Eu ainda não estava acostumada a acordar com silêncio. Silêncio de verdade — aquele que não ameaça, não pesa, não pressiona. Aquele que não antecede passos no corredor, portas batendo, vozes roucas chamando meu nome como se eu fosse um objeto esquecido numa prateleira. O silêncio na casa do Guto era diferente. Parecia… seguro. Acordei devagar naquela manhã, sentindo o cheiro dele no travesseiro — um cheiro de sabonete simples, roupa limpa e alguma coisa quente que eu ainda não sabia definir. A janela estava meio aberta, deixando o vento gelado da manhã passar, levantando a cortina devagar como se o dia tivesse medo de me assustar. Eu respirei fundo. Era estranho não ter medo. O quarto dele — o quarto que ele insistia pra eu usar — já tinha se tornado um pedaço do meu mundo. Ele nun

