Operação Sino - Parte I

945 Words
Posso garantir a você que foi a coisa mais impressionante e diferente que já vi na minha frente. De repente, me vi parado diante daquela máquina, não muito grande, mas de aspecto inexplicável. Era algo físico, eu via e sentia sua presença, mas envolto em uma névoa que distorcia sua forma; às vezes parecia sólida, em outras, algo gelatinoso e líquido. Mudava de lugar na sala em flashes de luz sempre que eu tentava me aproximar. Sua cor tinha um brilho metálico muito bem polido, contrastando com peças mais rústicas que pareciam mais resistentes. O ano era 1981. Para ser mais preciso, 2 de outubro. Lembro bem, pois era o aniversário da minha mulher e eu estava indo ao encontro dela para almoçarmos juntos. Com um lindo buquê de flores vermelhas já em mãos, pensei em seus bombons preferidos e, ao entrar na bomboniere, me deparei com aquela cena. Na verdade, não havia mais loja, mas sim um espaço que abrigava aquela máquina. Enquanto tentava me situar no contexto, obtive uma resposta até então inimaginável: uma voz começou a soar dentro do meu cérebro, tentando se comunicar, mas as ondas sonoras oscilavam demais. No fundo, ouvia gritos histéricos, aplausos e frases picotadas que pareciam sussurros, como se minha mente tentasse, em vão, sintonizar um rádio desregulado. Andei ao redor da máquina, tentando captar melhor a mensagem que estava vindo. Para o meu pavor, ouvi claramente um "Heil Hitler". Fiquei paralisado de medo quando consegui compreender que se tratava de um discurso desse monstro da humanidade. Tentei correr, mas minhas pernas não obedeciam aos meus comandos. Eu estava muito próximo da máquina e, agora, pude ver seu formato de sino e, no lugar da argola de sustentação, uma suástica. A situação piorou quando o sino começou a levitar e flutuou sobre mim. De sua base, abriu-se um portal em tons pastéis até que uma luz brilhante me ergueu do chão e, delicadamente, me colocou em uma espécie de poltrona ajustável ao meu corpo. Eu estava preso, mas sem amarras. Pude ver todos os comandos e instrumentos que, mesmo sendo leigo em aviação, percebi que eram equipamentos antigos. De repente, senti algo parecido com uma pequena incisão cirúrgica, que durou no máximo uns 3 segundos. Em seguida, tudo que estava escrito em alemão passou a fazer sentido para mim. Eu não só entendia, mas conseguia até ler em voz alta. Bom, estou falando aqui, mas ainda não me apresentei a você. Não é fácil sair do anonimato com uma história dessas—o tipo de coisa que pode me render um atestado de insanidade mental vitalício. Mas, amigo, eu te garanto: é a mais pura verdade. Vamos lá: meu nome foi dado em homenagem ao único presidente dos Estados Unidos eleito quatro vezes, Franklin Delano Roosevelt. Agora, imagine um nordestino professor de história, nascido na linda cidade do Natal, capital do Rio Grande do Norte, tendo que explicar a origem do nome toda vez que se apresenta. Esse foi o grande feito do meu pai. Mas, para sua decepção, acabei sendo chamado de Del pelos amigos. De volta à máquina. Dentro do artefato, senti como se tudo ao meu redor estivesse se fundindo em uma grande bola de luz. Na minha mente, os acontecimentos - não só da minha vida, mas do mundo inteiro — passavam em ordem regressiva, como se alguém tivesse apertado o replay da história. Não faço ideia de quanto tempo fiquei submerso nessa retrospectiva forçada, só sei que, depois dela, eu estava pronto para dar aula em qualquer cursinho pré-vestibular do mundo. Passado esse lapso temporal, senti meu corpo novamente livre. Mexi a mão com cautela até alcançar um painel à minha frente. Um visor piscava em letras nítidas e assustadoramente diretas: "12:03 Uhr — 3. November 1938", "Standort: Berlin" e "Operation erfolgreich abgeschlossen”. Pisquei. Olhei de novo. Li em voz alta. Só então me dei conta: eu tinha entendido perfeitamente. Sem esforço, sem gaguejar, sem precisar recorrer a um dicionário. Meu cérebro travou por um segundo, tentando processar. Como assim? De onde veio esse alemão fluente? E por que, diabos, minha voz agora soava como um legítimo cidadão de Munique? Foi aí que lembrei que eles tinham me implantado algo, talvez um chip. Respirei fundo. O visor que brilhava na minha frente me mostrava os mesmos dados, agora facilmente compreensíveis: 12h03 — 3 de outubro de 1938 — Localização: Berlim — Operação realizada com sucesso. Foi quando a ficha caiu. Eu tinha acabado de ser transportado para a Alemanha nazista. Isso mesmo, meu amigo, um voo direto e sem direito à barrinha de cereais nem mãe pedindo lugar para filho chorão. Mas, pelo preço não podia reclamar nada . Minha descida em solo germânico foi tão espetacular quanto minha abdução. Muitas luzes, efeitos especiais dignos de um astro hollywoodiano, e, quando o processo foi concluído, lá estava eu: de calça jeans, camiseta da Riachuelo, tênis e um buquê de rosas vermelhas nas mãos, parado diante de uma plateia de uns 27 militares nazistas e alguns civis. No meio deles, um rosto conhecido. Wernher von Braun. Todos me encaravam, completamente atônitos. Mas ninguém mais do que eu mesmo. Foi quando, no meio da confusão, meus olhos bateram numa faixa escrita com um inglês meio capenga: "Welcome, President Roosevelt." Aí tudo começou a fazer sentido. Os super-humanos, os gênios da raça superior, cometeram um pequeno errinho. No lugar de abduzirem o Presidente dos Estados Unidos da América, levaram o Roosevelt do nordeste do Brasil. Euzinho aqui. Pode acreditar. Caí na malha fina do III Reich por culpa de um homônimo, e eu preocupado se minha mulher ia gostar ou não das flores.
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