O Primeiro Toque Proibido

1371 Words
A noite caiu com um silêncio inesperado, daqueles que antecedem o caos. A mansão parecia ainda maior sob a penumbra, e a sala de estar, iluminada apenas por abajures discretos, abrigava risadas soltas, copos meio cheios e uma lareira acesa como se o frio quisesse se infiltrar mesmo no verão. — Vamos jogar? — sugeriu Dario, empolgado, com um baralho entre os dedos. — Algo leve… tipo Pôquer, ou Truco, tanto faz. — Pôquer — respondeu Thiago seco, antes de sair da penumbra. Ele estava encostado à parede, com uma taça de vinho na mão, observando tudo com aquele olhar de quem nunca estava realmente presente, mas também nunca deixava de vigiar. Meu estômago revirou. Desde que ele chegara, nada fazia sentido. Na festa, ele fora o mistério. Agora, era o homem frio, distante, com quem eu era obrigada a conviver em nome da educação — e do desconforto. Ele ainda não me dirigira uma palavra sequer desde aquele momento em que passou por mim como se não me conhecesse. E talvez fosse melhor assim. Talvez fosse melhor não despertar nada que já estivesse fora do lugar. — Helena, joga com a gente? — perguntou Dario, sorrindo de um jeito doce demais para ser apenas amizade. Assenti, engolindo a tensão, e sentei no tapete ao lado da mesinha de centro. Thiago sentou-se à minha frente, com os olhos fixos no baralho, como se cada carta tivesse importância vital. Dario ficou à minha esquerda, e outra amiga da cidade, Melina, do lado oposto. A noite parecia simples. Um jogo. Uma distração. Mas dentro de mim, havia um turbilhão. As cartas começaram a ser distribuídas. Eu m*l entendia direito o jogo, mas fingia acompanhar. O que me prendia era a presença dele. O modo como seus dedos pegavam as cartas com firmeza, a forma como seus olhos evitavam os meus, como se negar minha existência fosse a única defesa que tinha contra alguma coisa que também o queimava. Rodada vai, rodada vem. Risadas, provocações entre Dario e Melina. Eu perdia todas, e nem ligava. Em uma jogada boba, Melina derrubou um pouco de vinho na toalha da mesa. — Ai, desculpa! — ela riu, tentando limpar com guardanapo. — Que desastre. — Relaxa — disse Dario. — Isso sai. Enquanto eles se distraíam, Thiago jogou sua carta, e por um breve segundo, sua mão encostou na minha. Não foi por acidente. Foi sutil. Um toque de dois segundos, talvez menos. Mas foi o suficiente para todo o oxigênio da sala evaporar. Minha pele se arrepiou como se eu tivesse encostado numa corrente elétrica. Nossos olhos se encontraram rápido. Um instante. Um mundo. Ele desviou antes que alguém percebesse. Eu prendi a respiração. “Foi só um acaso”, pensei. “Ele deve ter se confundido.” Mas meu corpo sabia. Meu corpo gritava o que minha mente tentava abafar. Dario olhou para mim. Seu sorriso gentil deu lugar a uma sobrancelha arqueada, leve, quase imperceptível. Ele voltou ao jogo, mas seus olhos... seus olhos começaram a me seguir com mais atenção. Mais tarde, já na varanda, a brisa soprava salgada e úmida. As palmeiras farfalhavam ao longe e o som do mar chegava abafado, como um lembrete de que o mundo ainda existia fora daquela casa. — Você está estranha hoje — Dario comentou, encostado na grade ao meu lado. — Eu? — ri fraco. — Acho que é o calor. Ele me observou em silêncio. Dario sempre foi do tipo observador, mas aquela noite... havia algo diferente em sua presença. Menos leveza. Mais contenção. — Thiago não costuma jogar com a gente — ele disse, casual, mas com uma sombra nos olhos. Fiquei em silêncio. — E ele nunca se interessa por ninguém — completou. Olhei para ele. O que ele queria dizer com aquilo? Que ele notara? Que suspeitava? Ou só estava lançando iscas para ver onde eu me revelava? — Bom, ele quase nem falou comigo — menti, cruzando os braços. — Isso é pior — ele disse com um meio sorriso dolorido. — Quando ele fica em silêncio, é porque já disse