Naya
O som do relógio parece mais alto do que o normal. Cada segundo me irrita, como se o tempo estivesse debochando de mim. No escritório, o cheiro de café forte e papel molhado de tinta preenche o ar. Tento concentrar meus olhos na tela, mas as letras se embaralham. O contador de planilhas pisca, e tudo o que consigo pensar é em duas palavras:
— “Dois dias.”
Faltam dois dias para perder tudo.
O barulho dos teclados ao redor, dos telefones tocando, das vozes discutindo prazos, tudo soa distante. Coloco a mão no rosto e respiro fundo, tentando parecer normal. Mas sei que não estou.
— Ei… — uma voz familiar me chama, suave. — Desde que você chegou, está com cara de quem viu um fantasma.
Levanto os olhos. Mason está encostada na divisória da minha mesa, com um copo de café nas mãos e aquele olhar curioso que sempre me desmonta. Ela é o tipo de pessoa que nota tudo, até o que eu finjo esconder.
— Estou só cansada — minto, tentando dar um sorriso.
Ela arqueia uma sobrancelha, cética.
— Cansada eu entendo. Mas você parece… partida.
Fecho os olhos por um segundo. Não adianta mentir pra Mason.
— Aaron perdeu a casa. — As palavras saem baixas, quase um sussurro. — Ele apostou de novo. Agora... a gente tem dois dias pra sair.
Ela congela, o copo de café quase cai da mão.
— O quê? Naya... como ele pôde?
— Eu não sei, Mason. — Apoio os cotovelos na mesa e aperto as têmporas. — Mamãe está lá… e não temos pra onde ir.
Por um instante, o escritório ao redor some. Só existe o som da respiração pesada que preenche o espaço entre nós. Mason se abaixa, apoiando os cotovelos na borda da mesa.
— Olha… talvez eu tenha ouvido algo, — ela começa, meio hesitante — mas você promete não me chamar de louca.
Ergo uma sobrancelha, exausta.
— Depois do que acabei de te contar, acho que nada mais me choca.
Ela se aproxima um pouco mais, abaixando a voz como se contasse um segredo perigoso.
— A assistente executiva do Ceo… comentou que o senhor Torrance está procurando uma mulher pra casar com o filho dele.
Eu rio, sem humor.
— Mason, por favor.
— Eu estou falando sério! — Ela gesticula, empolgada, mas o olhar ainda cauteloso. — Dizem que ele quer uma mulher tranquila, trabalhadora, com ficha limpa, pra ajudar a “endireitar” o filho. Em troca, oferece casa, segurança… e uma pensão de valor absurdo.
Cruzo os braços, repousando as costas na cadeira.
— Isso parece um enredo m*l escrito de novela.
— Talvez, mas é verdade — insiste. — O cara é bilionário, e o filho, um desastre. Ele quer resolver do jeito dele.
— Eu não acredito que você está sugerindo isso — digo, incrédula. — Casar com um estranho por contrato? Isso é loucura.
— Loucura é você e sua mãe indo pra rua — rebate ela, sem pause. — Pense, Naya. Você se encaixa no que ele quer. É discreta, honesta, ninguém na empresa fala m*l de você. E o que pior pode acontecer?
Olho pra tela do computador. As células da planilha continuam piscando. Meus dedos tocam o teclado, mas não digitam nada. A mente corre, calculando, avaliando, tentando achar um furo lógico.
— Eu não sei nem quem é o filho dele — sussurro. — Nem sei se essa história é real.
— A assistente jura que é. — Mason dá de ombros. — O contrato é sigiloso. Tipo… casamento arranjado, entende?
Penso na palavra “contrato”. Ela ecoa na minha cabeça como uma sentença.
Um contrato significaria segurança. Estabilidade. Um teto pra minha mãe. Talvez até tratamento melhor pra ela. E, honestamente, o que mais tenho a perder?
— Isso é errado — digo, baixo.
— Talvez. Mas certo não é deixar sua mãe ser despejada — responde Mason, direta.
O ar fica pesado. Ouço o barulho distante da impressora, o chiado do ar-condicionado. Tudo parece pequeno diante da decisão que desenha um caminho dentro de mim.
Olho para Mason. Ela me observa, esperando.
— Não importa o que tenha no contrato — digo, enfim, com uma calma que me assusta. — Eu aceito.
Mason pisca, surpresa.
— O quê?
— Você ouviu. Eu aceito. — Cruzo os braços, firme. — Só preciso saber como chegar até essa assistente.
