Operação Sino - Parte VI

839 Words
Minha primeira reunião particular com o Führer ocorreu na tarde do dia 9 de outubro. Lembro bem, pois dois dias antes o ordenança apareceu nos meus aposentos para avisar que esse encontro estava marcado e que eu deveria me apresentar na antessala do gabinete às 16h43. Pronto. Passei dois dias pensando no que Hitler queria — e, por precaução, fiz um testamento deixando o meu Mercedes para a torcida organizada do Bayern de Munique, porque naquele hospício eu não tinha pra quem deixar. O fanatismo era tamanho que, em um dos restaurantes mais sofisticados de Berlim, o Exterminium, o cardápio prestava homenagem ao alto escalão nazista: escalope de filé mignon ao molho do Himmler, posta de salmão grelhado no bafo com legumes ao Goebbels, ravioli ao queijo do Göring, costeletas de cordeiro com purê de maçã ao molho do Führer... E assim seguia pelas sobremesas e licores. Tudo era o líder. Fotos em todos os lugares. Pela primeira vez na vida vi uma oficina mecânica sem um calendário de mulher pelada, mas com pôster do Hitler — braços cruzados, olhando para cima como se estivesse querendo matar muriçoca. O dia 9 chegou e, com duas horas de antecedência, me apresentei na antessala do gabinete. O ajudante de ordens, o Tenente Hans, estava concentrado preenchendo um álbum de figurinhas. Disfarçadamente fechou o livreto e foi até o telex verificar mensagens. Notei ao lado da mesa uma máquina Enigma e, na janela, uma gaiola com uns oito pombos. Aquilo me deixou curioso. Perguntei: — Tenente Hans, por que esses pombos? E ele, solenemente: — Aqui no Reich estamos preparados para tudo. Se acontecer um ataque ao telex ou à Enigma, temos os bons e velhos pombos-correio. Aqui é assim. Afinal... vamos ou não vamos durar mil anos? Ou mais uma coisinha. Na hora exata, fui encaminhado ao escritório do Führer. Mas antes, vale a pena situar melhor o ambiente: o gabinete era um grande espaço dividido em cinco ambientes — uma sala ampla, onde tivemos os primeiros contatos; um salão para lanches e pequenas refeições; o escritório propriamente dito, com uma enorme mesa de madeira, duas confortáveis poltronas e um sofá de dois lugares. Na parede, uma pintura a óleo dele mesmo. Ao lado da mesa, por trás do sofá, uma janela onde ele, nas horas vagas, brincava de cuspir nos pedestres. Havia ainda uma sala menor, do seu ajudante de ordens, e os toaletes masculino e feminino — este último, no prédio em frente ao estacionamento de motonetas do outro lado da via. Fui recebido calorosamente: — Caro Herr Assessor, como tem passado? Estão lhe tratando bem aqui na capital que vai durar mil anos, ou mais uma coisinha? — Dentro do possível, estou bem. Para quem está, literalmente, a anos-luz de casa, estou ótimo. Em que posso ser útil? — Meu caro assessor, nossa conversa será mais um questionamento de cunho particular. Algo que preciso muito saber — disse Hitler, franzindo a testa com ar preocupado. — O senhor sabe que temos investido bilhões de Reichsmarks em armamentos, e até estilista pra desenhar uniforme tivemos que pagar. E até agora... nenhum tiro! Tenho uns seis galpões entupidos de munição, que vai de projétil que abate rolinha até uns grandes e grossos, parecendo tolete, pra derrubar avião. — Só de sola de coturno é uma fortuna. Cada desfilezinho desses leva meia sola. — Sem falar na despesa com comida para os jovens da Juventude Hitlerista... comem mais do que impinge! — Agora me diga, prezado Herr Assessor, tenho ou não motivo de sobra pra me estressar? Chego em casa, querendo colocar um pijama e relaxar, e vem Eva querendo discutir a relação. Só não mandei ela para a casa do chapéu porque ela faz um beicinho de cama como ninguém. Procurei relatar os fatos como ocorreram historicamente. Tinha receio de alterar qualquer ponto e bagunçar a linha do tempo. Naquele momento, meu objetivo era apenas manter o anfitrião esperançoso — até porque minha vida estava nas mãos dele. — Meu Führer, o senhor será responsável pelo maior conflito armado da história. Não vai faltar oportunidade para seus soldados atirarem, disso pode ter certeza. E, só para aliviar suas preocupações: em agosto de 1939, a Alemanha e a União Soviética vão assinar um pacto de não agressão, deixando o caminho livre para um passeio de tanques pela Polônia. Gostou ou quer mais? Os olhos do chefe nazista brilharam de tanta alegria. O verdadeiro gerente do apocalipse com metas mensais a cumprir. Vislumbrava seus planos como se estivessem sendo abençoados pelas forças do destino. Ao nos despedirmos, recebi dele uma caixa com quatro barras de ouro — do mesmo tamanho e formato daquelas que Silvio Santos distribuía — e, sem querer, ele deixou escapar: — Peguei algumas dessas antes de enviar para o banco do Vaticano. Te confesso, meu amigo e confidente, terminei esse dia no Crepúsculo dos Deuses, abraçado a alguns soldados, cantando: Herr assessor é um bom companheiro, ninguém pode negar... Deus queira que a Elizabeth não saiba dessa parte.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD