Eu nunca fui uma mulher de sorte. Aprendi cedo que quem nasce nas vielas do centro velho do Rio precisa roubar do mundo o que ele nunca vai te dar. Meu pai morreu num boteco antes dos quarenta. Minha mãe me deixou aos doze. Desde então, aprendi a sobreviver com o que eu tinha — e o que eu tinha, naquela época, era só um rosto bonito e uma língua afiada. O primeiro homem que me prometeu o céu me deu um inferno. O segundo me deu um teto e depois me trancou nele. O terceiro me ensinou a nunca mais depender de ninguém. Foi assim que eu comecei. Primeiro, nas ruas. Depois, nos bares de dança. Até que percebi: se o corpo é mercadoria, o poder é o dono do mercado. E eu decidi ser a dona. Meu bordel começou pequeno, em um sobrado abandonado perto da Lapa. Tinha três meninas, dois quartos

