HANNAH
Terminei o banho com o coração mais leve, a água quente tendo lavado não só a sujeira do corpo, mas o meu do cansaço estava grudado na alma. Enrolei meu bebê em uma das mantas secas que encontrei penduradas atrás da porta o enrolei bem firme beijando sua testa macia. Depois, vesti-me com as mesmas roupas que trouxe as únicas que tinha e saí do banheiro.
Em cima da mesa rústica, vários pacotes estavam empilhados. Embrulhos de pano e corda, alguns maiores, outros menores.
Kian estava de costas para mim, ajeitando a lenha no fogão.
O fogão ficava no meio da casa o que era bom pois aquecia o lugar sem sujar tudo com fuligem ou fumaça.
Eu fico uns minutos olhando ele se mexendo no fogo.
A luz da lareira dançava sobre seus ombros largos, criando sombras que se moviam com ele.
Coloquei o bebê na cama, com cuidado, e fiquei olhando para Kian, sem saber o que fazer.
— Você quer ajuda com o jantar?
— Não! — Ele colocou alguma em uma panela
Olhei e para os lados e olhei para a prateleira de livros. E fui até lá. Só tinha livros com nomes engraçados que eu nunca tinha visto. Mileto, Aristóteles, Sócrates, Platão.
E outros com nomes esquisitos que eu nunca tinha visto. Os únicos livros que eu li na vida eram a Bíblia e o livro sagrado da minha vila.
Meus dedos passaram nas capas dos livros. Kian falou, sem se virar, com uma voz grave que me fez recuar:
— Os pacotes em cima da mesa são coisas para você e para a criança. Comprei tudo o que a mulher do entreposto disse que eu deveria comprar para uma mulher e para uma criança.
Eu senti um nó na garganta. Aquele homem, tão grande e assustador, tinha ido até um entreposto e comprado coisas para mim. Para mim, que ele m*l conhecia. Para meu filho, que ele só viu hoje mais cedo.
Meu pai e meus irmãos nunca fariam uma coisa dessas por uma mulher.
— Muito obrigada — disse, e minha voz saiu mais rouca do que eu queria.
Ele apenas acenou com a cabeça, ainda de costas. Não disse mais nada.
Aproximei-me da mesa com as mãos trêmulas e comecei a abrir os embrulhos. O primeiro era um vestido simples de algodão azul-claro. Segurei-o contra o peito e senti o tecido macio. Eu poderia colocar mangas nele
— Obrigada — sussurrei, e abri o próximo.
Uma camisola de flanela. Outro vestido, esse mais quente, de lã. Meias grossas. Uma blusa cinzenta. E então, no fundo de um dos pacotes, encontrei tecidos. Panos de algodão estampado, retalhos coloridos, linhas, agulhas e duas tesouras. Uma pequena e uma grande.
O ar escapou dos meus pulmões. Meus dedos tocaram os tecidos como se fossem relíquias sagradas. Eu não tinha nada. Nada. E ele trouxe isso para mim. A possibilidade de criar, de fazer algo bonito com as próprias mãos.
— Vou fazer algumas roupas — disse, a voz embargada. — E para deixar a casa mais feliz, vou fazer uma toalha de mesa e uma cortina. A luz vai entrar mais suave, e vai ficar aconchegante.
Kian se virou lentamente e me olhou com aqueles olhos escuros e indecifráveis.
— Prefiro a casa triste.
— Ok, sem cortinas e toalhas de mesa então.
— Isso, nada de babados.
As palavras caíram como um balde de água fria. Meu sorriso, que estava florescendo nos meus lábios, morreu ali mesmo. Meus dedos pararam de acariciar o tecido. Eu olhei para ele, tentando entender se era uma piada, mas seu rosto estava sério, imóvel.
Então, ele desviou o olhar. Algo passou por seu rosto arrependimento? e ele falou mais depressa, a voz um pouco menos rígida:
— Mas se você ficar feliz... pode fazer as cortinas.
Aquele pequeno recuo, aquela tentativa torta de consertar o que disse, fez meu coração se apertar de um jeito diferente. Ele não sabia como falar com pessoas. Eu já tinha percebido isso. Mas ele estava tentando.
Ele se virou novamente para o fogão, mexendo nas brasas, e continuou, como se estivesse dando uma ordem:
— Amanhã vou sair cedo, vou colocar alarmes na propriedade para a nossa proteção. Mas as tarefas têm que ser feitas todos os dias. Vista-se, que vou te levar nos lugares e explicar o que precisa ser feito.
Troquei de roupa rapidamente, colocando a camisa cinza por baixo do vestido azul-claro e senti o tecido macio contra minha pele como um abraço. Peguei o bebê no colo, e Kian já estava na porta, o cão enorme ao seu lado.
Seguimos para fora. O ar gelado do início da noite mordeu meu rosto. Kian andava à frente em passos largos, e eu quase corria para acompanhá-lo.
Chegamos a um cercado de madeira. Galinhas cacarejavam por todos os lados, bicando o chão. Kian apontou com o queixo.
— Galinheiro. Quinze galinhas e dois galos.
Olhei para as aves, depois para ele.
— Qual o nome delas?
Ele me encarou como se eu tivesse perguntado algo absurdo.
— Galinhas. — Apontou para os machos. — g**o.
Pisquei. Tentei encontrar um sinal de que ele estava brincando. Mas como aconteceu com cão, era melhor eu não discutir.
