Naya
A mansão Torrance parece crescer diante de mim cada vez que dou um passo em direção aos portões de ferro. Alta, imponente, com vidros enormes e paredes claras perfeitamente alinhadas. Ela é linda… e completamente intimidante.
Aperto as chaves na mão até doer. Ainda não me acostumei com a ideia de que elas são minhas.
O carro do advogado já foi embora. Fiquei alguns minutos parada na calçada com minha mãe ao lado, olhando para cima, tentando criar coragem pra entrar. Agora, o segurança do portão me observa com discrição, como se já tivesse visto esse tipo de cena antes.
— Boa tarde, senhora Torrance — ele diz, após conferir o documento.
Esse nome ainda soa errado. Estranho. Como se fosse de outra pessoa.
— Boa tarde — respondo, engolindo em seco.
Os portões se abrem devagar, com um barulho suave de metal. Caminho empurrando a cadeira da minha mãe pela entrada de pedras, cercada por jardins perfeitamente cuidados, flores que eu nem sei o nome e árvores podadas em formas quase simétricas. É tudo organizado demais. Não há um único matinho fora do lugar.
A casa… não, a mansão… se ergue como algo saído de outra realidade. Janelas amplas, portas altas, colunas discretas, nenhuma rachadura, nenhum sinal de improviso. Ela parece dizer:
— “Aqui não é lugar para erros.”
Quando chego à porta principal, outra pessoa já me espera. Um homem mais velho, de terno escuro impecável, óculos de armação fina, postura reta.
— Senhorita Naya Reese? — pergunta, embora já saiba a resposta.
— Sim.
— Seja bem-vinda. Sou Raul, administrador da casa. — Ele abre a porta com um gesto elegante. — O senhor Torrance está à sua espera. Pode deixar que cuido de sua mãe, vou levá-la para o quarto dela.
Meu coração falha um pouco. "O senhor Torrance". Não sei se isso significa meu marido ou o pai dele. Não sei qual dos dois está do outro lado.
Entro.
O interior é ainda mais impressionante do que o lado de fora. O piso de mármore claro reflete a luz que entra pelas janelas gigantes. A escadaria curva sobe em direção ao andar de cima, com um corrimão de madeira escura brilhando como se fosse novo. Quadros grandes nas paredes, vasos altos com arranjos discretos, nada fora do lugar.
Imensa. Fria. Luxuosa demais para alguém como eu.
Por um segundo, sinto vontade de virar as costas e ir embora. Mas lembro da respiração cansada da minha mãe, do olhar desesperado do meu irmão, da voz do advogado dizendo “tudo para os cuidados dela está garantido”.
Eu não estou aqui por mim. De repente, Raul volta sem a minha mãe e diz:
— Por aqui, senhora — Raul indica.
Atravessamos um corredor longo, até chegarmos a uma sala de estar enorme. Ali, o luxo parece um pouco mais aconchegante, sofás grandes, tapete macio, cortinas pesadas, uma lareira apagada, mas decorada com perfeição. No centro, uma mesa baixa com uma bandeja de cristal e duas taças.
E ele.
Enrico Torrance, vi sua assinatura em um documento que assinei.
Ele está de pé perto da janela, as mãos nos bolsos, observando os jardins lá fora como se o mundo fosse um projeto que ele pudesse reorganizar quando quisesse. Quando escuta nossos passos, ele se vira devagar.
O primeiro olhar entre nós é longo.
Não é o que eu esperava de um homem de quarenta e nove anos. Nem de longe. Ele parece mais jovem, mas não daquele jeito artificial de quem tenta esconder a idade. É mais… sólido.
Ombros largos, postura ereta, barba bem aparada com alguns fios grisalhos, cabelo escuro com o mesmo princípio de prata nas laterais. Os olhos, porém, são o que mais me prendem, escuros, profundos, tão intensos que parecem ver além do que está na minha superfície.
Sinto meu estômago se contrair.
Ele me observa em silêncio por alguns segundos que parecem minutos. Não é um olhar invasivo, mas também não é suave. É medido, calculado, quase analítico.
— Seja bem-vinda à sua nova casa, senhora Torrance — ele diz, finalmente.
