GEOVANA
A mulher olhava para o sangue no chão. Era muito sangue e ela parecia apavorada. A cabeça dele pendia no seu braço e suas roupas estavam encharcadas, parecia uma fantasia de bruxa ou algo do tipo e ela chorava apavorada com a certeza de que aquele homem estava morto. Mas, embora tentasse, não conseguia ver o rosto dela, não reconhecia aquele homem em seus braços ou qualquer uma das pessoas à sua volta naquele lugar m*l iluminado. Contudo, por alguma razão, a dor dela me afetava de uma maneira inexplicável.
Quando abri os olhos, senti-me entorpecida. A claridade baixa do quarto não era em nada familiar e meus olhos demoraram um pouco para colocar as coisas em foco. Respirei fundo, mas o simples gesto parecia, de repente, muito difícil. Queria chamar por alguém, mas não conseguia achar minha voz, a cabeça doía de modo insuportável e, antes que pedisse, a inconsciência veio mais uma vez me dar alívio.
— ... poucos momentos de consciência nos últimos três dias.
— Houve mais alguma complicação?
— Não. Monitoramos vinte e quatro horas como pediu e não houve mais paradas. Ela se manteve estável.
— Vou esperar mais um pouco antes de transferi-la de volta para um quarto.
Não reconhecia aquelas vozes, que soavam em tom sussurrado, m*l permitindo definir uma como feminina e outra masculina. Uma lágrima solitária percorreu minha têmpora e caiu na orelha, a visão deles ficou desfocada apenas por um minuto. Conversavam ao pé da cama, de frente para mim, ao que parecia eram um médico e uma enfermeira, ou poderiam ser dois médicos, não tinha certeza. Ambos vestiam jalecos brancos, ela segurava uma prancheta, não podia ver seus rostos com nitidez e não conseguia chamá-los. Em determinado momento eles se voltaram para mim, percebendo que os observava.
— Olá! — disse o homem, a expressão séria. — Consegue se mexer? Tente erguer a mão se conseguir.
Com algum esforço mexi os dedos, parecia que minha mão pesava dez vezes mais do que me lembrava, mas consegui, após certa determinação, erguê-la um pouco. A mulher começou a anotar aquilo na prancheta enquanto o homem assentia me observando.
— Ótimo — incentivou. — Agora, use os dedos para me dizer, de um a cinco, o quanto está doendo.
Levantei três dedos e o homem sorriu fazendo um gesto para a mulher que anotava aquilo, ela se aproximou de mim e segurou minha mão com carinho, me perguntei por um momento se ela me conhecia, havia afeto no seu olhar quando me acariciou os dedos.
— Você é muito corajosa. — Sorriu. — Sabemos bem que dói muito mais que isso.
— Aplique um analgésico, Alice — disse o homem, ainda sorrindo. — Deixe-a descansar e continue observando.
— Sim, doutor. — Assentiu.
Ela colocou uma agulha dentro do soro ligado no meu braço e sorriu para mim ajustando algumas coisas. Aos poucos o torpor foi invadindo meus sentidos até, enfim, ser arrastada novamente para um mundo de sonhos caóticos e sem qualquer significado.
∞Ж∞
Não havia noção de tempo. Era incapaz de imaginar que horas eram ou há quanto tempo estava ali, lembrava da voz de duas pessoas no quarto, mas não lembrava o que disseram; recordava-me de ter tentado falar com um médico, mas não quando ou o que ele me falara. Era a apavorante sensação de não ter respostas para nenhuma das perguntas que vagavam impacientes na minha cabeça, e estava cansada demais para me obrigar a chegar a qualquer que fosse a conclusão.
Estava sozinha. Olhando em volta mais uma vez, percebi que esse quarto era diferente, havia menos aparelhagem ligada ao meu corpo. Uma mesa ficava em um canto com um jarro de flores vazio, parecia haver algumas revistas também e, próximo à janela, ficava um sofá de couro branco. Ainda tinha a sensação de peso no corpo; tentei mover as mãos, mas pareciam pesar uma tonelada cada, com algum esforço consegui alcançar minha cabeça e percebi que estava enfaixada com gaze. Tentei em vão erguer o tronco, mas não consegui me mover. Começava a sentir certo desespero e bem no momento que planejava arrancar o cateter da veia, a porta do quarto abriu e uma mulher entrou.
— Ah, você acordou! — Sorriu, carinhosa. — Já consegue falar?
Procurei com afinco minha voz, mas todas as tentativas foram inúteis, não saía um único ruído. Um cansaço persistente insistia em me manter dormindo e a dor se espalhando pelo meu corpo era tão intensa que minha mente chegava quase a clamar pela inconsciência.
— Se não consegue, tudo bem — disse, solícita. — Não se force. Apenas levante os dedos de um a cinco para me dizer quanto está doendo.
Ergui dois dedos. Ela sorriu outra vez e, devagar, a lembrança de aquilo já ter acontecido me veio à mente.
— Você suporta isso bem... não se preocupe, logo você se sentirá melhor. — Ajustou o soro e aplicou uma injeção. — Descanse um pouco mais.
Torpor. Quando meus olhos se fecharam voltei a ver o rosto do desconhecido, era o mesmo pesadelo, ele olhava para a mulher com um olhar de profunda dor enquanto agonizava em seus braços, o sangue formava bolhas em sua boca e escorria pelo queixo, ele tremia e a mulher parecia gritar, mas não importava o que, nunca conseguia ver o rosto dela.
Pessoas à volta deles naquela espécie de rua deserta usavam telefones, comentavam entre si, mas não podia ouvir nada do que diziam. Tentei em vão acordar, mas não consegui, as imagens vinham de modo desordenado e não faziam nenhum sentido para mim.
Havia um carro parado no fim de uma estrada deserta, aparentemente abandonado, era um dia quente de verão e uma pessoa caminhava até ele, mas não sabia quem ela era, por que, o que fazia ali ou como havia chegado. Então, de repente, tudo escureceu e não vi mais nada.