— Naya, você está mesmo levando isso a sério? — Ela dá um meio riso nervoso. — Você nem sabe nada sobre o cara. E se ele for um i****a? Violento? Doente?
— Eu não tenho o luxo de escolher amor — respondo, encostando o queixo na mão. — O amor não paga contas… e nem compra medicamentos.
Ela me olha por alguns segundos, depois solta o ar devagar, resignada.
— Está bem. — Bebe um gole de café e faz uma careta. — Isso é completamente insano, mas… vou te ajudar.
— Obrigada — digo, sincera. — Você sempre me ajuda nas piores horas.
— Pois é. Um dia ainda vou te cobrar caro por isso.
Rimos, mas a risada morre rápido. No fundo, nós duas sabemos que não há nada de engraçado nesta escolha.
Mais tarde, no intervalo do almoço, Mason e eu ficamos sozinhas no refeitório. Ela digita freneticamente no celular, trocando mensagens com alguém.
— Está confirmado — anuncia, levantando os olhos. — O nome da assistente é Juliana Carver. Ela é a ponte direta entre o Ceo e todos os setores. É quem está filtrando os nomes das candidatas.
Candidatas. A palavra me soa estranha, quase ofensiva.
— E como... como isso funciona? — pergunto, tentado entender o absurdo.
— A assistente faz uma pequena entrevista, confirma alguns dados e encaminha o nome pro diretor jurídico. Eles analisam seu histórico, se você preenche os requisitos… e pronto. — Mason fecha o celular. — O resto é contrato.
Olho pro prato de comida à minha frente. O arroz está frio, e o feijão formou uma película por cima. Minhas mãos tremem sem que eu perceba.
— Você acha que eles me aceitariam? — pergunto, num fio de voz.
Mason sorri de lado.
— Se eu fosse o velho Torrance, já teria te escolhido.
— Não fala assim. — Tento sorrir, mas falho. — É estranho.
— É verdade. — Ela toca meu braço, firme. — Você é a pessoa mais correta e resiliente que conheço. Se o objetivo é casar o filho com alguém confiável, não há candidata melhor.
Fico quieta, olhando pro reflexo no vidro da janela. Lá fora, o prédio principal da empresa brilha sob o sol do meio-dia. É imponente, cheio de paredes espelhadas e seguranças na porta.
Nunca entrei lá. Trabalho no setor de abastecimento, em outro prédio, mais simples, com janelas pequenas e papelada até o teto. O prédio principal sempre me pareceu um mundo distante, reservado para quem realmente importa.
Mas, agora, talvez eu tenha que atravessar aquelas portas.
— Tem certeza? — Mason pergunta de repente. — Posso desfazer tudo ainda.
— Não — digo, respirando fundo. — Faz. Entrega meu nome.
Ela me encara por alguns segundos, procurando nos meus olhos algum sinal de dúvida. Não encontra.
— Tudo bem, então. — Digita algo rápido no celular e aperta “enviar”. — Pronto. Já foi.
Por um instante, ficamos caladas. Algo invisível muda, como se eu tivesse cruzado uma linha da qual não dá pra voltar.
Mason olha pra mim e força um sorriso.
— Bem-vinda ao mundo dos Torrance, Naya.
Eu rio, mas meu coração bate rápido demais.
O resto da tarde passa devagar. Cada tarefa, cada relatório, cada e-mail parece uma distração inútil. As palavras desaparecem da tela enquanto minha cabeça cria mundos de possibilidades. Penso em minha mãe, em seus olhos cansados, em suas mãos imóveis. Penso que, talvez, ela finalmente possa viver com dignidade.
Às seis da tarde, desligo o computador. O sol já começa a se pôr, e a luz dourada invade o escritório.
— Vai dar certo — diz Mason, enquanto guardo minhas coisas. — Eu sinto.
— Espero que sim — respondo.
No corredor, antes de sair, olho outra vez pela janela. Lá está ele, o prédio principal da Torrance Corporation. Cada vidro reflete a cidade como se nada pudesse tocá-lo. Um castelo moderno. Inacessível.
Mas sei que, de alguma forma, é ali que meu destino me espera.
Fico parada por um segundo, respirando fundo, tentando entender o peso da decisão que acabei de tomar.
— Você não tem ideia do que está prestes a fazer — ouço Mason sussurrar atrás de mim.
Ela tem razão. Olho uma última vez pro prédio e sussurro, quase sem som:
— Ou destruição… ou salvação. Seja o que for, começa ali.
E então sigo em frente, sem olhar pra trás.