O Primeiro Contato Com Hitler.
O luxo e a opulência eram evidentes, confirmando a grandeza milenar alemã — que começava pelo tamanho colossal das portas, passava pela altura das janelas e culminava na beleza do mármore, que dava até pena de pisar. A decoração era austera, mas de muito bom gosto. Uma imensa tela retratava o líder da nova Alemanha, e, do alto do andar superior, uma gigantesca bandeira com a suástica tremulava de forma assustadora.
No final de um longo corredor, dois guardas com seus uniformes negros impecáveis — que, diante da grandiosidade da porta, pareciam insignificantes — protegiam a entrada da sala que dava acesso ao chefe supremo do povo ariano.
Um ajudante de ordens me revistou com eficiência germânica e recolheu minha carteira com documentos e alguns cartões de crédito, inclusive o da Renner. Ele examinou os cartões, revirando-os várias vezes, como se tentasse entender para que serviam (provavelmente achou que eram para abrir envelopes). Juntou tudo numa pasta e entrou na sala.
Pouco tempo depois, voltou sem a pasta, mas com uma ordem que me deixou pálido de medo:
— O Führer vai recebê-lo. Mas siga estas normas:
• Não se sente, não ouse fazer qualquer movimento sem ser autorizado.
• Não fale sem ser perguntado.
• Responda sempre: "Sim, meu Führer" ou "Não, meu Führer".
• Nada de piadinhas, nem comentários sobre futebol ou mulheres.
• Se sentir algum aroma de pum, bafo de boca ou cecê, comporte-se normalmente, como se nada tivesse acontecido.
• Nada de pedir dinheiro emprestado, nem para ele ser seu fiador.
• Ah, e ia esquecendo: não faça comentários sobre o bigodinho dele.
Eu estava apavorado. O mais estranho é que não conseguia parar de pensar em como tudo aquilo parecia uma grande peça de teatro. Eu só queria sair dali e voltar para minha vida normal. Entretanto, a cada passo, a cada ordem, a sensação de que minha vida estava prestes a mudar para sempre se intensificava.
Fui conduzido até uma sala gigantesca, com paredes de mármore verde-claro que cobriam até metade da altura e, a partir dali, davam lugar a painéis de madeira escura envernizada. Um grande tapete em tons de cinza recebia a luz suave de lindos lustres de cristal, com adornos em ouro.
Em um canto, havia uma mesa de conferência que mais parecia uma obra de arte do que um móvel. Abrigava vinte pessoas em cadeiras com fundo de veludo verde-escuro e encosto de palhinha. Em outro espaço, mais próximo das grandes janelas, havia um sofá de seis lugares, reluzente pelo brilho do couro, e quatro poltronas igualmente confortáveis, ladeadas por pequenas mesinhas com fotografias em molduras impecáveis. E ali, sentado em uma das poltronas, estava ele: Adolf Hitler.