Capítulo 1

755 Words
Donatella Ricci A Mira sempre teve cheiro de sonho novo. Não importava quantas coleções já tivéssemos lançado, quantas filiais abertas ou quantas noites viradas em cima de croquis… cada novo começo trazia aquela mesma excitação borbulhante, como se estivéssemos prestes a conquistar o mundo de novo. Era segunda-feira, mas o escritório estava longe de parecer entediante. Música francesa tocava baixinho nas caixas de som embutidas nas paredes, os painéis de inspiração estavam abarrotados de recortes, tecidos e frases grifadas com marca-texto rosa. E eu, com meu café em mãos e um vestido preto de alfaiataria com recortes ousados, estava pronta para mais uma revolução fashionista. — Vocês viram que os tecidos chegaram? — falei, entrando na sala de reuniões com meu andar apressado e entusiasmado. — Da Índia, amore! Seda pura, tingimento artesanal. O fornecedor jurou que cada metro é uma obra de arte. Serena, sentada com o tablet em mãos, levantou os olhos e sorriu de leve. — Vi, sim. Já mandei alguém da equipe de qualidade analisar os lotes. Se forem tão bons quanto parecem nas fotos, já podemos pensar nos protótipos da coleção primavera-verão. — Não vejo a hora de tocar neles — comentou Iris, sentada na mesa com um fichário enorme aberto à frente. — Estou revisando os números da última coleção. E a previsão de crescimento com as novas filiais nos Estados Unidos está acima do esperado. — América do Norte, queridas! — exclamei, girando numa das cadeiras giratórias da sala e quase derrubando minha xícara. — A Mira agora é oficialmente intercontinental. Vocês têm noção do que isso significa? — Que vamos ter que virar a noite para manter o padrão em três fusos diferentes? — Serena brincou, arqueando a sobrancelha. — Que eu preciso de um guarda-roupa inteiro só para eventos em Nova York — corrigi, sorrindo como se já estivesse na passarela. Foi quando Mateo entrou na sala, carregando uma pasta de couro vermelho e usando uma boina que só ele conseguiria sustentar com dignidade. — Donas do meu coração — anunciou, com aquele sotaque delicioso entre espanhol e italiano — trago croquis quentíssimos! Vocês não estão preparadas. — Mateo! — me levantei num pulo. — Diga que é aquilo que conversamos sobre a desconstrução do corset? — E muito mais. Olhem isso — ele abriu a pasta sobre a mesa e começou a espalhar os desenhos com movimentos dramáticos. — Silhuetas fluidas, transparência pontual, influência oriental com uma pegada futurista. Isso, minhas queridas, é o DNA da nova Mira. Ficamos em silêncio por alguns segundos. Serena analisava um dos desenhos com o olhar de quem enxerga detalhes técnicos que ninguém mais vê. Iris já estava fazendo anotações, e eu… bem, eu me emocionei. Porque era isso. Era isso que a gente fazia. Criava. Inventava. Sentia. — Isso é Paris. — sussurrei. — Como é? — Iris perguntou. — Isso é Paris Fashion Week. — repeti, desta vez mais alto. — Nós vamos. Vamos apresentar esta coleção em Paris. Mateo bateu palmas. — Eu sempre soube! A Mira nasceu para brilhar nas capitais da moda! Preparem os saltos, as plumas e os holofotes! Serena olhou para mim, meio rindo, meio séria. — Acha mesmo que estamos prontas? — Nós nascemos prontas, Serena. A pergunta é se Paris está pronta para nós. O burburinho aumentou quando outras pessoas da equipe entraram na sala. Mostramos os croquis, discutimos sobre texturas, tecidos e tendências. Recebemos amostras do fornecedor asiático e decidimos fazer os primeiros testes de costura naquela mesma semana. A Mira funcionava como uma orquestra afinada, mesmo no caos criativo. Mais tarde, quando já estávamos sozinhas novamente, nos sentamos no chão da sala de criação, cercados por tecidos, canetas, glitter e esperança. — Sabe o que me encanta? — Iris disse, ajeitando o coque alto com uma das mãos. — É que fazemos isso acontecer com amor. Com verdade. — E com muito café — Mateo acrescentou, rindo. — E com muito sangue Ricci — completei. — Porque nenhuma de nós chegou aqui fácil. Construímos cada centímetro desta marca com garra. Com cicatriz. Com paixão. Serena assentiu em silêncio, e naquele gesto havia uma eternidade de memórias. Dos dias em que ela m*l conseguia levantar da cama, até agora: mulher, mãe, sócia, líder. Ela era força silenciosa. E Iris, com a inteligência afiada e o coração imenso, era o alicerce. E eu… eu era a faísca. O sopro. A ousadia. — Paris que nos aguarde — murmurei, sentindo o peito vibrar. — Porque a Mira vai incendiar o mundo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD