Capítulo 1 - Sr. Sério

1483 Words
No sexto dia, o caos já era rotina. As cinco garotas, barulhentas e cobertas de glitter, transformaram o Airbnb limpo em Nice em um verdadeiro caos feminino. Roupas pendiam das portas. Garrafas de vinho vazias começaram a servir de vasos. Aliás, o curvex de alguém agora morava na geladeira, e ninguém questionava. Aurora Blaire era o caos em forma de marca-texto e salto alto. Radiante como um girassol e duas vezes mais teimosa. Ela conseguia conversar com qualquer pessoa, encantar qualquer um e, principalmente quando estava um pouco bêbada, não tinha filtro nenhum. Suas amigas a chamavam de um raio de sol ambulante. Esta noite era aniversário da Zara. Última noite da festa de uma semana no sul da França. O sol as havia beijado até a exaustão, o mar tentou reter seus biquínis, mas felizmente não conseguiu, e todas as cinco sobreviveram a duas ressacas francesas, uma tatuagem malfeita e pelo menos três homens questionáveis. Era hora de terminar com chave de ouro. Elas chegaram à boate rindo, gritando, emaranhadas umas nas outras, o perfume exalando em ondas. Aurora usava um vestido rosa de alcinha, sandálias de tiras e brilho como uma armadura. Seus cabelos loiro-dourados e ondulados balançavam a cada passo, os olhos azuis já brilhando com travessura e vodka demais. Elas tinham percorrido metade da pista de dança quando Aurora sentiu. Aquela sensação incômoda, que descia lentamente pela nuca. Como se alguém a tivesse fixado com a precisão de um atirador de elite. Ela hesitou por meio segundo. Só um piscar de olhos. Então, afastou a sensação. Não. Não esta noite. Não estou aqui para ninguém. Esta noite era noite das garotas. "Vou pegar uma bebida!", gritou para as amigas que já estavam se entregando à música, especialmente Zara, que começou a rebolar em cima de uma Isla sem jeito enquanto Liv e Alina a incentivavam com gritos de apoio. Aurora se afastou do grupo antes que qualquer uma delas pudesse protestar. No bar, era só cotovelos, suor e turistas frustrados. Aurora se inclinou sobre o balcão, tentando chamar a atenção do barman. Nada. Ela acenou. Sorriu. Fez a dança universal do "olá, eu tenho dinheiro". Continuou ignorada. "Tá bom, grosseria", murmurou, saltitando em seus saltos brilhantes. "Estou te dando toda a minha atenção e você não me dá nada." Então... Uma mudança. Um peso. Alguém se aproximou dela. Ela não olhou, não precisava. A energia era densa, constante e sólida em um ambiente que era puro caos e cores. Ele levantou uma mão. Só uma. "Uísque", disse ele. Voz rouca e profunda como a meia-noite em uma tempestade. O barman se moveu instantaneamente. Que diabos. Você está brincando...? Aurora piscou. "Você tem poderes?" Ela se virou. E quase entrou em curto-circuito. Aquele cara era um gigante comparado aos seus 1,65m. Mais de 1,80m de altura. Sério. Ridiculamente atraente. Camisa social preta enrolada até os antebraços, com as mãos cobertas de veias saltadas. Colarinho aberto. Cabelo escuro, bagunçado, com aparência cara. Olhos de aço invernal. E um rosto que parecia nunca ter dado uma risada sequer. Ele não respondeu. Apenas a encarou. Calmo. Medindo. Como se ela fosse um enigma em que ele não confiava. "O que está acontecendo com todo mundo hoje? Aff, será que estou invisível?" Ela acenou com a mão delicada na frente do rosto dele, com as sobrancelhas franzidas e uma risada radiante. Ainda sem resposta. "Você não vai me ajudar a fazer o pedido, vai?" Nenhum movimento. Nem piscar. Aquele cara era sério demais. Talvez fosse um robô? Ela o encarou. "Tudo bem. Eu mesma faço." Ela se inclinou novamente em direção ao balcão. "Oi, hum, posso pedir um Manhattan, por favor?" O barman a ignorou. Ela soltou um pequeno guincho de frustração. O homem ao lado dela falou novamente. "Acrescente ao meu." E pronto. A bebida apareceu. Aurora se virou para ele, com os olhos arregalados. "O que você é? Um príncipe? Você é o dono deste bar?" Ainda nada. Ela pegou a bebida, tomou um gole e suspirou de prazer. "Hum. Ok, admito, isso tem um gosto muito melhor quando outra pessoa paga." Ela provocou. Ele não disse nada. Ela apontou para ele. "Você definitivamente é uma daquelas pessoas que não gosta de conversa fiada e fica carrancuda nos cantos em casamentos. Mas secretamente tem um gato com um nome ridículo como Picles." Nenhuma resposta. Mas seu lábio quase se contraiu. "Você tem um gato, não é?" Ela disse, triunfante. Ele