Onde a Esperança Morre

1060 Words
~ Kallie ~ O caminho até o nosso "quarto" era uma descida literal ao inferno. Enquanto os andares superiores da mansão da Alcateia brilhavam com o polimento das pratas e o calor das lareiras de carvalho, o subsolo era o lugar onde a matilha escondia tudo o que considerava vergonhoso, coisas quebradas, coisas velhas, coisas inuteis. Arrastamos nossos corpos doloridos pelos degraus de pedra úmida, segurando o corrimão mofado para não desmoronarmos. Cada passo era uma agonia. O chicote de Gunnar não havia apenas cortado nossa pele; ele havia atingido o que restava do nosso espírito. Aurora soltava gemidos curtos e abafados a cada movimento, a mão pequena pressionando o corte em sua coxa, enquanto eu sentia o sangue grudar o tecido da minha túnica rasgada nas feridas abertas das minhas costas. Finalmente, chegamos ao porão. Era um espaço retangular, cavado diretamente na rocha fria da montanha. O ar ali era pesado, saturado com o cheiro de mofo e a umidade que escorria pelas paredes como lágrimas de pedra. Não havia janelas, apenas uma pequena fresta no alto que deixava entrar um filete de luz cinzenta e o vento cortante do outono. No canto mais afastado do frio, dá agua, havia nossa recompensa de uma dia duro: um colchão de palha mofado e fino, que dividíamos desde que Martha partira. — Deite-se, Kallie... por favor — Aurora sussurrou, sua voz falhando enquanto ela tremia violentamente. — Primeiro você, Aurora. Você está perdendo mais sangue — respondi, tentando manter a firmeza, embora minha visão estivesse começando a escurecer. Nós nos sentamos no chão gelado. Com mãos trêmulas e dedos gelados, Aurora começou a puxar os restos da minha túnica. O som do tecido se descolando da carne viva me fez fechar os olhos e morder o lábio até sangrar para não gritar. Não tínhamos remédios, gazes ou bálsamos. Nossa única medicina era uma caneca de água que havíamos desviado da cozinha e um pedaço de pano velho que lavávamos repetidamente no balde. Aurora passou o pano úmido pelas minhas costas. O toque era leve, mas a dor era um incêndio. Senti as lágrimas quentes dela caírem sobre a minha pele, misturando-se ao meu sangue. — Sinto muito, Kallie... sinto muito que ele tenha batido em você por minha causa — ela soluçava, o choro ruidoso ecoando nas paredes de pedra. — Não foi sua culpa. Gunnar é um monstro. Ele faria isso de qualquer jeito — eu disse, tentando confortá-la enquanto eu mesma sentia o frio da morte rastejar pelos meus ossos. Depois que ela limpou o melhor que pôde, foi a minha vez. Aurora se encolheu, expondo a marca feia do chicote em sua perna e o hematoma que já escurecia suas costelas onde Gunnar a chutara. A pele dela era pálida demais, quase translúcida pela falta de sol e de comida. Enquanto eu limpava seus ferimentos, percebi o quanto éramos frágeis. Éramos duas garotas de dezessete e dezesseis anos que nunca conheceram o peso de uma joia ou a maciez de um vestido de seda. Conhecíamos apenas o peso do ferro e a aspereza da palha. Quando terminamos, rastejamos para o colchão. O lugar era tão frio que nossa respiração formava pequenas nuvens de vapor diante de nossos rostos. Deitamo-nos de lado, de frente uma para a outra, encolhidas para tentar conservar o mínimo de calor corporal que nos restava. A manta que tínhamos era fina e cheirava a poeira, mas nos abraçamos com força, as pernas entrelaçadas, os corações batendo no mesmo ritmo de pavor. — Kallie? — Aurora sussurrou na escuridão, sua voz tão pequena que parecia vir de muito longe. — Estou aqui, Aurora. — Você acha que a Grande Deusa nos esqueceu aqui embaixo? O silêncio que se seguiu foi pesado. Olhei para a escuridão do teto, sentindo o latejar das feridas e o vazio no meu estômago que a fome já nem conseguia mais descrever. — Dizem que a Deusa Luna olha por todos os seus filhos — respondi, embora minha fé estivesse tão esfarrapada quanto nossas roupas. — Mas talvez o teto de pedra da Lâmina n***a seja grosso demais para que ela nos veja. Aurora apertou o rosto contra o meu peito, e senti sua pele gélida contra a minha. — Eu não aguento mais, Kallie... dói tanto. Às vezes eu fecho os olhos e peço... eu peço que o amanhã não venha. Minhas próprias lágrimas finalmente transbordaram. Eu a apertei mais forte, ignorando a dor em meus próprios ombros. — Eu também peço, Aurora — confessei, o choro quebrando minha voz. — Todas as noites. Ali, no porão úmido, cercadas pelo mofo e pela indiferença de uma alcateia inteira, nós duas elevamos uma oração silenciosa e desesperada. Não pedíamos por coroas, nem por vestidos, nem por banquetes. Nossa prece era mais simples e muito mais sombria. Grande Deusa, se você estiver ouvindo... se você ainda se lembra das filhas sem cheiro deste inferno... Nos ajude. Qualquer salvação. Mande alguém que nos tire desta situação, alguém que nos veja como seres vivos. E se não houver ninguém, Deusa... se o mundo for apenas este frio e este chicote... então mande a morte. Choramos juntas até que a exaustão superasse a dor. Aurora adormeceu primeiro, seus soluços diminuindo até se transformarem em uma respiração curta e superficial. Eu fiquei acordada por mais tempo, observando o filete de luar que conseguia atravessar a fresta no alto. O luar era prateado e frio. Parecia um olho observando nosso sofrimento sem piscar. Faltava uma semana para o baile. Uma semana para que o Príncipe Roran, o homem que todos temiam, cruzasse os portões da Lâmina n***a. Diziam que ele era um guerreiro sem alma, um Alfa que não conhecia a palavra misericórdia. Naquela noite, enquanto eu sentia o cheiro de mofo e sangue, eu não tive medo dele. Se o Príncipe Roran fosse o monstro que todos diziam, talvez ele fosse a resposta à minha segunda prece. Talvez ele fosse o fim que tanto desejávamos. Eu fechei os olhos, a última imagem na minha mente sendo o vermelho do meu próprio sangue no chão. Eu não tinha cheiro, eu não tinha loba, e agora, eu não tinha mais esperança. O que eu não sabia era que, a quilômetros dali, em um castelo feito de gelo e rocha, um par de olhos dourados se abria na escuridão.
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