ALBERT
Os dias pareciam transcorrer em câmera lenta. A conversa com os detetives da polícia não rendeu resultados, fazia um mês desde o desaparecimento de Geovana e não sabíamos de nada. Victória não conseguira qualquer pista com os amigos próximos, era como se a minha irmã tivesse desaparecido no ar sem deixar qualquer rastro. Meu carro foi encontrado na divisa com o estado do Arizona poucos dias depois de relatado o desaparecimento, por sorte, a seguradora conseguiu rastrear, mas as notícias que vinham com isso não eram muito animadoras.
Semanas atrás...
O chefe de polícia chegou por volta das nove da noite. Pela expressão dele soube de cara que não trazia boas notícias, desde a queixa era o primeiro movimento dos policiais, mamãe estava cheia de expectativas e sentia-me m*l por não poder prepara-la para o pior. Manteve-se de pé, próximo à porta, embora o tenhamos convidado a sentar.
— Boa noite, senhora Parks — cumprimentou. — Senhor Parks.
— Alguma notícia da Geovana, policial? — Mamãe quis saber, a esperança brilhando em seus olhos.
— Achamos o carro do senhor Parks na divisa com o estado do Arizona — explicou em um tom cauteloso. — Mas não havia qualquer sinal da senhorita Parks.
— Para onde ela poderia ter ido? — indaguei, confuso. — Por que na divisa do estado?
— Estamos trabalhando com a hipótese de que ela foi levada contra a vontade — informou. — Não havia qualquer vestígio de luta no local, contudo encontramos uma pequena quantidade de sangue, a amostra foi levada para laboratório, precisamos de uma mostra de DNA para comprovar se é da senhorita Parks.
— Meu Deus! — Mamãe fraquejou e a amparei para que não caísse.
— Senhora, não se desespere, por favor, se for um caso de sequestro logo entrarão em contato e poderemos rastrear o paradeiro. Nós estamos trabalhando contra o tempo agora, quanto mais tempo passa, fica mais difícil encontrar. Alertamos o estado do Arizona e espalhamos a foto dela por lá com a descrição do que vestia quando desapareceu, vamos esperar por notícias, é nossa melhor saída agora.
Fechei os olhos. Por um momento, era como se todo o meu mundo tivesse desmoronado sob meus pés. Geovana sequestrada? Quem no mundo faria uma coisa como aquela? Por quê? Não éramos uma família rica ou coisa assim, não podia mais suportar aquilo e, mesmo assim, me forçava a me manter forte pela mamãe.
— Obrigado, policial — disse em voz baixa, lutando contra o nó fechando a garganta.
— Entre em contato se tiver qualquer pista, filho. Estaremos continuando com as buscas, se os sequestradores entrarem em contato comuniquem, vou deixar um policial de vigia — assentiu caminhando para a porta enquanto o acompanhava.
— Com certeza entrarei em contato imediatamente — assegurei.
Agradeci-lhe mais uma vez e ele foi embora. Ajudei mamãe a chegar em seu quarto e deixei-a descansando após tomar seu calmante, quando me vi sozinho senti-me incapaz de esconder meu desespero e chorei. Quando imaginava os horrores pelos quais minha irmã poderia estar passando sentia o coração comprimir-se dentro do pito ao ponto de me m***r. Eu a queria em casa, protegida... me senti negligente e estava de mãos atadas, eram as piores sensações do mundo, que tipo de irmão eu era quando m*l podia achar minha irmã?
Agora...
Era uma luta contra o tempo. Um mês havia passado e não havia qualquer notícia, a cada dia terminado morria um pouco da nossa esperança. Ninguém a viu durante todo aquele tempo e sempre que recebíamos qualquer sinal, não era ela. Parecia injusto a vida continuar enquanto sofríamos daquela forma, como se a ausência dela não fizesse qualquer diferença; a espera de respostas, de um sinal, era agonizante.
— Você já está indo? — Mamãe perguntou quando desci as escadas.
— Sim, estou com uns casos acumulados, preciso dar conta nos próximos dias. — Tentei sorrir, sem sucesso.
— Se cuide, sim? E me ligue assim que chegar.
— Tudo bem, mãe. — Beijei-lhe a cabeça. — Ligo sim.
Se não fizesse isso ela ficava em uma condição incontrolável. A cada três horas ligava para garantir-lhe que estava bem, só assim ela conseguia manter o equilíbrio mental intacto. Avistei Victória quando alcancei a rua, ela vinha andando acabrunhada pela rua na direção da nossa casa.
— Vic, tudo bem?
