivo momento. Aquele tipo de olhar que geralmente precedia a ruína de fundos de investimento inteiros.
Mas, por fim, ele suspirou. "Tudo bem. Mas fique quieto."
Dante sorriu radiante. "Silencioso como um morto."
Lucian destrancou a porta e a abriu apenas o suficiente para Dante entrar.
No instante em que Dante entrou, sua postura mudou. Ele ainda era Dante, chamativo, arrogante, com a pele excessivamente hidratada, mas havia algo mais discreto no jeito como lançou um olhar furtivo para o sofá.
Ele caminhou até a mesa de Lucian, falando baixo. "Certo. Só estou fazendo o upload. Não vou fazer barulho. Nem vou mascar chiclete com força."
Lucian ficou encostado na parede ao lado dela, de braços cruzados, observando-o como um falcão observa um guaxinim no lixo.
Dante trabalhava rápido. Ele conhecia o sistema, todos no grupo conheciam, mas ele era mais caótico do que a maioria. Mesmo assim, ele não brincava em serviço. Os arquivos foram transferidos em segundos. Ainda bem que Aurora não tinha se mexido. Continuava dormindo, ainda absorta em seu pequeno mundo. A luz batia em seus cabelos de um jeito perfeito, ela parecia um sonho.
"Ela está bonita", murmurou Dante enquanto era expulso do escritório de Lucian mais uma vez.
Lucian não hesitou. "Ela está."
O sorriso de Dante reapareceu, mas agora era diferente. Menos provocador, mais perspicaz.
Ele não insistiu. Apenas deu um tapinha no ombro de Lucian e saiu sorrateiramente para arrancar uma fofoca de Rina sobre certa pessoa.
E apenas alguns minutos depois, previsivelmente, ele pegou o celular, empolgado.
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[Grupo de bate-papo: PARE DE APAGAR MINHAS PLAYLISTS, DANTE]
Dante: Gente. Gente. GENTE.
Nico: O quê?
Matteo: Se isso for sobre sua máquina de café expresso de novo, eu te bloqueio.
Rafe: No meio de uma ligação. Urgente?
Dante: Acabei de ver o Lucian. No escritório dele. COM UMA MULHER.
Matteo: ??????????????????????
Nico: Tipo... uma mulher mulher? Você está alucinando de novo?
Dante: DORMINDO. NO. SOFÁ. DELE.
Rafe: Duvido.
Matteo: Espera aí. Como ela era?
Dante: Baixinha. Flores. Cabelo loiro. Uma espécie de energia caótica suave. Gy?
Nico: Você tá falando sério?
Matteo: É ELA. A GAROTA DE NICE. AQUELA QUE ELE FICOU ESCONDENDO MÊS PASSADO.
Rafe: Aquela dos sapatos brilhantes?
Dante: MEU DEUS, SIM. ELA. EU SABIA QUE ELA ME PARECIA FAMILIAR.
Matteo: Cara, ela praticamente esbarrou nele um milhão de vezes na cidade. A gente até brincou sobre isso.
Nico: Eu não consigo acreditar que ela existe de verdade. Ela tá no escritório dele. DORMINDO. Tipo, ela MORA lá.
Dante: E ele tava todo bobo. Tipo... MUITO bobo mesmo.
Matteo: EU SABIA QUE TINHA ALGUMA COISA ACONTECENDO. ELE FICOU OLHANDO PRA ELA COMO SE ELA TIVESSE QUEBRADO O CÉREBRO DELE.
Nico: A gente viu. Ninguém falou nada. Por que somos assim?
Rafe: Servidores do Dante prontos para o lançamento ou não?
Dante: RAFE, me poupe! Mas é, está resolvido. Prioridades, né?
Dante: Ah, e ele acabou de dizer "ela é" quando eu disse que ela estava bonita.
Nico: É, ele se foi.
Matteo: Ele está condenado.
Nico: Trágico.
Rafe: Que bom para ele.
Lucian: Cala a boca.
Dante: 👀 Ah, ele está lendo isso agora.
Matteo: Diga a ela que mandamos um oi quando ela acordar.
Nico: Diga a ela que estamos pensando nela e orando por ela.
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De volta ao escritório, Lucian encarou a tela. O chat exibiu outra mensagem, seguida por um GIF amaldiçoado de Dante.
Ele revirou os olhos e jogou o celular na mesa com um baque s***o.
Ele ergueu os olhos novamente e lá estava ela, despreocupada e serena, como se o estresse do seu mundo não a afetasse em nada.
As flores que ela havia deixado cair ainda estavam no tapete. Lucian se abaixou, pegou-as e as colocou delicadamente ao lado da mão dela.
Então, recostou-se, abriu o laptop e finalmente voltou ao trabalho.
Embora seus olhos continuassem a vagar.
Para o sofá.
Para ela.