Convite Inesperado

2167 Words
Até que o celular vibrou ao meu lado. Era Dario. Dario, meu melhor amigo desde os tempos do colégio, o tipo de cara que está sempre ali, mesmo quando tudo desmorona. A gente se conhecia há anos e, apesar de nunca termos cruzado nenhuma linha, sabíamos que o que tínhamos era raro. “Helena, tá ocupada?” Respondi rápido: “Só me afogando nos próprios pensamentos. Por quê?” Ele me mandou um áudio. — Eu tô indo pra casa de praia esse fim de semana. Fica em Búzios. Meu pai quer descansar um pouco e me chamou. E eu… pensei em te chamar também. Sei que tá estressada com os trabalhos da faculdade, e bom… talvez o mar te ajude a esquecer o que quer que esteja te perturbando. Fiquei olhando o celular por alguns segundos. Dario nunca convidava ninguém pra passar dias com ele e o pai. Sabia que a relação entre os dois era… complicada. Mas a ideia de me afastar de tudo — inclusive da cidade onde aquele homem misterioso surgiu e desapareceu — soava tentadora. Muito tentadora. “Eu topo,” digitei. Sem pensar duas vezes. “Ótimo. Passo aí amanhã de manhã.” E assim, sem planejar nada, eu aceitei me jogar no desconhecido mais uma vez. O sábado amanheceu abafado, com um céu meio nublado que ameaçava sol. Dario chegou com o carro cheirando a novo, o sorriso tranquilo de sempre, óculos escuros cobrindo metade do rosto e uma mochila jogada no banco de trás. — Pronta? — perguntou, enquanto colocava minha mala no porta-malas. Assenti, entrando no carro e tentando afastar a ansiedade que começava a subir no peito. — E seu pai? Vai encontrar a gente lá? — perguntei, sem muito cuidado. Dario deu de ombros, colocando a marcha com calma. — Ele teve umas reuniões, como sempre. Mas deve chegar à noite. Disse que não queria perder mais um fim de semana longe do mar. Ele anda meio… tenso. Fiquei em silêncio. Não era a primeira vez que Dario falava sobre o pai em tom evasivo. Sempre parecia haver alguma sombra entre os dois, algo que ele nunca quis me contar. E eu respeitava. Talvez mais do que devia. A viagem durou cerca de três horas. No caminho, conversamos sobre coisas banais: faculdade, professores chatos, o cachorro da vizinha que latia madrugada inteira. Mas em nenhum momento falei do homem da festa. Era como se algo me dissesse para guardar aquilo só pra mim. E ainda assim, o pingente seguia no meu pescoço. Escondido sob a blusa. A estrada serpenteava entre morros e vegetação baixa, até que uma entrada discreta à direita nos levou por uma trilha de pedras até uma imensa propriedade à beira-mar. A casa era maior do que eu imaginava. Branca, com detalhes em madeira escura, cercada por palmeiras e coqueiros, e com uma varanda que parecia ter sido tirada de um filme americano. — Caramba, Dario. Isso aqui é... — parei, sem saber exatamente como terminar. — Uma prisão de luxo? — ele completou, rindo sem humor. O portão se abriu automaticamente, e estacionamos em frente à casa. Um senhor de idade veio ao nosso encontro e pegou nossas bagagens. O nome dele era Pedro e, segundo Dario, estava com a família há anos. Fomos direto para nossos quartos. O meu ficava no segundo andar, com uma vista absurda do mar e uma cama tão grande que eu poderia dormir em qualquer canto sem me perder. Assim que fiquei sozinha, joguei a mochila no chão e caminhei até a janela. A brisa marinha entrou pelo vidro, trazendo um cheiro de sal e promessas não feitas. Tirei os sapatos e me joguei na cama, ainda tentando acreditar que estava ali. A poucos metros do mar, numa mansão com meu melhor amigo e… em breve, o pai dele. O pai dele. Um frio atravessou meu estômago, como se meu corpo soubesse de algo que minha mente ainda não entendia. Mais tarde, Dario me chamou para jantar. A mesa já estava posta, mas seu pai ainda não tinha chegado. Comemos entre risadas e lembranças antigas. Ele me contou que pensava em largar a faculdade de administração. Que talvez quisesse abrir um negócio próprio. — E o que seu pai acha disso? — perguntei. — Meu pai quer que eu seja