apenas tomou um gole de uísque. Ela interpretou isso como um sim. Ela estava totalmente certa. "Estou aqui com as minhas amigas", disse ela, gesticulando para trás. "A Zara é a aniversariante. A Liv é aquela que está chorando discretamente por causa de um cara chamado Rhys com Y. A Isla está se divertindo tanto quanto eu. E a Alina está tentando deixar a Zara muito bêbada." Nada ainda. "Nossa, você está parado como uma estátua", ela se maravilhou. "Uma estátua linda e misteriosa. Vou te chamar de Sr. Sério até você me dizer um nome." Ele olhou para ela então. Olhos penetrantes. Divertidos. Quase... curiosos. Aurora sorriu radiante. "Progresso!" Ela estendeu a mão, ousada e um pouco tonta, e delicadamente girou uma mecha do cabelo dele entre os dedos. "Seu cabelo é tão macio. Aposto que você finge que não se importa com produtos para cabelo, mas secretamente usa aquele shampoo roxo que as influenciadoras postam." Mesmo assim, ele não a interrompeu. Na verdade, ele gostou da nova sensação das mãos delicadas dela em seu cabelo. "Você parece alguém cujo apartamento é todo de couro preto e sem almofadas. Frio. Minimalista. Um cacto triste na janela." Pausa. Ela se inclinou para mais perto. "Eu o encheria de flores. Tipo, por todo lado. Lilases. Girassóis. Coisas que explodem em cores. Isso te deixaria louco." Os lábios dele se contraíram. Ela percebeu um movimento rápido atrás dele. Quatro homens. Parados nas sombras a poucos metros de distância. Não perto o suficiente para interromper, mas definitivamente perto o suficiente para observar com sorrisos m*l disfarçados. Ternos. Vozes baixas. Olhares curiosos. Um deles até cutucou o outro com aquela clássica energia de "cara, ele está realmente falando com alguém". Aurora sorriu. "Seus amigos parecem estar esperando por esse momento há uma década. Você não costuma ser do tipo que conversa com estranhos, né?" Nada ainda. "Não vou mentir, você está me passando uma vibe de... CEO, mas com a indisponibilidade emocional do Sr. Sério." Ela basicamente estava falando com uma parede, mas se ao menos soubesse o quão perto estava de alcançar algo com suas palavras. Porque m*l sabia ela que ele era um dos maiores CEOs do mundo. Bilionário. Imóveis, moda, tecnologia, transporte marítimo, ele era dono de um negócio em tudo. Metade das salas de reuniões em Londres o temia. A outra metade queria ser como ele. Ele nem deveria estar ali. Detestava boates. Evitava multidões suadas. Preferia sua suíte de hotel e um bourbon tranquilo. Mas seus amigos, leais e irritantes, o arrastaram para fora, insistindo que, por uma vez, ele se divertisse um pouco nessa viagem de negócios. Aquilo não era a sua praia. E definitivamente não era o seu mundo... E, no entanto, lá estava ele. Congelado diante de uma garota que brilhava como se tivesse sido banhada pela luz do sol. Pedras preciosas. Que diabos. Ela tomou outro gole da bebida. "Eu gosto de flores, sabe? As pessoas sempre dizem que é básico, mas eu não ligo. Eu gosto de flores que têm significado. Como rosas laranjas, que representam paixão, energia e todas as partes barulhentas e caóticas da vida. Não só as coisas românticas. As coisas da vida." ... Ainda. Nada dele. Já era esperado. Era estranho ela gostar? "Você odiaria. Brilhantes demais. Exageradas. Não combinariam com a sua estética minimalista de vilão." Ela olhou para cima novamente. Sorriu. Ele realmente soltou um suspiro. Não chegou a ser uma risada. Mas quase. Aurora deu um pulo e gritou de alegria. "Aha!" Ela comemorou, "Tem uma alma aí dentro. Eu vejo." E em algum lugar dentro dele, observando aquele raio de sol caótico despejar absurdos sobre ele em um bar, Lucian Thorne, o CEO que evitava o público como se fosse contagioso, percebeu algo silenciosamente aterrador. Ele gostou. E ele nem sabia o nome dela. E ela não perguntou o dele. "AMOR!" A voz de Zara explodiu ao lado deles. "DOCINHO. PRECISO DE VOCÊ AGORA." Aurora piscou, depois virou o resto da bebida. Ela se inclinou para trás uma última vez, os olhos brilhando e um rubor se formando. "Obrigada pela bebida, Sr. Sério." "Tente não se apaixonar por mim, nem nada do tipo." Então ela se foi, levada por um furacão de membros, risos e brilho. Lucian não se mexeu. Não a perseguiu. Mas seu olhar a seguiu, firme e indecifrável, por todo o clube. E pela primeira vez em anos, ele não quis ir embora mais cedo.
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