17. Perdida (V)

1143 Words
Senti-me melhor depois do banho. Alice me ajudou embora isso me deixasse desconfortável, mas meus músculos ainda não respondiam, de modo que era necessário e procurei deixar de lado minhas inseguranças para aceitar a ajuda dela. Gostava de Alice, pelo menos me acostumara a presença dela com o passar do tempo, assim como a doutora Swan, ela era alguém em quem sentia poder confiar e naquele momento qualquer pessoa que me passasse tal sentimento era preciosa, uma vez que não lembrava de nada e não sabia em quem podia ou não acreditar. — Como foi com o doutor Stuart? — Indagou quando me ajudou a voltar para a cama. Havia sido transferida da UTI para um quarto comum, mas ainda na ala VIP do hospital, pela minha condição especial, parecia que o doutor Persson queria me manter longe de vista. — Hum... não sei bem, acho que foi bom — suspirei acomodando-me no travesseiro. — Saí de lá com um pouco de esperança se comparado a como entrei. — Ele é o melhor neurologista do país, Geovana, tenho certeza que ajudará você a recuperar suas memórias — animou-me. — Está com fome? Bernardo vem ver você daqui a pouco. — Por quê? — Quis saber, inquieta. — Por quê? —Riu. — Ora, ele é o responsável por você, precisa monitorar cada passinho do seu quadro. Que há, não gosta dele? — Não é isso... — Baixei o olhar para o lençol verde que me cobria. — Ele só me deixa nervosa... — Ah, por isso seus batimentos aceleram sempre? — Riu de novo. — Acredite, ele causa esse efeito em todas as mulheres desse hospital, em peso. Só não deixe ele saber disso, vai acabar ficando convencido. Ela colocou os eletrodos com cuidado, mas pelo menos me livrei do soro. Quando viu que estava tudo certo saiu com a promessa de me trazer o jantar e foi quando me dei conta de haver anoitecido, o tempo parecia congelado dentro daquele lugar, não fazia ideia que horas eram ou o dia do mês — nem que mês era aquele. Fiquei pensando no que o doutor Stuart havia dito sobre o quadro e sobre H.P. Lovecraft, tinha a vaga memória de tê-lo estudado na escola, mas não conseguia lembrar onde, ou mesmo o rosto da minha professora. Era um dos aclamados escritores americanos, sabia, e o conto mencionado pelo médico era de meu conhecimento, havia lido antes, mas me recordava muito pouco. Parecia que toda a minha vida até acordar naquele hospital era uma grande folha em branco com pequeninos borrões de lápis. Divagava a esse respeito quando ouvi a porta do quarto abrir. Bernardo Persson apareceu trajando o jaleco de sempre. Seus cabelos estavam molhados indicando que havia tomado banho há pouco, ele sorria e, mais uma vez, senti todo meu corpo entrar numa situação incontrolável, o monitor cardíaco começou a gritar ao meu lado e desejei arrancar aqueles eletrodos do meu corpo. Ele ergueu uma sobrancelha se aproximando da cama e meu corpo inteiro adormeceu quando a luz pálida da cama iluminou sua face escultural, pegou meu prontuário preso numa prancheta fixada em um quadro ao lado dos monitores. — Te assustei? — perguntou avaliando o que estava escrito lá. — Um pouco... — Menti. Minha voz quase não saía, o que havia de errado comigo? — Desculpe. — Sorriu. — Percebi que estava perdida em pensamentos. Preocupada? — Eu só... estava pensando em algo que o doutor Stuart me disse hoje — murmurei sem olhá-lo, mas ainda podia sentir o peso do seu olhar sobre mim. Fui surpreendida quando ele sentou na cama ao meu lado, os gritos do monitor cardíaco ficaram mais altos e praguejei mentalmente tendo um leve sobressalto, ele deu uma risada baixa. — Está tudo bem? — Sua voz tinha um tom descontraído. — Estou começando a ficar com a impressão que assusto você. — Ahn... é só que... — Pare de divagar, d***a! Gritei comigo mesma. — Você me deixa inquieta. Quando percebi as palavras haviam escapado pela minha boca sem que pudesse evitar. — Sério? — A risada dele pareceu mais divertida. — É a primeira vez que isso acontece com um paciente. Mentira, logicamente. Pensei reprimindo a vontade de revirar os olhos. — Algum motivo específico? — Quis saber. — Não sei... só... fico inquieta. — Podia senti-lo ali, tão perto e ao mesmo tempo tão inalcançável. — De um jeito bom ou r**m? — Sua voz assumiu agora um tom preocupado. — Confuso. — Tentei explicar, meu rosto queimava. Podia ouvir o monitor cardíaco apitar descontrolado. Antes de ele poder dizer o que estava prestes a falar, Alice entrou no quarto com uma bandeja móvel de hospital trazendo meu jantar, agradeci no meu coração a ela por ter aparecido, Bernardo lançou um olhar atento à bandeja e pôs-se de pé para que ela pudesse coloca-la ao meu alcance na cama. — Chegou um trauma na emergência, Bernardo, melhor ir olhar, Otto está com problemas — anunciou. — Obrigado. — Ele me lançou um olhar atento. — Boa noite, Geovana. Vejo você amanhã. — Boa noite, doutor... — respondi encarando a sopa diante de mim. Quando ele saiu, Alice se aproximou e segurou minha mão ainda trêmula. — Que climão era aquele aqui? — Deu uma risada leve. — Geovana, Geovana, será que você se apaixonou? Impossível. Absurdo. Loucura. — Eu não a censuraria, Bernardo é impossível e quase irreal, metade desse hospital daria um rim para que ele dedicasse um pouco de atenção. — Não é nada disso — repliquei. — Eu só não estou acostumada com a presença dele ainda. Todo mundo é muito estranho pra mim, não sei em quem posso ou não confiar, quem devo ou não temer... só isso. — Tudo bem, fica calma. —Riu novamente. — Só estava brincando com você, não leve a sério. —A título de curiosidade, quantas pacientes já se apaixonaram por ele? — Quis saber tentando não parecer ansiosa. — Pacientes? — Ela pareceu ponderar por um momento. — Acho que só aconteceu uma vez, mas faz muito tempo. Bem ao contrário das enfermeiras, até mesmo algumas médicas. Houve uma vez que ele teve que demitir uma fisioterapeuta porque ela estava passando dos limites. — Demitir? — inquiri, surpresa. — Ele pode fazer isso? — Claro que pode. — Deu de ombros. — Ele é o dono desse lugar. Se antes quando o via como um mortal ele me parecia inalcançável e me inquietava de uma maneira frustrante, naquele momento Bernardo Persson se tornou uma peça de museu cercada por vidros e protegida por lasers. Mas não era apenas ele a me preocupar e inquietar meus dias, estava progredindo, mas minhas memórias ainda estavam inacessíveis, para onde iria quando saísse dali? Aquele problema me angustiava mais que todos os outros.
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