— Isso mesmo, devagar.
A fisioterapeuta era a encarnação da paciência. Com cuidado ela me ajudava a esticar e dobrar as penas enquanto não conseguia andar por causa dos músculos em desuso por um tempo demasiado longo. Apesar de ter sido apenas um mês em coma, eu estava imóvel de cama um pouco antes disso. O processo todo de recuperar os movimentos era doloroso e árduo, lutava contra as lágrimas enquanto o suor escorria pelo meu rosto e costas, a sensação era que meus músculos haviam ressecado e cada mínimo gesto doía exigindo o máximo esforço.
— Você está indo muito bem, Geovana! — Encorajou-me.
O progresso era lento, mas a trava nos meus músculos ia cedendo mais rápido que o esperado, por sorte, meu tempo de coma não fora maior, caso o tivesse seria mais árduo e demorado recobrar os movimentos. A doutora Swan entrou no quarto sorridente como sempre, havia algo nela que me acalmava de imediato, senti-me um pouco mais tranquila com sua presença, Alice, que também estava no consultório da fisioterapeuta, sorriu para ela.
— Alice, doutora Chen, Geovana, como estão?
— Ah, Swan! — A doutora Chen sorriu. — Que bom vê-la, o que a traz aqui?
— Vim buscar a nossa paciente comum, Stuart vai examiná-la. — Piscou para mim.
— Oh, havia perdido a hora da consulta! — Alice reclamou consigo mesma.
— Tudo bem — disse a doutora Swan — de todo jeito queria avisar a Anna que há um paciente para ela no leito doze. — Voltou-se para a doutora Chen — ele não pôde ser trazido para cá, melhor dar uma olhada. Otto está com ele agora.
— Ah, claro, obrigada, Swan!
— Não por isso! — Sorriu para mim. — Vamos? Não precisa ficar nervosa, querida, vou ficar com você, hum? Eu a levo de volta para o quarto, Alice, Persson está precisando de você agora, ele vai entrar numa cirurgia de estômago em dez minutos.
A menção ao nome do médico me causou sobressaltos no coração, fiquei feliz que desta vez não havia qualquer eletrodo para monitorar minha frequência cardíaca. Alice agradeceu e desapareceu pela porta, a doutora Chen me ajudou a voltar para a cadeira de rodas antes de ir atender seu paciente, Emily Swan me empurrou pelo corredor enquanto cumprimentava enfermeiros e médicos que eu desconhecia, não demorou muito para chegarmos a ala 4 do hospital. Iríamos encontrar, segundo a doutora Swan, o doutor Roger Stuart, um respeitável neurocirurgião.
— Natalie, olá! — Ela cumprimentou a enfermeira no balcão.
— Doutora Swan, bom dia! — A enfermeira sorriu.
— Estamos aqui para ver Stuart, ele está livre?
— O doutor está com um paciente agora, pode aguardar alguns minutos? — Pediu.
— Claro. — Emily assentiu.
Ela empurrou a cadeira de rodas até as poltronas na sala de espera que antecedia o consultório do médico. Sentia-me inquieta, as coisas pareciam estar acontecendo depressa demais e não conseguia assimilar tudo, a confusão e a impotência por não poder lembrar de nada me afligiam. Emily segurou minha mão em um gesto tranquilizador, muitas vezes como aquela pensava se ela podia ler minha mente.
— Há algo que gostaria de perguntar, posso? — Inquiriu com um sorriso que dava pouco espaço para negativas.
Olhei-a por um instante temendo a pergunta, mas assenti, Emily me passava uma calma tão grande que sentia poder falar de qualquer coisa com ela.
— Eu tenho notado, desde que fui falar com você pela primeira vez, que você fica inquieta diante do doutor Persson, pode me dizer o motivo?
— Não sei do que tá falando... — Menti.
— Não precisa me contar se não quiser, só achei que seria bom conversar sobre isso se é algo que te incomoda. — Ela apertou levemente minha mão, podia sentir meu coração acelerar.
— Eu... — tentei procurar as palavras certas, mas não havia uma maneira de explicar para ela como me sentia quando nem eu entendia. — É estranho... quando ele me olha.