— Ah... — foi tudo que consegui dizer.
Ele se ajoelhou, com uma agilidade surpreendente para um homem tão grande, ele entrou no galinheiro enfiou a mão debaixo de uma das galinhas. Tirou um ovo, ainda quente.
— Você tira os ovos todos os dias. Assim. Com cuidado. Não quebre.
— Eu sei como cuidar de galinhas, era uma das minhas tarefas em casa..
Mais adiante, quatro vacas e seis cabras pastavam em um cercado maior. Kian apontou novamente.
— Você tira leite. Todos os dias. De manhã e à tarde, as cabras mordem tome cuidado.
Se você lidou com animais não tenho que te dizer como manusear para tirar leite não é.
— Não, não precisa…. Mas quais são os nomes desses animais?
— Vaca e c***a.
Eu ri:
—Na minha casa colocavamos nomes nos animais. Tínhamos a as vacas Daisy, Mimosa, Ginger …porcos tínhamos Billy, Buddy eram fofos é
Ele olha para mim sério:
— Dar nomes para mim e algo importante e como dar uma identidade para um animal, você dá um nome para algo ou alguém que quer dar uma identidade. Como uma criança. Passei parte da minha vida sendo chamado por um número e minha vida mudou quando ganhei um nome, eu nunca jamais poderia chamar um porco de Billy, e comer ele no natal, chavar uma vaca de Daisy e depois afastar o filhote dela para ter seu leite, o mesmo acontece com as galinhas e cabras… Eu não posso dar um nome de depois me aproveita deles, isso para mim não faz sentido.
Depois, levou-me para ver os porcos e o boi. Mostrou onde ficava a ração, como misturar, como colocar nos cochos.
— Comida duas vezes por dia. Água sempre fresca.
Olhei para ele, tentando absorver tanta informação.
— O que você faz com o leite?
Ele olhou para mim, como se a resposta fosse óbvia.
— Tiro um pouco para consumir. E faço queijo.
Meus olhos brilharam.
— Eu posso fazer queijo?
Ele me encarou por um segundo, e então pela primeira vez desde que o conheci seus lábios se curvaram. Não era um sorriso aberto, mas era um sorriso. Pequeno, quase imperceptível, mas verdadeiro.
— Pode — respondeu, e havia algo naquela palavra que parecia um desafio. — Se você conseguir. Depois coloca o soro para os porcos, e pura proteína.
Aquele "se" me desafiou. Senti um fogo pequeno acender dentro de mim. Eu ia conseguir. Eu ia mostrar a ele.
Ele me levou até a horta e o pequeno pomar. As árvores estavam carregadas de frutas maçãs, peras, algumas ameixas. Mas as folhas já começavam a amarelar, e o ar tinha aquele cheiro de inverno chegando.
— Eu faço dar frutas boa parte do ano — explicou, apontando para os troncos. Mas o inverno aqui é rigoroso. Neva muito. As árvores já estão sofrendo com o frio.
Ele me ensinou como podar os galhos secos, como proteger as raízes com palha, como regar sem encharcar. Eu ouvia atentamente, gravando cada palavra, cada gesto. Queria aprender. Queria ser útil.
Voltamos para a cabana. Eu estava exausta o corpo doía de tanto andar.
Kian preparou uma refeição simples, e comemos em silêncio. O bebê dormia no canto. O cão estava deitado aos meus pés.
Quando a noite caiu, Kian se levantou.
— Vou dormir na caminhonete — disse, e não explicou mais nada.
Eu quis perguntar por quê. Quis dizer que não tinha medo, que ele podia ficar na cabana. Mas as palavras ficaram presas. Ele já estava saindo, a porta se fechando atrás dele com um baque suave.
Fiquei sozinha com meu filho, o crepitar da lareira e o silêncio da floresta. Deitei-me na cama, sentindo o cheiro das mantas de lã, o calor do fogo, e fechei os olhos. Apesar de tudo, apesar do medo e da incerteza, senti uma paz que não sentia há meses.
No dia seguinte, acordei antes do amanhecer. O bebê ainda dormia. Levantei-me, vesti-me, e comecei a trabalhar.
Fui ao galinheiro, tirei os ovos com cuidado. Fui ao curral, sentei no tamborete e tirei leite das cabras e das vacas. Minhas mãos doíam, mas eu não parei. Limpei os cochos, coloquei comida, troquei a água. Fui à horta, reguei, arranquei as ervas daninhas. Voltei para a cabana, acendi o fogo, preparei a comida.
E então, com o leite que tirei, comecei a fazer queijo. Lembrei-me das palavras de Anne, das tardes no Rancho em que ela me ensinava a coalhar o leite, a pressionar a massa, a salgar. Minhas mãos se moveram como se lembrassem por si mesmas.
Quando o sol já estava a pino, Kian abriu a porta da cabana.
Ele parou no batente. Seus olhos percorreram a cozinha arrumada, a mesa posta com o almoço, os ovos em uma cesta, o queijo fresco em uma tábua de madeira.
Ele me olhou, confuso. Eu vi a pergunta se formando em seu rosto.
— Como você fez tudo sozinha nesse tempo?
Limpei as mãos no avental que fiz com um retalho do tecido que ele trouxe. Sorri, e aquele sorriso era genuíno, cheio de uma alegria que eu não sentia há muito tempo.
Olhei para ele, com os olhos brilhando, e respondi:
— Mágica.