A madrugada passou arrastada. A chuva batendo no telhado, o vento entrando por alguma fresta da janela, e aquele silêncio estranho — o tipo de silêncio que vem quando o corpo tá cansado, mas a cabeça não desliga. Tentei dormir, mas não deu. Deitei no sofá, deixei o cigarro - fazia dias que eu não acendia, do lado, e fiquei só ouvindo o som dela respirando na cama. Serena dormia encolhida no meio dos meus cobertores, o cabelo espalhado no travesseiro e a pele pálida contra o tecido escuro. Pequena. Frágil demais pra esse mundo. Por mais que eu tentasse fingir costume, alguma coisa em mim travava. Eu já vi gente morrer, já arrastei corpo, já lidei com sangue, mas aquilo ali… Aquilo era diferente. Era um tipo de cuidado que eu não sabia como ter. Levantei algumas vezes durante a noite