tudo. Fingi não entender. Fingi não ouvir. Fingi o tempo todo. Naquela madrugada, o sono não veio. Deitada na cama enorme do quarto de hóspedes, eu sentia o calor da pele onde ele me tocou. Era como se o toque ainda estivesse ali, queimando, latejando. Por que ele fez aquilo? Por que me olhou daquele jeito? E pior: por que eu queria que ele fizesse de novo? Virei de lado. Depois de costas. Nada funcionava. Então me levantei. Caminhei até a cozinha — silenciosa, escura. Queria água, ou talvez apenas me distrair. Qualquer coisa que me tirasse de mim. E foi ali, sob a luz fraca da geladeira, que o encontrei. Thiago estava encostado na bancada, segurando um copo, observando a chuva que começava a cair pela janela aberta. Estava descalço, a camisa preta meio aberta no colarinho, revelando a clavícula e parte do peito. Uma imagem que não deveria ter o poder que teve sobre mim. — Não consegui dormir — falei, baixinho, como se justificando minha presença. Ele não respondeu de imediato. Apenas me olhou. Aquele olhar. Intenso. Denso. — Eu também não — disse, por fim. A cozinha ficou pequena. O ar rarefeito. Caminhei até a pia, servindo-me de água. Ele se aproximou um passo. Um só. Mas senti como se tivesse invadido minha bolha, minha pele, meu pensamento. — Por que fez aquilo? — perguntei, sem me virar. — No jogo... Silêncio. — Foi um acidente — ele disse. A mentira pesou mais do que a verdade. Eu bebi a água toda, sentindo a garganta seca mesmo depois. — Evite se aproximar de mim, Helena — ele completou, com voz baixa, rouca, quase um aviso. Me virei, irritada. — Por quê? — Porque eu não sou quem você acha que viu naquela noite. E porque... — ele parou, respirando fundo. — Porque você é jovem. Porque Dario confia em você. E porque isso aqui... seria destruição. Ficamos frente a frente. Meu coração martelava. Queria tocar nele. Queria empurrá-lo. Queria entender. — E se já for tarde demais? — perguntei. Ele me olhou como se essa fosse a pergunta mais perigosa do mundo. Mas não respondeu. Apenas se afastou. De novo. E me deixou sozinha, com as perguntas queimando como lava. Na manhã seguinte, Dario sugeriu um passeio de lancha. — Vai animar a gente — ele disse, com aquele sorriso que agora parecia mais uma tentativa de nos manter longe da tensão. Thiago não foi. Durante o passeio, Dario foi gentil, divertido, como sempre. Mas havia algo em seu olhar... algo atento demais. Como se ele observasse cada gesto meu. Cada silêncio. Quando voltamos, exaustos e queimados de sol, a tarde caiu em preguiça. A cozinha, então, se tornou o refúgio. — Vem cá, me ajuda com a salada? — ele pediu, puxando-me para o balcão. Comecei a cortar os tomates. Ele organizava folhas numa tigela. Conversávamos sobre amenidades. O rádio ligado baixinho. Até que minha mão escorregou. Um pequeno corte. Nada grave, mas suficiente para que o sangue surgisse. — Droga! — murmurei, levando o dedo à boca. Thiago apareceu do nada. Pegou o pano com álcool. Envolveu meu dedo. — Tem que cuidar — disse, sem emoção, mas com os olhos presos aos meus. E naquele segundo, quando ele segurou minha mão, o mundo parou. Foi sutil, de novo. Como se o toque quisesse dizer tudo que ele não podia dizer em palavras. Dario entrou na cozinha no exato momento. Nos viu. Viu o toque. Viu os olhos. Viu o que a gente tentou disfarçar. Por um segundo, apenas um, a decepção cruzou o rosto dele como um relâmpago. E então ele sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. — Tudo certo por aqui? Thiago soltou minha mão devagar. — Sim — ele respondeu. Mas não estava. Não estava nada certo. Porque enquanto Dario pegava copos no armário, seus olhos pesavam sobre nós. E o toque queimar ainda queimava. E a culpa... a culpa começava a nascer no meio da minha pele. “O olhar de Dario pesava sobre nós... e a culpa já começava a me consumir.”
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