a cópia dele. E eu… não quero isso. Eu nunca tinha visto aquele olhar em Dario. Um misto de frustração e tristeza contida. Era como se ele carregasse um peso que não tinha nome. Depois do jantar, ele me mostrou os fundos da casa, onde havia uma piscina aquecida e uma trilha que levava até a praia privada. Era tudo bonito demais. Mas algo naquela casa… me deixava inquieta. Era como se cada parede guardasse um segredo. Como se os cômodos soubessem mais do que eu. Quando voltei para o quarto, fechei as cortinas e me sentei na beira da cama. Fiquei encarando o pingente em minha mão. “Não tire isso.” O eco da voz dele voltou com força. Eu o ouvi. Como se ele estivesse ali. Do outro lado da porta. Me levantei rápido. Um arrepio correu pela minha nuca. Foi então que escutei. Porta da frente. Se abrindo devagar. Passos. Lentos. Firmes. Como se a casa reconhecesse quem entrava. Fui até a janela e puxei a cortina com cuidado. Não vi ninguém. Mas ouvi a voz de Pedro lá embaixo, num tom respeitoso e ligeiramente nervoso: — Seja bem-vindo, senhor Thiago. Thiago. Meu sangue gelou. Thiago. O nome dele. O nome que eu nunca soube… até agora. Corri até o espelho. O reflexo me encarou, pálido, assustado. Eu estava na casa do homem da festa. Do homem do pingente. Do homem que prometeu me encontrar. E ele era o pai do meu melhor amigo. Fiquei paralisada por alguns segundos, com o nome dele reverberando como um eco dentro de mim. Thiago. Aquele era o nome do homem da festa. O estranho que colocou o pingente em minhas mãos e prometeu me reencontrar. Mas agora ele não era só um rosto perdido na multidão de uma noite universitária. Era o pai de Dario. Meu melhor amigo. A pessoa com quem eu tinha rido no carro, partilhado memórias antigas e aceitado dividir alguns dias de “descanso”. A mesma pessoa que nunca me falou sobre o pai em detalhes. E agora eu entendia por quê. Me afastei da janela como se o ar tivesse mudado de densidade. Minha pele formigava, meu peito doía, e o mundo, de repente, parecia mais estreito. Era coincidência? Ele sabia quem eu era quando me viu na festa? Ou… tinha algo a mais? Algo que escapava à minha compreensão? Sentei-me no chão, cruzando os braços sobre os joelhos, tentando recuperar o fôlego. Era muita coisa de uma vez só. O rosto dele estava fresco na minha mente, mas na festa, a luz era fraca, a música alta, a atmosfera meio distorcida. E se eu estivesse enganada? E se fosse outra pessoa? Seria possível? Uma parte de mim queria acreditar nisso. Mas meu instinto sussurrava outra coisa: não era engano. A porta do meu quarto bateu suavemente. Eu me levantei num pulo, o coração martelando. — Lena? — era a voz de Dario. — Ele chegou. Mas acho que foi direto pro escritório. Quer descer mais tarde? Respirei fundo antes de responder. — Daqui a pouco. Só preciso tomar um banho. — Ok. Mas se quiser conversar, tô no quarto ao lado. Assenti, embora ele não pudesse ver. Só depois que ouvi os passos dele se afastarem, caminhei até a mala. Peguei uma roupa leve e segui para o banheiro, na esperança de que a água pudesse lavar aquela angústia que colava na minha pele feito sal depois de um mergulho profundo demais. A água quente caiu sobre meus ombros, mas não bastou. As perguntas continuavam ali. Como ele sabia onde eu estaria naquela noite? Por que me deu o pingente? E, principalmente: por que não disse quem era? Voltei ao quarto mais leve fisicamente, mas ainda carregada por dentro. Coloquei uma blusa fina de alça, um short de algodão e deixei os cabelos soltos, ainda úmidos. Quando saí, o corredor estava silencioso. As paredes pareciam escutar meus passos, como se a casa, de algum modo, estivesse viva e à espera do inevitável. Desci as escadas com cautela. Luzes âmbar aqueciam o ambiente da sala, mas havia algo naquela mansão que gelava a espinha. A arquitetura era moderna, mas havia quadros antigos nos corredores, móveis de madeira escura e um cheiro sutil de livros antigos e alguma coisa indefinida — quase como maresia guardada. Na