Capítulo 19 — O Quase

1109 Words
Eu devia estar dormindo. O relógio marcava quase duas da manhã, e mesmo assim eu estava sentada na beira da cama, com o lençol embolado entre os dedos, encarando a porta como se ela pudesse se abrir sozinha a qualquer segundo. Meu coração batia rápido demais para alguém que só tinha passado o dia inteiro fingindo que estava tudo sob controle. Spoiler: não estava. Nada estava. Desde aquela conversa mais cedo — se é que dá pra chamar aquilo de conversa, porque mais pareceu um campo minado emocional — alguma coisa tinha se deslocado dentro de mim. Não era exatamente raiva. Também não era só desejo. Era uma mistura perigosa das duas coisas, daquelas que fazem a gente fazer merda e ainda achar justificável. Eu bufava baixo, passando a mão pelo rosto. — Que inferno… — murmurei para ninguém. A lembrança dele encostado no batente da porta, braços cruzados, aquele olhar escuro que parecia sempre saber mais do que dizia… p***a. Aquilo devia ser crime. Ou pelo menos algum tipo de tortura psicológica sofisticada. Levantei de uma vez, incapaz de ficar parada. Andei pelo quarto descalça, sentindo o piso frio contra a pele quente. Cada passo parecia ecoar alto demais, como se a casa inteira estivesse me julgando por estar acordada àquela hora, pensando nele como uma adolescente i****a. Eu odiava o fato de que ele tinha esse efeito em mim. Odiava ainda mais o fato de que parte de mim queria sentir aquilo de novo. Quando ouvi passos no corredor, congelei. Meu corpo reagiu antes da minha cabeça. O estômago se contraiu, o peito apertou, e eu soube — simplesmente soube — que era ele antes mesmo da maçaneta girar. A porta se abriu devagar. — Você também não conseguiu dormir — ele disse, em voz baixa, como se isso fosse uma constatação óbvia, não uma acusação silenciosa. Cruzei os braços, defensiva. — Não sabia que precisava justificar minha insônia. Ele entrou no quarto sem pedir permissão. Claro que entrou. Ele sempre fazia isso: ocupava o espaço como se tivesse direito, como se o mundo inteiro tivesse sido feito para acomodar a presença dele. A porta se fechou atrás dele com um clique suave. — Não vim brigar — ele disse. — Pelo menos não hoje. Soltei uma risada sem humor. — Nossa, que alívio. Ele me encarou por alguns segundos, o olhar sério demais para aquela hora da madrugada. A luz fraca do abajur desenhava sombras no rosto dele, deixando tudo ainda mais intenso. Mais perigoso. — Você está tremendo — ele observou. — Não estou. — Está, sim. Descruzei os braços, irritada, e dei dois passos na direção dele. — E se eu estiver? Vai fazer o quê? Anotar? Usar contra mim depois? O maxilar dele se contraiu. A tensão entre nós ficou quase palpável, como eletricidade antes de um raio cair. Eu conseguia sentir o calor do corpo dele, o cheiro familiar, a proximidade que fazia minha pele formigar de um jeito completamente inconveniente. — Você gosta de me provocar — ele disse, baixo. — Você gosta de reagir. Silêncio. Pesado. Carregado. Ele deu mais um passo, reduzindo o espaço entre nós a quase nada. Meu coração disparou, e eu odiei o quanto meu corpo traía qualquer discurso racional que eu tentava sustentar. — Isso aqui — ele murmurou — é exatamente o problema. — Então vai embora — desafiei, mesmo sabendo que não era isso que eu queria. Ele não foi. Em vez disso, levantou a mão lentamente, como se me desse tempo para recuar. Eu não recuei. Quando os dedos dele tocaram meu pulso, foi como se um fio invisível tivesse sido puxado dentro de mim. — Merda… — escapei, mais baixo do que pretendia. O toque era leve, quase nada, mas carregava intenção demais. Eu sentia o polegar dele pressionando de leve minha pele, sentia minha respiração ficar irregular, sentia o controle escorrendo pelos dedos. — Você percebe como fica diferente quando para de lutar? — ele perguntou. — Você percebe como é insuportável quando acha que me entende? Ele sorriu de canto. Um sorriso perigoso. — Não preciso te entender completamente. Só o suficiente. Meu corpo inteiro reagiu àquilo, e eu fechei os olhos por um segundo, xingando mentalmente todas as decisões ruins que tinham me levado até ali. Quando abri os olhos, ele estava ainda mais perto. — Isso é uma péssima ideia — eu disse. — Algumas das melhores são. Minha mão subiu sozinha, como se tivesse vida própria, e agarrou a camisa dele. O tecido estava quente sob meus dedos. Real. Demais. Ele inspirou fundo, e aquilo foi o último empurrão que faltava. — Não — eu disse, mais para mim do que para ele. — Se a gente cruzar essa linha… — Eu sei — ele interrompeu. — Eu sei exatamente o que significa. Os olhos dele não desviaram dos meus. — E mesmo assim você não está me mandando parar. Engoli em seco. — Vai se f***r. — Com prazer — ele respondeu, rouco, e aquilo arrancou uma risada nervosa de mim. Mas ele não avançou. Não me beijou. Não fez nada além de encostar a testa na minha, respirando o mesmo ar, dividindo o mesmo silêncio carregado. Era isso que mais me destruía: o autocontrole. A escolha consciente de ficar ali, naquele limite maldito, sem atravessar. — Eu não vou ser mais uma coisa complicada na sua vida — ele disse, finalmente. — Mas também não vou fingir que isso aqui não existe. Minha garganta apertou. — Então o que você quer? Ele hesitou. Só um segundo. O suficiente para eu perceber que, por trás daquela segurança toda, ele também estava à beira do colapso. — Eu quero você — ele disse. — Mas do jeito certo. Mesmo que demore. Mesmo que doa. Aquilo me desmontou mais do que qualquer beijo teria feito. Afastei a mão da camisa dele devagar, sentindo o vazio imediato que o gesto deixou. — Vai embora — pedi, dessa vez sem ironia. — Antes que eu mude de ideia. Ele me encarou por mais alguns segundos, como se estivesse gravando meu rosto na memória. Depois assentiu, deu um passo para trás e abriu a porta. — Boa noite — disse. — Boa noite. Quando a porta se fechou, minhas pernas finalmente cederam, e eu sentei na cama, passando as mãos pelo rosto, o coração ainda disparado. Porra. Aquilo não tinha resolvido nada. Mas tinha deixado uma coisa muito clara: não importava o quanto eu tentasse fingir — aquilo entre nós já tinha passado do ponto de retorno. E eu tinha quase certeza de que o pior… ainda estava por vir.
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