Passaram-se alguns minutos, que para mim foi uma eternidade. Aquelas faces avermelhadas e rechonchudas foram perdendo o brilho nos olhos, e os sorrisos nos lábios deram lugar a uma expressão austera. Então, rompendo o silêncio sepulcral, veio a ordem: — Arranquem essa faixa de bosta e conduzam esse indivíduo à Chancelaria. Utilizem o Túnel 07. Três enormes soldados da SS e um cabo me cercaram. Um deles arrancou o ramalhete de flores da minha mão, e o cabo, num surto de delicadeza, gritou: — Ande logo, cocô. — Eu vou denunciar isso nos direitos humanos, protestei. Claro, claro, isso deveria ser algo para o futuro... ou não. Mas tentei fazer valer a minha "autoridade" moral. O soldado me olhou com uma expressão confusa, como se eu tivesse acabado de falar em algo inexistente, e apenas bufou: — Direito o que, seu cocô? — Direito… humano! Eu vou denunciar no futuro! O soldado me olhou como se eu tivesse pedido uma viagem para a Lua. — Direito humano? Espera até o Himmler saber disso... Falou o cabo, já se achando um grande oficial. Eu, por outro lado, só pensava se conseguiria me livrar de toda aquela confusão sem acabar numa camisa de força... ou pior, sendo forçado a cantar o hino nazista. E foi isso. Ele puxou o meu braço, me empurrando para o túnel, enquanto os outros soldados riam de forma sínica, como se minha tentativa de protesto fosse a piada mais engraçada do dia. Ainda ouvi um deles falar: — Cocô, você perdeu um dos melhores discursos dele! Aposto que até você chorava! — disse um deles, rindo. Depois de alguns empurrões e piadinhas, finalmente chegamos ao final do túnel.