cozinha, Pedro lavava louças em silêncio. Assustou-se quando me viu. — Senhorita Helena... precisa de alguma coisa? — Não, obrigada — sorri, tentando disfarçar o desconforto. — Só... pensei em tomar um pouco de água. Ele assentiu e me entregou um copo com gelo e uma garrafa. — O senhor Thiago está no escritório. Pediu para não ser incomodado... mas acho que logo sai. Está cansado da viagem. Agradeci e me sentei por alguns minutos à beira do balcão. Minha mente girava em círculos. Tinha sede de respostas, mas o medo era um nó bem amarrado no peito. Voltei para o quarto assim que pude. Dario estava escutando música no fone, então acenei rápido para ele no corredor e voltei a me trancar. Ficar sozinha parecia mais seguro. Mais tarde naquela noite, por volta das onze, fui até a varanda do segundo andar. A lua cortava as nuvens e o mar se movia lá embaixo com lentidão quase hipnótica. Encostei-me na madeira e tentei respirar fundo. Sentia o vento trazer areia fina, e o som das ondas me lembrava de tudo o que eu queria esquecer. Então, ouvi a voz. Baixa. Masculina. Familiar demais. — Não imaginei que você ainda estivesse com o pingente. Meu corpo enrijeceu. Virei devagar. Ele estava ali. Thiago. O mesmo olhar profundo. A mesma expressão tranquila, quase perigosa, como se não houvesse pressa no mundo. Vestia calça preta e uma camisa de linho branco com os botões do colarinho abertos. Os cabelos escuros estavam um pouco bagunçados pela brisa noturna. Ele parecia mais velho do que eu lembrava. Ou talvez, agora, eu soubesse exatamente o que estava olhando. — Você... — comecei, mas minha voz falhou. — Você é o pai do Dario. Ele assentiu. Cruzou os braços, se encostando na parede da varanda, de frente para mim. O mesmo jeito calmo da festa. — Eu soube que você viria. Não sabia se viria com ele ou sozinha... mas esperei. — Por quê? — minha pergunta saiu mais como um sopro. — Porque eu preciso te explicar algumas coisas. E porque... — ele hesitou por um segundo — ...porque tem coisas que você precisa saber. — Sobre o quê? Ele me olhou por um instante longo. Longo demais. — Sobre mim. Sobre você. E sobre o que esse pingente realmente significa. Segurei a corrente com força. — Você me conhece? — sussurrei. Ele se aproximou um passo. Não o bastante para me tocar. Mas o suficiente para me deixar ainda mais alerta. — Mais do que você imagina. Meu corpo reagiu com raiva e confusão ao mesmo tempo. — Isso é algum tipo de brincadeira? Você apareceu numa festa universitária, me deu isso — levantei o pingente — e sumiu! Agora aparece aqui como pai do meu melhor amigo, e fala como se tudo fizesse sentido? Ele suspirou. Não parecia irritado. Só... triste. — Não posso te contar tudo agora. Mas vai chegar a hora. — A hora de quê? — De você saber quem você realmente é. Aquilo me atingiu como uma pancada surda. Dei um passo para trás. — Isso não faz sentido. — Eu sei. Mas vai fazer. Em breve. Você só precisa ficar. — E se eu quiser ir embora amanhã? Ele encarou o mar por alguns segundos antes de responder. — A mansão... não te deixaria sair ainda. Mesmo que eu deixasse. Arregalei os olhos. — O que isso significa? Ele deu um meio sorriso. Não de alegria. Um sorriso... quebrado. — Boa noite, Helena. E então, ele se virou e sumiu pelo corredor escuro, deixando o cheiro de sal e mistério no ar. Fiquei ali, paralisada. O vento batendo no meu rosto, o coração descompassado e o medo crescendo como um animal enjaulado dentro de mim. Dario nunca me falou que o pai era assim. Que era alguém que surgia como um vulto e falava por enigmas. Mas algo me dizia que ele também não sabia. Talvez Thiago tivesse segredos demais. E talvez... alguns deles tivessem a ver comigo. Deitei naquela noite com a mente em chamas. E dormi com o pingente nas mãos, como se aquilo fosse a única âncora entre o que eu era… e o que ainda descobriria. "Eu não sabia que, na casa de praia, meu passado e meu destino iriam colidir de forma cruel."
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