Rayra se levantou, limpando as mãos no avental, e olhou diretamente para Victor.
— Não precisa de reforço. Já anotei a lista dos produtos que preciso. Garanto que dou conta.
Victor, intrigado com a determinação dela, foi até a geladeira, pegou uma jarra de água e, brincando, perguntou:
— E cozinhar, está nos serviços contratados?
Rayra sorriu, com a simpatia em seu rosto era natural.
— Posso preparar algo rápido, se quiser.
Victor ficou ainda mais impressionado com a prestatividade dela. Ele pegou a cafeteira e começou a preparar café.
— Aceita um pouco? — ele ofereceu.
— E pode me chamar de Victor. Eu sempre como fora, então não se preocupe, a cozinha vai ficar impecável.
Rayra se ofereceu para preparar um lanche, bolo, ovos, ele pediu ovos mexidos com pão integral, suco natural de laranja sem adoçar, bacon e omelete de banana com canela, Rayra pediu licença, para mexer na geladeira, começou a preparar tudo, e mandou por mensagem a lista dos produtos, que ele pediu em um aplicativo, e eles começaram a conversar, ele contou que a família morava na Europa, e ele ia comemorar o aniversário com amigos,
Rayra ouviu tudo atenta, e disse que não ia decepcionar ele. O aroma de café fresco e os ovos mexidos com bacon invadiu a cozinha. Quando o café da manhã ficou pronto, Rayra serviu em pratos de porcelana, com o cuidado de quem entende de gastronomia e faz com carinho. Victor a observou, surpreso e admirado com a rapidez e o capricho com que ela preparou tudo.
— Uau, isso está incrível! — ele exclamou.
— Sente-se e coma comigo. Por favor.
Rayra sorriu, mas balançou a cabeça.
— Obrigada, Victor. Mas eu preciso começar a faxina.
Com a recusa educada de Rayra, Victor começou a comer sozinho enquanto ela subia para o segundo andar. Rayra iniciou a limpeza do primeiro cômodo, abrindo caixas e organizando os objetos. Foi então que ela levou um susto. Em uma das caixas, havia lençóis de seda nas cores preto, vermelho e dourado. Em outra, uma variedade de produtos novos de s*x shop: vibradores, algemas, chicotes, géis beijáveis, e lingeries minúsculas. Rayra, que nunca havia visto nada parecido, ficou curiosa e começou a ler as etiquetas para entender a função de cada item.
Foi nesse momento de distração que Victor entrou no quarto. Rayra se assustou e se levantou de imediato, com o rosto sério.
— Posso realmente desembalar tudo? Fiquei confusa, desculpa.
Victor soltou uma risada, achando a reação de Rayra adorável.
— Sim, pode desembalar tudo — ele disse.
— Desculpa, deveria ter explicado antes. Este aqui vai ser o meu dark room, um quarto para encontros íntimos.
Ele pegou o celular e mostrou algumas fotos de referência, explicando com naturalidade como o espaço ficaria: luzes baixas, espelhos e, claro, os lençóis de seda. Rayra olhava as imagens com os olhos arregalados, o rosto corado de vergonha. Ela gaguejou, m*l conseguindo formar as palavras.
— Eu… eu entendi. Não tem problema. Vou arrumar.
Voltando ao trabalho, ela começou a organizar os itens eróticos em uma prateleira, tentando manter a compostura. Victor, percebendo o desconforto dela, se afastou.
— Estarei no meu quarto, se precisar de algo. Ah, e os produtos de limpeza que você pediu já chegaram e estão na cozinha.
Rayra trabalhou incansavelmente. Limpou e organizou todos os cômodos do andar de cima, subindo e descendo as escadas várias vezes, carregando baldes, vassoura e rodo. Quando o relógio marcou a hora do almoço, ela desceu para a cozinha, levando consigo sua mochila. Tirou de lá um pote simples de vidro com tampa de plástico, sentou-se à mesa e começou a comer, miojo com chuchu, gelado mesmo.
Victor a observava pelas câmeras de segurança. Impressionado com sua dedicação, desceu para falar com ela. Aproximou-se, curioso.
— Eu ia pedir comida para nós dois. Sei que a refeição é obrigação de quem contrata o serviço.
Rayra, constrangida, deu um pequeno sorriso.
— Ah, não, imagina. Fica em paz. Eu sempre me viro.
Ele encostou-se no balcão e, disfarçadamente, olhou para a marmita dela. Tentando não ser indelicado, ele falou:
— Já pedi a comida, na verdade. Não quer esperar para comermos juntos?
Rayra, cabisbaixa de vergonha, disse que não precisava e que já ia voltar ao trabalho. Victor, no entanto, sentou-se perto dela, mexendo no celular.
— De onde você é? Tem família? Filhos? É casada? — perguntou, com curiosidade em seu olhar.
Ela terminou de comer, levantou-se e foi lavar o pote.
— Sou daqui mesmo, sozinha, sem ninguém — ela disse, com a voz baixa.
Ele insistiu, curioso:
— Ninguém? Tipo, irmãos, pais?
Rayra sorriu sutilmente.
— Sim, ninguém. Filha única. Meu pai nem me assumiu, e perdi minha mãe recentemente.
Ela mudou de assunto, olhando ao redor.
— Olha, por sorte, a casa não está suja, tipo sujeira de verdade. Vou conseguir terminar hoje. Mas talvez um pouco mais tarde, à noite. Tem problema? Se tiver, eu volto amanhã bem cedo.
Victor a olhou com uma ponta de admiração.
— Você pode decidir o que for melhor para você. Eu vou estar recebendo mais coisas amanhã, o pessoal do som, da comida, da decoração…
Rayra ficou séria por um instante, parecendo pensativa. Logo depois, respondeu:
— Prefiro terminar hoje. Vou voltar e ir para a sala de estar. Tem alguma escada para eu subir e alcançar as partes altas?
Ele foi pegar e levou para a sala. Rayra continuou a faxina, incansável. Subiu e desceu a escada, limpando cada canto com uma dedicação impressionante. O almoço que Victor havia pedido chegou, e ele, com uma embalagem grande nas mãos, ofereceu a ela.
— Venha comer comigo, por favor — ele insistiu.
Rayra, educada, recusou mais uma vez.
— Agradeço, mas não precisa, eu já comi.
Vendo a firmeza na resposta dela, Victor não insistiu.
— Tudo bem. Mas pode levar a marmita embora, se quiser.
Ela sorriu, agradecida, e voltou ao trabalho. O resto do dia de Rayra foi uma maratona. Ela limpou, varreu, organizou a casa, desfez as caixas, e até se arriscou a ajeitar os móveis e a decoração nova. Enquanto isso, Victor permanecia no seu mundo, no quarto ou na cozinha, totalmente focado no celular e no computador.
Ele a observava de longe, impressionado com a energia e a eficiência dela. Rayra não parou nem por um segundo, e Victor, pela primeira vez em muito tempo, ficou fascinado pela capacidade de alguém de trabalhar tão arduamente e com tanta paixão.