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Virginia.
O chocolate escolhido é amargo.
Não intenso por escolha, mas porque já não tolera doçura.
Derrete em banho-maria, lentamente, com cuidado, como uma verdade que precisa de calor para ser dita sem quebrar tudo.
Não há manteiga em excesso. Nada para amolecê-lo demais. Aqui, cada ingrediente deve brilhar por si só.
As gemas são batidas separadamente, espessas, amarelas, transbordando uma riqueza que outrora seduziu... e agora pesa.
São incorporadas ao chocolate ainda morno, com cuidado, porque combinar certas coisas já não é um gesto inocente.
As claras são batidas em neve até ficarem firmes. Brancas, aeradas e contidas. Não buscam dominar a mistura, apenas dar-lhe estrutura, permitir que se mantenha em pé sem endurecer.
São incorporadas com movimentos de dobrar, levantar, separar, deixar espaço.
A mousse começa a tomar forma sem perder a leveza, como alguém que aprende a dizer não sem gritar.
Então vem a pimenta rosa...
Não queima. Não agride. Tem apenas o suficiente de tempero para incomodar.
Um calor seco e inesperado que surge no final e não pede permissão para ficar.
A mousse é servida fria.
Nunca quente.
Não treme.
Não derrama.
Mantenha a sua forma, seu silêncio, sua firmeza.
Ao prová-la, o chocolate envolve primeiro. Depois, a pimenta desperta. E, no fim, uma clara distância permanece entre o que atrai e o que já não pode ser tocado.
Não é uma sobremesa de rendição.
É uma de limites.
De amarga clareza.
De uma beleza que recua antes de se tornar monstruosa.
— O que é tudo isso?
A minha voz não soa como a minha. Soa oca, quebrada, como se viesse de outra pessoa presa na minha garganta.
Lorenzo não se move. Não tenta se aproximar. Ele permanece imóvel diante de mim, os ombros tensos, os olhos fixos nos documentos abertos sobre a mesa.
— É algo que você nunca deveria ter descoberto. Diz ele.
Só isso.
Nem uma explicação. Nem uma ne*gação.
Sinto o ar me faltar, como se alguém tivesse me empurrado para debaixo d'água.
— Então… Engulo em seco. — É tudo mentira.
Ergo os papéis com as mãos trêmulas.
— A fábrica. O dinheiro. Você.
A minha voz falha.
— Estou em outro país. Continuo, cada palavra mais rápida que a anterior. — Longe do meu pai. Longe de casa. Sozinha com um…
A palavra é difícil de encontrar, mas sai mesmo assim.
— …um mafioso.
Os meus olhos ardem. Lágrimas caem incontrolavelmente.
— Você é um assassino?
Lorenzo cerra os dentes. Os seus olhos escurecem e ele desvia o olhar. É a resposta que eu preciso.
Soltei um soluço, recuando lentamente.
— Você é um... Eu engasguei.
— Um o quê? Ele inclinou a cabeça. — Diga-me, Virginia...
— Um mon*stro...
Ele assentiu lentamente.
— Mas neste mundo. Ele murmurou. — Ninguém é completamente herói ou completamente vilão.
Dei um passo para trás.
Depois outro.
O chão pareceu girar, e o meu coração batia tão forte que doía.
— Não... Sussurrei. — Não, não, não...
Não conseguia respirar. As minhas mãos começaram a formigar. O meu peito fechou-se num punho.
— Virginia. Disse Lorenzo, dando um passo à frente. — Olhe para mim.
Bati numa estante. Os livros tremeram atrás de mim.
— Não chegue perto de mim! Gritei. — Não me toque!
O meu corpo começou a tremer incontrolavelmente. A imagem do carro destruído passa pela minha mente. O metal retorcido. O impacto. O medo.
— Não vou te tocar. Ele diz imediatamente, erguendo as mãos. — Prometo.
Sua voz muda. Não é mais áspera. É baixa. Cuidadosa.
— Mas você precisa respirar comigo.
— Não consigo. Digo, ofegante, levando a mão ao peito. — Vou morrer.
— Não. Ele responde firmemente. — Você não vai morrer. Você está tendo um ataque de pânico, querida...
Ele se ajoelha na minha frente, mantendo distância.
— Olhe para mim. Ele repete. — Respire comigo. Agora.
Obedeço porque não tenho forças para fazer mais nada.
— Isso. Devagar... Você está segura... Respire fundo e devagar, está bem?
Não me sinto segura.
Mas a voz dele me conforta.
Aos poucos, o ar volta. O tremor diminui. E quando tudo se acalma, o choro vem com força.
Cubro o rosto com as mãos e soluço.
— O que aconteceu naquele dia? Pergunto entre lágrimas. — Quando sofri o acidente...
Lorenzo abaixa o olhar.
— Uma máfia russa. Diz ele. — Eles bateram no carro em que você estava. Foi... foi vingança por algo do passado...
Levanto a cabeça bruscamente.
— Você me colocou em perigo! Grito. — Você está me colocando em perigo agora! A mim e à minha mãe!
— Eu sei. Ele responde. — E sinto muito mais do que posso explicar.
Ele se aproxima um pouco, com cuidado.
— Vou te proteger. O que aconteceu com você nunca mais vai acontecer. Eu prometo.
Balanço a cabeça negativamente. Ele me olha como se eu fosse um animal selvagem ferido.
— Eu não consigo fazer isso. Soluço. — Eu não posso fazer parte da sua vida, Lorenzo... Eu não consigo...
Algo se quebra.
Vejo isso em seu rosto. Na forma como seus ombros caem.
Ele me abraça antes que eu possa impedi-lo e, desta vez, não o afasto.
— Por favor. Ele sussurra contra o meu cabelo. — Me dê uma chance.
Ele aperta o abraço.
— Este mundo é horrível. Cr&uel e sangrento. Mas eu vou garantir que você nunca sofra...
Fecho os olhos.
— Eu quero voltar para o meu pai. Sussurro. — Para casa.
Seu corpo se enrijece.
—Não, por favor... Virginia, fique. Ele implora. — Eu lhe darei tudo o que você quiser. Tudo o que você precisar. Mas não vá...
Afasto-me dele delicadamente.
— Agora, preciso de espaço. Digo. — Preciso pensar... Quero ir para o meu quarto... e então... verei...
— Não é seguro para você ficar sozinha. Ele suspira. — Você pode ter outro ataque de pânico...
— Vou ficar bem. Asseguro-lhe. — Só... preciso respirar.
Depois de um instante... ele acena com a cabeça, derrotado.
Quando estou saindo da biblioteca, a sua voz me detém.
— Virginia.
Viro-me.
Os seus olhos escuros me perfuram.
— Sou muito mais do que um monstro. Diz ele. — Ainda sou o homem que explorou, beijou e acariciou cada parte do seu corpo...
Não respondo.
Apenas me afasto.
O meu coração está despedaçado.