Ele ficará aqui

1239 Words
‌O céu ainda carregava nuvens pesadas da tempestade da noite anterior, mas a manhã surgia com uma estranha clareza. O cheiro de sal ainda impregnava o ar, e o silêncio da casa contrastava com o turbilhão que se agitava dentro de mim. Levantei cedo, mesmo sem ter dormido bem. A mansão me perturbava de um jeito que eu ainda não sabia explicar. Vesti uma calça leve de linho e uma blusa branca. O piso frio sob meus pés me despertava a cada passo. Desci as escadas sem fazer barulho, apenas com a intenção de encontrar algum canto tranquilo, longe da inquietação que crescia dentro do meu peito. Dario ainda dormia, provavelmente exausto da viagem ou porque ele era mesmo um dormia muito mesmo. Eu precisava de ar, mas a casa me puxava para dentro como se houvesse algo esperando por mim. Entrei na sala principal sem pensar, atraída pela luz suave que atravessava os vitrais. E foi então que o tempo parou. Ele estava lá. Em pé, de costas, observando a lareira apagada como se contemplasse lembranças que eu jamais conheceria. O mesmo homem da festa. O mesmo olhar que me desmontou. A mesma presença que me deixou sem chão. Mas agora, ele não era só o estranho bonito de uma noite universitária. Ele era... o pai de Dario? Meu corpo travou. O coração pareceu subir para a garganta. Por um segundo, tive certeza de que ele me olharia e sorriria. Que diria algo sobre o pingente. Que se lembraria. Mas quando ele se virou, o olhar que me atingiu foi outro. Gélido. Indiferente. Cirúrgico. — O Você não deve ficar assustada comigo. — disse, com a voz firme e contida. Nada mais. Nenhum lampejo de memória. Nenhuma hesitação. Nenhum traço do homem que, há poucos dias, segurou minha mão como se fosse me proteger do mundo. — Sim — respondi, sentindo meu rosto arder. — Helena. Ele assentiu, como quem confirma um dado irrelevante. — Sou Thiago Nogueira, o pai de Dário, assustada? Sabia disso. Sabia desde que ouvi o nome na noite anterior, quando Dario contou que o pai viria pela manhã. Mas ouvir da boca dele, depois de tudo, me quebrou de um jeito silencioso. Quase imperceptível. — Dario ainda está dormindo — comentei, só para dizer alguma coisa. — Imagino — respondeu seco. E então voltou a olhar para a lareira. Fiquei ali, em pé, sem saber o que fazer com as mãos, com os olhos, com a dor súbita que nasceu no peito. Não tinha sido só um delírio meu. A conexão na festa existiu. O toque, o pingente, as palavras... tudo foi real. Então por que ele estava me tratando como uma estranha qualquer? O silêncio entre nós era sufocante. E ainda assim, ele não demonstrava nada. Nenhum incômodo. Nenhuma emoção. Eu, por outro lado, queria gritar. — A gente se conhece, não é? — perguntei, sem conseguir me conter. Ele finalmente me encarou de verdade. Os olhos castanhos, agora frios, pousaram sobre mim como uma sentença. — Se conhecêssemos, eu me lembraria. As palavras doeram mais do que deveriam. Me senti exposta. Boba. Usada. E pior: invisível. — Você me deu isso — rebati, tirando o pingente do bolso e estendendo a mão. Ele olhou o objeto por um segundo. Depois, deu de ombros. — Não é meu. Deve estar enganada. O mundo poderia ter desabado naquele instante, que eu não notaria. Era como se ele tivesse apagado aquela noite da memória. Como se tudo tivesse sido uma invenção da minha cabeça. Mas eu sabia. Aquela corrente era dele. Eu vi. Eu senti. Eu estava lá. Ele, no entanto, se afastou com calma. Foi até a estante, pegou um livro qualquer e se sentou no sofá como se eu não estivesse mais ali. Foi Dario quem salvou o momento do colapso completo. — Bom dia! — disse com aquele sorriso doce de sempre, descendo as escadas com o cabelo bagunçado e os olhos sonolentos. — Já se conhecem? — Formalmente, agora sim — respondi com um sorriso frágil. Thiago apenas assentiu, sem levantar os olhos do livro. Uma peça teatral m*l ensaiada. — Pai, essa é Helena, minha melhor amiga desde os tempos de colégio. Helena, esse é meu velho, o homem mais rabugento do litoral — brincou, tentando quebrar o gelo. Mas o gelo já havia se espalhado por todo o meu corpo. — Encantada — murmurei. — Igualmente — disse Thiago, com um aceno breve e impessoal. Passamos o resto da manhã juntos, mas a presença dele era como uma muralha entre mim e qualquer conforto. Dario falava, ria, fazia planos para os próximos dias. Eu respondia no automático, enquanto observava Thiago se mover com precisão e frieza. Um homem calculado, metódico, impossível de decifrar. À tarde, ele saiu para uma reunião na cidade. Dario e eu aproveitamos para caminhar pela praia. A areia fria sob os pés me ajudava a respirar melhor. — Você está estranha desde que meu pai apareceu — disse ele, de repente. — Eu... é que não esperava por ele assim, tão cedo. Fiquei surpresa. Ele me olhou, desconfiado, mas não insistiu. — Meu pai é complicado. Inteligente, dedicado... mas fechado. Às vezes até frio. Concordei em silêncio. — Mas ele vai te aceitar. Vai ver como você é especial. Só precisa de tempo. O problema era que ele já me conhecia. E decidiu apagar. Naquela noite, fiquei em meu quarto por horas, tentando entender o que havia acontecido. A dor não vinha só da rejeição. Era pior: era como se eu tivesse sido arrancada de uma história que tinha começado sem meu consentimento e agora me empurrava para o esquecimento. Resolvi descer para tomar água. A casa estava silenciosa. Luzes baixas. No caminho, passei pela sala e o vi de novo. Thiago. Sentado na poltrona perto da janela, com uma taça de vinho na mão. O rosto parcialmente sombreado. O olhar... perdido. — Não consegue dormir? — arrisquei. Ele não respondeu. Só virou o rosto levemente, como se estivesse cansado demais para reagir. — Sei que me reconheceu — continuei, com a voz baixa. — E se quer fingir que não, tudo bem. Mas não minta sobre o que aconteceu. Porque eu estava lá. Eu senti. Ele ficou em silêncio por longos segundos. Depois, se levantou, caminhou até mim devagar. Seus olhos mergulharam nos meus, e por um breve momento, vi algo ali. Um lampejo. Um sinal. Mas se foi tão rápido quanto veio. — Algumas coisas são melhores esquecidas, Helena. — E quem decide isso? Você? — Eu decido por mim. E é o suficiente. Dei um passo para trás. As palavras dele me cortavam como navalha. — Por que você fez aquilo comigo, naquela noite? Ele não respondeu. Apenas me encarou com uma expressão dura, quase dolorosa. — Foi só um momento — murmurou. — E momentos passam. — Nem todos. Ele me observou mais um pouco. Depois, sem dizer mais nada, passou por mim. E naquele instante, tudo congelou. Porque ele não hesitou. Não tocou em mim. Não me olhou para trás. Ele passou por mim como se nunca tivesse me tocado... e meu coração se partiu em silêncio.‌​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌‌‍
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