Me chamam de Chacal.
Meu nome é Heitor, mas ninguém usa. Aqui no morro, nome de batismo não vale nada. O que vale é respeito, medo e atitude. Tenho 25 anos, meus pais moram longe, em outro estado, largaram o Rio depois que meu velho se aposentou do tráfico.
Eu? Não larguei nada, nunca. Aprendi cedo que no morro não se escolhe. Você sobrevive ou some.
Chacal não é só um nome. É aviso. Como o animal, eu observo, planejo e ataco no momento certo. Sou frio, astuto e rápido. Quem pisa fora da linha comigo aprende rápido que erro comigo custa caro. Aliado, inimigo… ninguém me ignora.
Sou alto, 1,93m, corpo forte, cheio de tatuagem do braço ao pescoço. Moreno claro, cabelo preto sempre pra trás. Cada tatuagem é um aviso, cada olhar meu é um recado: não tente me enganar.
Eu não corro, não hesito.
Quem tenta escapar da minha justiça aprende rápido que aqui meu território é absoluto. Eu marco presença, eu domino. Tudo responde a mim, direta ou indiretamente.
Não tenho mulher. Não porque é fraqueza ou vergonha, mas porque a pessoa certa nunca apareceu. Eu vi de perto que no morro, podia sim ter família, ter amor. Meus pais são a prova disso.
Na rua, na boca, meu pai era o Imperador. Mas dentro de casa, era apenas o Henrique. Um pai carinhoso, mas que me ensinou que a vida é mais que a Disney. E um marido perfeito para minha mãe - ela nunca reclamou de ser "mulher de bandido".
Mas eu nunca achei a mulher que fosse fechar comigo, lado a lado. No morro, só tem interesseira, marmita. Mina fácil e eu tô suave disso.
Minha rotina é quase a mesma todo dia. Acordo cedo, antes do sol. Não porque gosto, mas porque não dá para dormir tranquilo. No morro, todo mundo tem que ficar de olho. Cada sombra, cada passo errado, pode custar caro. Eu levanto, estico meu corpo e sinto ele reclamar, cabeça latejando. Não importa. Não existe descanso completo aqui.
Tomo meu banho, sempre na água gelada - porque mais quente que o Complexo do Alemão, somente o inferno. Coloco minha bermuda, regata, os meus cordões, pego minha "preta" e a chave da moto.
Vou pra cozinha, acendo o fogo, faço um café rápido. Pão, queijo, o que tiver. Enquanto como, olho pela janela, atento a cada barulho lá fora. Rua molhada, cheiro de chuva misturado com fumaça e terra. Cada som me mantém alerta.
Até o silêncio pode esconder problema.
A minha casa fica no ponto mais alto do morro, estrategicamente posicionada, como se dominasse tudo ao redor. Não é só um abrigo — é uma casa grande, bonita, de alto padrão, com varanda ampla, janelas enormes de vidro e uma arquitetura moderna que contrasta com o resto da favela. Sempre quis proporcionar conforto, não só pra mim, mas pra quem é importante, e aqui consegui.
O interior é espaçoso, com sala bem iluminada e decorada com bom gosto, misturando madeira, vidro e aço. A cozinha é moderna, bancada de mármore, eletrodomésticos novos, panelas alinhadas, café sempre à mão. A sala de estar tem sofás amplos, poltronas confortáveis, tapetes que aquecem o ambiente. Quadros e fotos nas paredes lembram momentos importantes e reforçam a sensação de lar, mas sem perder a imponência que o morro exige.
No andar de cima, os quartos são amplos, cada um com a sua própria personalidade. A suíte principal, meu quarto, tem varanda com vista para o morro e a cidade lá embaixo. Dá pra ver cada rua, cada becos, cada luzinha que marca o território. Tudo pensado pra unir conforto e vigilância, sem perder o controle.
Subir até lá de moto é quase um ritual. A rua inclinada, cheia de curvas e pedras, exige atenção, mas lá em cima a recompensa é clara: o morro aos meus pés, a cidade ao longe, e dentro da casa, segurança e conforto. Ninguém invade sem aviso, ninguém chega sem respeitar. É o meu mundo, equilibrando poder e cuidado, força e aconchego.
À noite, as luzes da casa se acendem e brilham na encosta, lembrando a todos que ali mora quem comanda e protege, mas também quem valoriza conforto e família.