A festa da padroeira. Era um dos melhores eventos do ano. Sete dias de missas e barracas na praça a todo vapor. Acontecia pela manhã com festivais de músicas com cantores da região, apresentações culturais, entre outras exposições. Eu amava essa data festiva desde pequena. Aprendi a amar com a minha mãe, que com vida participara. Foi em um evento como esses que ela conheceu o meu pai e pouco tempo depois se casaram, não demorou muito para meu nascimento. Eles foram rápidos como coelhos. Dei um risinho só de pensar nisso. — O que é essa cara, hum? — Nada, Tamiris. Quer dizer… — Dei de ombros. — É que sempre me lembro da minha mãe quando chega esta época do ano. Ela gostava tanto de vir… — E agora você está aqui para viver tudo isso por ela, olha que maravilha? Dei um sorrisinho de lado. — É verdade. Espero que consigamos vender pelo menos todos os doces que trouxe. Dessa vez eu tinha caprichado. Preparara uma grande quantidade de docinhos, a massa estava deliciosa, suculenta, o chocolate na consistência exata para derreter na boca, e, por fim, o toque especial de café que podia ser apreciado com suavidade. Essa receita era dos meus pais, que por muitos anos fizeram, e foi passada para mim assim que tive idade suficiente para aprender a cozinhar. Então resolvi abusar da criatividade na hora de prepará-los. As embalagens eram um luxo só. Eu gostava de organizar tudo com sutileza, de tal forma que quem comprasse pudesse sentir o amor em cada pequeno detalhe, além do que, é claro, dessa vez colocaria uma balinha para acompanhar como brinde. Foi ideia de Tamiris, que em seu tempo livre trabalhava comigo na praça. — Ainda é cedo. Daqui a pouco o pessoal chega. Olhei para minha prima e amiga, sorrindo de lado. Tamiris tivera uma queda de bicicleta na última semana, ficou com leves ferimentos na perna, mas já se encontrava cem por cento. Graças a Deus! Por sorte, um homem misterioso que estava na estrada prestou socorro e a ajudou até chegar em casa, o que sem dúvidas fez a garota suspirar pelo desconhecido que a salvara. Ela me contou tudo no dia em que fui vê-la, explanou do começo ao fim, sem sequer tirar o sorriso do rosto. Eu só esperava que não descobrisse que ele era o mesmo rapaz que estava com Sebastian no dia em que foi a minha casa, aquele que tinha ficado na estrada o esperando. Deduzi isso pelas descrições físicas que Tamiris fizera do tal desconhecido. Afinal, contei o caos que aconteceu no dia em que o barão de café foi oferecer dinheiro pelas nossas terras. E ela surtou. Infelizmente. Puro suco de caos. Minha prima provavelmente, se soubesse que o seu anjo salvador era amigo do homem que queria tirar a minha propriedade, da próxima vez que o visse iria se encarregar de deixá-lo com uma marca no rosto, ou Deus sabe lá onde. Isso fazia parte do seu jeito do mato de resolver as coisas. E eu não a julgava, pois faria até pior. Se possível. Eu cruzava os dedos na vã esperança de nunca mais esbarrar com o barão. O barão que não gostava de café. Babaca. — Já era para haver várias pessoas a esta hora. — Soltei um suspiro fundo. — A missa começou agora, Carolina, mulher de pouca fé. Assim que acabar, essa praça vai estar lotada. Ela estava certa. Olhei ao redor, visualizando outras pessoas por ali espalhadas organizado seus pontos de vendas. Eu não tinha um em si, pois gostava de andar para lá e para cá com as cestas em mãos, o que sem dúvidas me ajudava a vender melhor do que estando parada em uma barraca. Foi essa a forma que adotei para vender. — É verdade. Desculpa. Isso tudo é culpa daquele barão filho de uma… — eu me contive para não xingar, lembrando-me de que era filho de dona Esther, uma mulher adorável e justa. — Puta — Tamiris completou, rindo. — É bom que você se prepare, pois aposto que irá encontrá-lo por aqui. — Por que diz isso? — Sabe muito bem, esse evento todo — gesticulou com os dedos — é patrocinado por aquela família. — Já tinha me esquecido disso. — Grunhi. — Às vezes tento não lembrar que eles são os famosos mandachuvas. Quem faz e acontece. — Exatamente. E é melhor você olhar… — Hum? Para onde? — Rua. Olha aquele carrão… — Tamiris indicou com o olhar e assim acompanhei, curiosa para saber mais. Nunca tinha visto um automóvel como aquele. Demorou pouco menos de dois segundos, até que o carro foi estacionado e as portas se abriram. Sebastian. Captei na hora. — Essa noite vai ser um desastre — choraminguei. — Se eu soubesse que esse babaca viria, teria ao menos batizado um docinho com pimenta. — Aí acabaríamos passando a noite na cadeia, ou Deus sabe lá