A voz é baixa, grave, controlada. Ele fala como quem está habituado a ser ouvido.
— Obrigada, senhor… — minha voz falha de leve. — Torrance.
— Enrico é suficiente. — Um canto da boca dele se levanta quase imperceptivelmente. — Em documentos, continuaremos formais. Aqui dentro… podemos simplificar.
Não sei o que responder. Ainda estou tentando entender como devo me portar. Sou a esposa do filho dele. Mas meu marido não está aqui. E, por enquanto, é o pai dele que parece comandar tudo.
— Espero que a viagem até aqui não tenha sido cansativa — ele comenta, indo até a bandeja. — Aceita água?
— Aceito, obrigada.
Ele serve um copo para mim e outro para si, com movimentos tranquilos. Quando me entrega o copo, nossos dedos quase se tocam. Quase. Sinto um arrepio atravessar meu corpo, rápido demais para fazer sentido.
— A casa é… — procuro uma palavra que não me faça parecer uma completa estranha nesse mundo. — Muito bonita.
— Foi projetada pra ser funcional antes de ser bonita — ele responde. — Mas os decoradores insistem em tentar equilibrar as duas coisas.
Quase sorrio.
Raul se retira, nos deixando sozinhos. Por um instante, sinto o peso desse fato.
— Vou ser direta, senhor… Enrico — digo, apertando o copo entre os dedos. — Onde está o meu… marido?
Ele me encara, sem pressa.
— Ele prefere discrição.
A resposta não satisfaz nada.
— Discrição? — repito. — Ele não pôde vir me receber? Nem por alguns minutos?
— O momento não é ideal para ele — Enrico responde, mantendo o tom neutro. — Mas todas as responsabilidades foram cumpridas. O casamento está registrado. Você está legalmente protegida.
Legalmente protegida. As palavras são corretas. Frias.
— Eu não casei com um documento, senhor Enrico — digo, sem conseguir evitar que um pouco de frustração escape. — Casei com uma pessoa.
Ele inclina a cabeça, como se analisasse minha reação.
— E ainda assim, aceitou sem pedir para conhecê-lo.
Sinto o rosto queimar. Ele tem razão, mas ouvir assim, na cara, dói.
— Eu não tinha muito… espaço pra escolhas — respondo, olhando para o chão.
Por um momento acho que falei demais.
— Não está sendo julgada — ele diz, então. — Apenas constatando fatos.
Levanto os olhos. Ele continua sério, mas há algo diferente no olhar. Não chega a ser suavidade, mas talvez um reconhecimento.
— De qualquer forma — ele continua — existem regras que precisam ser seguidas nessa casa. Especialmente à noite.
Meu corpo inteiro fica alerta.
— Regras?
Ele se afasta um pouco, caminhando em direção à porta que leva ao corredor. Para num ponto onde consegue me ver e, ao mesmo tempo, manter uma distância segura.
— Seu marido preza muito a privacidade — diz. — A partir de hoje, durante a noite, você deverá usar uma venda nos olhos, sempre que ele estiver no quarto.
As palavras me atingem como um soco.
— Uma venda?
— Sim.
— Ele… não quer que eu o veja? — pergunto, sentindo um arrepio subir pela nuca.
— Ele não gosta de ser observado — Enrico responde, firme. — É uma preferência dele.
Uma preferência. Como se fosse normal. Como se fosse algo que qualquer esposa ouviria no primeiro dia de casamento.
Passo a mão no cabelo, tentando organizar os pensamentos.
— Isso não me parece… comum.
— Nada nesta situação é comum, senhora Torrance — ele rebate, com calma. — Mas você sabia disso desde o momento em que assinou aquele contrato, não sabia?
Meu silêncio responde por mim. Eu sabia que não estava entrando em um casamento romântico. Sabia que era um acordo. Um negócio. Mesmo assim, ouvir a regra dita em voz alta, daquela forma, torna tudo mais real. Mais estranho.
— Posso fazer uma pergunta? — arrisco.
— Claro.
— E durante o dia?
— Durante o dia, o quarto será apenas seu. — Ele me olha nos olhos. — A casa é grande. Há espaço suficiente para que as vidas de vocês se cruzem apenas quando ele achar conveniente.