— Ainda sem notícias dela? — indagou-me, o rosto abatido, não havíamos nos visto muito nas últimas semanas.
— Não... a última ligação que recebemos era alarme falso — suspirei. — Como você tá?
— Querendo acreditar que tudo isso é um pesadelo. — Baixou a cabeça. — Automaticamente vim aqui procurar por ela e lembrei que ela não vai estar em casa...
— Vem cá... — Abracei-a lutando contra minha própria tristeza. — Também sinto falta dela, Vic...
— Ela vai voltar pra casa, não vai, Albert? — Seus olhos marejados me fitaram.
— Claro que vai. — Garanti, tentando convencer-me daquilo também. — Com certeza ela vai voltar pra gente.
Nos despedimos e segui para meu trabalho como a rotina mandava, contudo, nada na minha vida era a mesma coisa, tudo havia mudado. Já não conseguia mais focar como antes, ficava olhando o tempo todo o telefone na espera incansável por uma mensagem ou alguma pista que me levassem ao paradeiro de Geovana, perdia-me em pensamentos a respeito de onde ela estaria e como estaria, se sofria muito.
— Parks! — Alguém gritou meu nome em tom irritadiço. Era Samuel, meu coordenador. — De novo com a cabeça na lua?
— Sinto muito, senhor Waves.
— Eliot Lewis está vindo para cá receber orientação a respeito do caso dela, vai a julgamento amanhã, você terminou os protocolos?
— Sim, senhor — anuí. — Dei prioridade a ele uma vez que é o caso mais próximo de ir à juízo.
— Ótimo, passe para o Kennedy, ele irá assumir.
— Sim.
Peguei a pasta e levantei-me depressa, era melhor levar logo os documentos para o advogado antes que recebesse outra advertência. Desde o desaparecimento de Geovana era comum levar aquele tipo de chamada, não apenas no escritório, onde trabalhava como assistente meio período, mas na faculdade também, com frequência professores me procuravam para discutir sobre meu desempenho nas atividades. Aliado a isso estava o estado de saúde emocional da minha mãe piorando cada vez mais, ela resistia a duras penas no seu trabalho como gerente de um hotel, abalada por crises nervosas e uma ansiedade incontrolável.
O tempo continuava passando, impiedoso, cada dia diminuindo a chance de encontrá-la. Estendemos as buscas para os estados de Washington, Montana, Idaho, Nevada, Wyoming e Califórnia, era um processo lento, mas ainda assim não havíamos tido qualquer resultado até então. Quando saí da sala de Kennedy parei diante da janela no corredor do prédio e olhei para a cidade do lado de fora, a massa de prédios me lembrava as caixinhas com as quais decorávamos as maquetes da escola, os carros que pareciam formigas movendo-se entre os buracos de um queijo suíço, os pontinhos minúsculos das pessoas movendo-se nas calçadas e faixas de pedestre, as pontes erguendo-se sobre o rio Willamette e, ao longe, o monte St. Helens que dava para ver daquele ponto.
Tudo continuava em curso como se nada no mundo estivesse errado, me punha a pensar na frugalidade da vida, em como as pessoas continuavam vivendo em seus próprios mundos, alheias às demais realidades, e como uma única pessoa podia pôr em xeque a paz de outra por um tempo indeterminado. A qualquer momento podíamos nunca mais ver alguém precioso para nós e percebi como nunca paramos para pensar nisso, temos a tendência de acreditar que as pessoas são eternas e estarão sempre ali. Só me dei conta da diferença que Geovana fazia na minha vida, a dimensão da sua importância para mim, quando me dei conta que poderia nunca mais vê-la novamente. Lágrimas encheram meus olhos e por mais que lutasse não consegui reprimi-las, não consegui ignorar quão negligente fui com ela, com seus sentimentos, e nosso tempo juntos.
Encarei a realidade de haver a possibilidade de nunca mais ver minha irmã, ela poderia ter morrido como a polícia começava a acreditar. Lembrei de todas as vezes que fui incapaz de permanecer perto dela porque priorizei provas da faculdade ou trabalho, das semanas que sua depressão estava no ápice e ainda assim não consegui dedicar-lhe um tempo maior, não consegui me desligar da minha maldita rotina para ficar ao lado dela. Quando ela desapareceu escolhi dormir a ficar ao seu lado porque vê-la sofrendo daquela forma era insuportável para mim. De algum modo, era responsável pela situação que estávamos vivendo, se tivesse ficado ao lado dela, minha irmã nunca teria saído daquela maneira.
Ela estaria viva ao nosso lado, onde era seu lugar.