onde. Afinal, você meio que esquece que estamos falando sobre a família mais poderosa desta cidade? Do país? — Exagerada! — falei, sem conseguir tirar o olho do barão. Estava lindo como sempre, senão ainda mais belo essa noite, usando um terno preto, cabelos bem alinhados; só não consegui observar os outros pequenos detalhes, por causa da distância entre nós. Ele estava do outro lado da rua. E eu, parada na praça, admirando-o. Igual a uma tonta! — Que ele não cruze o meu caminho, ou teremos problemas. Como se tivesse o poder de me ouvir, o que sabia que ele não tinha, Sebastian finalmente me notou e descaradamente acenou com a cabeça. Velho maldito! — Doces para adoçar… Compre um e leve dois. Compre dois e leve três. Tamiris saiu para vender a outra cesta, enquanto eu fui por outro lado, assim que a missa acabou e o pessoal se espalhou pela praça. Já tinha vendido metade do que levara, então sobrou pouco menos de dez doces, que esperava vender para que pudesse voltar para casa. Estava preocupada com meu pai, mesmo sabendo que não estava sozinho e dona Lurdes cuidava dele. A preocupação em si vinha desde a afronta de Sebastian, o que fez até o senhor Antônio perder o sono. Não só ele, como a mim também. Eu ainda não sabia de onde o barão tinha tirado essa ideia de comprar nossas terras. Algo estava muito errado nessa história toda. Esperava descobrir em breve para que assim pudéssemos ficar em paz. Ninguém iria tirar o que era nosso. — Vou querer um. Assustei-me ao reconhecer o dono da voz. Por falar no Diabo… Ele apareceu sem rabo ou chifres. — Compre um e leve dois. — Resolvi ignorá-lo e dei dois passos para trás. — Não vai me vender um doce? Meu dinheiro não tem valor algum? — sua voz soou alta, chamando a atenção de quem passava por perto. — Senhorita Santos? Parei quando percebi que Sebastian iria continuar indo atrás de mim se eu continuasse tentando fugir dele. — Ok. — Soltei um longo suspiro. — Vai querer só um mesmo? — Quantos ainda tem na cesta? — perguntou, parando ao meu lado, colocando a mão no bolso para tirar a carteira. Foi impossível não sentir o cheiro do seu perfume no ar. Que fragrância era aquela? — Amadeirado. Se gostou tanto assim do meu cheiro, é só se aproximar um pouco mais e senti-lo direito do meu pescoço — provocou-me. Arregalei os olhos, imediatamente. — Tenho… Tenho dez doces ainda — fiquei sem jeito e logo desconversei. — Vou querer. — Abriu a carteira, tirando uma nota que pagava não só os doces mas a cesta toda. — Não tenho troco — falei de uma vez. — Mas pode levar os doces. Outro dia você me paga. Ou o barão é daqueles que gosta de dar golpe? — Você me subestima, gosto disso. — Passou a língua nos lábios de forma sensual, sem tirar o olhar do meu. — De toda forma, fique. — Entregou-me o dinheiro. — Veja como… uma gorjeta. Isso! — Oras! Como ousa? Vai me taxar de pobretona pela segunda vez? — Foi como se tivessem pisado no meu pé. — De onde tirou isso, garota? Estou apenas pagando pelos doces. — E de quebra me dando uma gorjeta, quase como uma esmola. Olha aqui, barão… — Desculpe. Não queria ofendê-la — falou. — Essa não foi a intenção. — Já fez duas vezes. Como se não bastasse ter ido a minha casa com aquela proposta idiota, me ofendeu ao me chamar de pobretona… — E você a mim, ou pensa que esqueci do tapa que me deu? Deus! Precisava me conter ou seria capaz de repetir o ato agressivo que fiz. — Você que começou! — grunhi, nervosa. — Então vamos resolver isso. Vai me vender os doces, ou não? — Vou, sim, mas depois enfie a gorjeta dentro do buraco do seu… — Isso é coisa que se diga a um homem como eu, senhorita Santos? Eu podia muito bem retribuir a ofensa à altura, mas a respeito como mulher. — Não foi o que pareceu naquele dia. — Estávamos exaltados, então era de se esperar que as coisas tomassem aquele rumo — explicou. Não respondi. Abri a tampa da cesta e tirei todos os doces, colocando-os dentro de uma sacola para entregar a Sebastian. Ele recebeu com um sorriso contido. — Aqui. Espero que goste — tentei soar educada e profissional, mesmo que minha mão estivesse coçando para estapear seu rosto bonito. Contenha-se! — Aqui! Espero que aproveite a gorjeta para comprar uma roupa melhor que essa com que está vestida, pobretona. — Sebastian, sem receio algum, passou por trás de mim e enfiou a nota de dinheiro dentro da minha calça. — Até logo, Carolina. — Velho maldito! — perdi a compostura e falei bem alto. Mas já era tarde demais. Sebastian foi ágil em andar em passos rápidos, sumindo no meio das pessoas que por ali estavam. Ódio! Eu odiava Sebastian Ward!