Uma parte de mim quer rir disso. Outra quer chorar.
— Entendi — digo, engolindo em seco.
Ele caminha até a porta novamente.
— Raul vai mostrar seus aposentos, explicar o funcionamento da casa e apresentar a equipe que cuidará da sua mãe. Os equipamentos já foram encomendados.
Meu coração aperta ao ouvir isso.
— Ela… vai ficar bem aqui?
— Vai ter o melhor que o dinheiro pode pagar — ele garante, sem hesitar. — Enfermeiros, fisioterapeutas, cama adequada, tudo o que for necessário.
Fecho os olhos por um segundo. Quando os abro, sinto que, apesar de tudo, uma parte do peso que carrego nos ombros ficou mais leve.
— Obrigada — digo, com sinceridade.
Ele apenas assente, como se agradecimentos não fizessem parte da rotina dele.
— Se precisar de qualquer coisa, procure Raul ou Juliana, minha assistente.
— E o senhor?
Ele parece não esperar essa pergunta.
— Eu?
— Se eu precisar falar com o… senhor da casa — digo, corrigindo, meio sem graça.
Ele faz uma pausa antes de responder.
— Eu sempre estarei por perto.
Não sei por que, mas essa frase faz um arrepio correr pela minha pele.
O quarto que Raul me mostra parece maior que a minha antiga casa inteira. Cama enorme, lençóis claros, cortinas pesadas, um closet que eu não sei se algum dia vou conseguir encher, banheiro que mais parece um spa.
Sobre a cama, dobrada com perfeição, está a venda.
Preta. Simples. Mas, naquele contexto, ela parece um objeto pesado. Como se não fosse apenas tecido, mas uma linha que divide quem eu era do que estou prestes a me tornar.
— Se precisar de algo, basta usar o interfone ao lado da cama, senhora — Raul explica, apontando para o aparelho. — Sua mãe chegará amanhã cedo. Já deixamos o quarto dela preparado no térreo, com acesso facilitado. Desculpe não avisar antes, mas o senhor Torrance pediu para levá-la ao hospital para um check-up antes de começar o tratamento aqui na mansão.
Assinto, distraída.
— Obrigada, Raul.
— Seja bem-vinda. — Ele faz uma leve reverência com a cabeça e sai.
Quando a porta se fecha, o silêncio toma o quarto.
Olho em volta. Tudo é bonito demais, caro demais, distante demais da minha realidade. Caminho até a janela e abro um pouco a cortina. Lá fora, o jardim da frente se estende em linhas perfeitas. Não há barulho de vizinhos, de carros, de crianças brincando. Só o vento e o som distante da cidade, muito além dos muros.
Volto o olhar para a cama. A venda continua lá, à minha espera. Me aproximo devagar, como se fosse um animal desconhecido. Pego o tecido entre os dedos. É macio. Cheira a coisa nova, nunca usada.
— Ele não quer que eu veja — falo baixinho, sozinha.
É uma constatação estranha. Eu sou oficialmente esposa de um homem que não faz questão de me olhar nos olhos. E que exige que eu não veja o rosto dele.
Uma parte de mim se pergunta que tipo de marido faz isso. Outra parte responde sozinha: o tipo de marido que não escolhi. O tipo de marido que veio no pacote da salvação da minha mãe.
Suspiro, sentando na beira da cama. Ao olhar para fora vejo que a noite já caiu, meu irmão deve estar na casa do nosso primo que aceitou que ele morasse lá.
Por um momento, sinto uma vontade absurda de chorar. Não por arrependimento, mas pelo peso de tudo. Deixei minha casa, minha vida, minha liberdade, para entrar num lugar onde tudo é perfeito por fora e cheio de segredos por dentro.
Coloco a venda ao meu lado, no colchão. É só o começo, penso. Do lado de fora, o corredor está quieto. Então, de repente, o silêncio se quebra.
Passos.
Passos masculinos, firmes, ecoando pelo corredor, aproximando-se. O som do sapato batendo no chão é ritmado, decidido.
Meu coração dispara. Seguro a venda com força. Não sei se é ele. Não sei se estou preparada. Mas sei que, a partir de agora, nada nessa casa será simples.