— Estranho por quê? Isso te incomoda?
Àquela altura já havia entendido que psicólogos são, antes de mais nada, questionadores. Eles transformam tudo numa pergunta, inclusive as coisas que você não pode responder. Umedeci os lábios e baixei o olhar para as mãos.
— Não sei... é como se ele estivesse vendo além de mim.
— E você não gosta disso. — Não era uma pergunta. — É compreensível, ninguém gosta de ser analisado, há coisas que não queremos que as outras pessoas descubram, não há quem possa censurá-la por isso, Geovana.
— Não tenho certeza se é assim... só sei que há algo nele que me deixa inquieta.
Nesse momento ela deu uma risada baixa, como se tivesse compreendido alguma coisa oculta nas minhas palavras que eu mesma não havia entendido. Contudo, não tive tempo de questionar, pois a porta do consultório do doutor Stuart abriu-se e o paciente saiu acompanhado dele que lhe ofereceu um aperto de mão sincero. Era um homem esguio, usava óculos e tinha um rosto muito bonito, mas o que realmente chamava atenção eram suas mãos, elas eram anormalmente lúridas, os dedos longilíneos e unhas feitas. Parecia jovem, não mais que 32 anos, tinha um sorriso impecável e carismático, mas, sob toda a camada de despretensiosa, o ar nerd ainda prevalecia.
— Doutora Swan, que bom vê-la! — cumprimentou e Emily sorriu. — E esta deve ser Geovana, a famosa paciente do Persson, estou certo?
— Já disse que você devia ser detetive e não neurologista, Stuart! — Brincou Emily empurrando minha cadeira para dentro do consultório.
— Eu gosto muito do meu trabalho para andar atrás de pessoas mortas e parceiros traidores, Swan — devolveu com uma risada bem humorada.
Roger Stuart tomou seu acento atrás de uma mesa de vidro com hastes de metal e me lançou um olhar curioso, ao meu lado, Emily Swan permanecia quieta pronta para me dar apoio. Ninguém disse nada por um tempo, ele apenas me observava enquanto, para evita-lo, eu olhava a decoração de sua sala. Era muito simplista, uma estante com livros, um enorme banner com um cérebro ilustrado em cores que sinalizavam os hipocampos e suas funções, havia uma ala separada por uma porta onde algumas máquinas estranhas estavam alojadas, podia ver isso através de uma enorme parede de vidro, parecia longe o que me levava a ponderar o tamanho daquele consultório, até então era o maior que eu havia visto e desconfiava que havia passado por uma quantidade considerável deles naquele hospital. O dono do lugar devia ser bastante rico. As paredes eram brancas, a esquadria mesclava vidro e metal, com exceção da porta que era de madeira. Havia apenas uma pintura pendurada na parede, algo abstrato que não me dizia muita coisa, mas me causava uma estranha sensação de medo.
— Então, Geovana. — O neurologista quebrou o silêncio. — Soube que você levou uma pancada f**a na cabeça e não se lembra de nada, é verdade?
Anuí ainda olhando para a estranha pintura, era uma enorme mancha vermelha perpassada por uma faixa amarela que descortinava-se em manchas menores no lado esquerdo, algumas manchas pretas sobrepunham-se a ambas, mas a mancha vermelha central tomava a maior parte do quadro, uma aura bege e laranja circundava a moldura no lado direito e, dali, pequenos pingos lilases perdiam-se numa confusão das outras cores do quadro que se encontravam em uma guerra silenciosa.
— Geovana? — A voz da doutora Swan soou próxima a mim. — O que está vendo? O que esse quadro diz para você?
Deixei o silêncio imperar. As imagens eram nubladas e pareciam desconexas, como se não fossem minhas, não conseguia me lembrar de onde elas vinham ou o que representavam, meus olhos focavam-se naquela mancha vermelha e podia ouvir a pulsação como tambores de um ritual macabro nos meus ouvidos, a voz da doutora Swan me instigando a conversar com o quadro puxava as imagens para minha mente, a mancha vermelha começou a crescer em proporções assombrosas tomando o quadro inteiro e engolindo as outras cores.