A manhã seguinte chegou como um soco lento e doloroso. O corpo ainda carregava as marcas da noite passada: a pele sensível ao menor toque, os músculos doloridos, o coração acelerado por lembranças que não deveriam existir. Ela se levantou da cama dele antes mesmo que o sol estivesse totalmente alto, como quem foge de um crime. Vestiu-se em silêncio, sem querer acordá-lo. Mas, antes que conseguisse alcançar a porta, ouviu a voz grave e rouca atrás de si. — Fugindo de novo, docinho? Ela fechou os olhos, respirando fundo, e girou lentamente para encará-lo. Ele estava deitado, apoiado nos cotovelos, o lençol escorrendo pelo corpo definido, o olhar intenso cravado nela. — Não é fuga — disse firme, embora a voz denunciasse nervosismo. — É autopreservação. Ele sorriu, preguiçoso, provocador.

