Darya se aproximou da cama e ficou bem na frente de Regina.
A outra esboçou um sorriso fraco. "Darya, obrigada por vir. Eu — Aah!"
Ela soltou um grito de dor quando Darya arrancou a atadura de gaze branca enrolada na testa.
"O que você está fazendo?" Micah e Regina perguntaram ao mesmo tempo.
"Você enlouqueceu?" Micah puxou Darya para trás antes que ela pudesse fazer mais estragos.
Regina se recuperou depressa.
A irritação virou confusão enquanto ela forçava um tom magoado na voz. "Eu… Darya, não entendo. Por que você…?"
Darya ergueu o pedaço de gaze branca imaculada. "Sem sangue."
Micah franziu as sobrancelhas.
Darya apontou para a testa exposta de Regina. "Sem ferimento. Nem um arranhão sequer."
Ela se virou para Micah. "Você disse que ela sofreu um acidente, bateu a cabeça com força, perdeu muito sangue." Ela sorriu com escárnio. "Deve ser sangue invisível."
Micah se virou para o médico. "O que está acontecendo? Você diagnosticou traumatismo craniano e pediu uma transfusão."
O Doutor Patel, como indicava o crachá fixado acima do bolso esquerdo do jaleco, levantou-se devagar.
Estava visivelmente suando.
"Eu, ah, nós simplesmente… eu simplesmente fiz o que me mandaram."
"Quem mandou?" Micah baixou o tom de voz, mas com uma carga intimidante.
"Você mesmo, Sr. Cavanaugh." O médico fixou os olhos no chão.
"Quando foi que eu pedi para você falsificar um diagnóstico?"
Darya se encostou na parede, cruzou os braços e observou o drama se desenrolar com indiferença.
Micah percebeu um deboche divertido no sorriso fugaz dela.
Ele cerrou as mãos em punhos e fitou com um olhar penetrante a calvície do médico.
"Hum, ah, é que a Srta. Fischer disse…"
"Fale mais alto!" Micah berrou.
"Ela nos disse que o senhor queria um diagnóstico grave para que a Sra. Cavanaugh tivesse que dar sangue!" O médico deixou escapar de uma vez.
Ele lançou um olhar de desculpa para Regina. "Me desculpe."
"Micah, não acredita nele!" Regina se sentou mais ereta, ansiosa. "Ele está inventando tudo isso!"
Micah levantou o braço com a palma aberta, em gesto de silêncio.
Regina calou a boca.
"Explica." Micah olhou fixamente para o médico.
"Toda vez, antes de a Srta. Fischer chegar ao hospital, ela me avisava com antecedência, se certificava de que eu sabia qual, ah, qual diagnóstico dar, para a gente alinhar a história. Normalmente era algum tipo de lesão que exigiria uma transfusão de sangue."
"E você simplesmente topava."
O médico teve a decência de parecer envergonhado. "Ela disse que me tiraria do emprego se eu não obedecesse."
E, como Regina não precisava realmente do sangue, ele podia vendê-lo no mercado n***o.
AB negativo era raro, praticamente uma joia.
O médico estava lucrando um bom dinheiro com isso e achava que o esquema era vantajoso para ambos. Só não sabia exatamente que tipo de benefício a senhorita Fischer obtinha com aquilo.
"Micah." Regina começou a torcer as mãos, sua expressão ansiosa. "Eu posso explicar."
Como o ferimento falso tinha sido exposto, as cores voltaram magicamente às bochechas pálidas dela.
"Para te dar mais tempo de inventar uma história convincente," Darya interveio, "que tal eu mostrar isso a ele? Já que vai mentir, inventa algo que explique tanto o ferimento falso quanto a foto."
Ela digitou algumas teclas na tela e olhou para Micah. "Acabei de te mandar uma foto com anotações."
Micah encarou o próprio rosto na tela.
O fundo da foto espontânea parecia familiar.
O que não era familiar era o rosto de Regina colado ao dele.
"O departamento de tecnologia da sua empresa é bem competente," Darya disse com naturalidade. "Você provavelmente consegue colocar alguns dos seus funcionários para verificar se a foto é autêntica e rastrear quem a enviou."
"Quem te mandou isso?" Micah ergueu a cabeça.
"Isso é para você descobrir e para ela explicar." Darya lançou para Regina um sorriso feroz. "A propósito, o acordo que fiz com ele foi revogado. Vai ter que achar outra pessoa para sugar o sangue."
Ela saiu do quarto com passos tranquilos, deixando para trás os últimos três anos da própria vida.
O Doutor Patel aproveitou a oportunidade para se esgueirar pela porta.
Micah apertou o celular na mão.
O comentário sobre o "Príncipe Encantado" e a "criada" tinha doído.
Ele nunca tinha pensado em Darya como uma empregada.
Na verdade, nunca tinha pensado nela, simplesmente.
O comentário sarcástico somou-se ao peso no estômago — Darya não tinha pedido o divórcio num impulso do momento.
A foto provavelmente foi a gota d'água.
Ela estava realmente indo embora. De vez.
Uma fisgada aguda atravessou seu coração.
Ele se virou para a porta. "Darya!"
Regina escolheu esse momento para cair da cama.
Os joelhos bateram no piso de vinil com um baque audível.
Ela apertou o peito com as mãos. "Eu… não estou me sentindo bem."
Micah parou, hesitou por um breve instante e então se voltou. "O que foi?"
"Estou tonta," ela gemeu, franzindo o rosto como se estivesse em dor. "Acho que vou desmaiar."
"Vou chamar o médico."
"Não, não vai embora, por favor!" Ela agarrou o braço dele, soluçando. "Sinto falta do Lucian. Queria que ele estivesse aqui."
Micah ficou paralisado.
Os últimos momentos do seu colega de exército cruzaram sua mente.
Com o canto do olho, Regina captou o olhar melancólico no rosto de Micah e escondeu um sorriso satisfeito.
Para garantir que ele ficasse com ela, prendeu a respiração até conseguir desmaiar de verdade.
Darya parou na frente do elevador, pressionou o botão de chamada, aguçou os ouvidos, mas não ouviu nenhum passo apressado vindo pelo corredor em sua direção.
Ela esticou os lábios num sorriso amargo.
O homem com quem era casada há três anos não conseguia nem reservar um momento para se despedir.
Ela se perguntou se isso era mais um reflexo da falta de sentimentalismo dele ou de seu próprio fracasso em conquistar sequer um canto pequenino no coração dele.
Provavelmente, ele já a tinha apagado da mente e estava ocupado procurando o próximo doador de sangue.
Darya entrou no elevador.
As portas se fecharam.
No estacionamento subterrâneo.
O Bugatti preto de Micah estava parado na vaga reservada.
Ela passou direto, sem nem virar a cabeça, e parou diante de um Rolls Royce Phantom na cor Smokey Quartz. Curvou a cabeça.