Operação Sino - Parte IV

1966 Words
Ele olhou para mim com uma expressão séria, porém curiosa, como se tentasse entender o que eu era — ou o que eu representava. A sala estava em silêncio absoluto. Eu nem conseguia respirar direito. O soldado que me acompanhava se posicionou ao lado da porta e fez um gesto para que eu me aproximasse de Hitler. Quando finalmente consegui dar um passo, minha mente ficou em branco. O que eu ia dizer? O que eu faria? Era claro que ele me via como uma figura importante — talvez até um emissário dos Estados Unidos — e eu sabia que não podia, de forma alguma, demonstrar o medo que estava sentindo. — Senhor, o que o traz aqui? — disse Hitler, com uma voz calma e controlada e concluiu: quero respostas claras e explicativas. Não sei o porquê que dizem que é apenas para responder sim ou não. Vou até anotar aqui pra ver isso depois. Eu olhei para ele, sentindo o peso de sua presença. Um homem que havia comandado a Alemanha, e que estava no ápice do seu poder. Mas, ao mesmo tempo, ele parecia tão humano, tão frágil e incrivelmente fingido. Era como se, por um momento, ele tivesse se despojado da sua imagem monstruosa e vestido a casaca dos justos. Respirei fundo e, em um esforço para manter a calma, respondi: — Eu sou Franklin Delano Roosevelt... ou, melhor dizendo, uma versão... alternativa dele. O silêncio foi absoluto. Os olhos de Hitler se estreitaram. Ele não entendeu imediatamente o que eu queria dizer. Provavelmente pensou que eu estivesse brincando ou tentando ludibriá-lo. Mas, quando ele viu minha expressão séria, ele se recostou na cadeira e ficou em silêncio, analisando-me com mais atenção. — Você diz que é Herr Franklin Roosevelt? — ele perguntou, como se estivesse tentando montar as peças do quebra-cabeça. Eu assenti. — Sim, mas não o Roosevelt que todos conhecem. Sou um Roosevelt de uma outra realidade, talvez uma linha do tempo paralela. O senhor deve estar se perguntando o que isso significa, e eu também. Porém uma coisa é certa: eu não sou a pessoa que o senhor espera. Hitler olhou para mim com uma expressão indecifrável. Depois, olhou para o seu ordenança, que estava à porta, e fez um gesto para que ele se aproximasse. O soldado obedeceu rapidamente. — Traga o Goebbels. E mande chamar o Wernher. Quero ouvir mais sobre essa história. Eu m*l pude acreditar no que estava acontecendo. Eles estavam levando-me a sério! Estavam tratando isso como uma questão de interesse estratégico. O Führer não parecia mais tão seguro de si. Ele sabia que havia algo mais por trás de minha presença ali. Algo tinha funcionado... errado, mas tinha. A porta se fechou com um estrondo, e a sala ficou em silêncio novamente. Eu não sabia se devia relaxar ou ficar ainda mais tenso. O que aconteceria a seguir? Seria eu tratado como um prisioneiro ou como alguém que poderia ser útil para a causa nazista? Só o tempo diria. Enquanto isso, minha mente fervilhava. Eu pensava no quanto minha vida tinha virado de cabeça para baixo em questão de horas. Uma viagem ao passado, a uma realidade alternativa, me colocara diante do mais temido tirano da história. Era como se as regras do universo tivessem sido quebradas, e eu tivesse sido arrastado para esse pesadelo. Enquanto aguardávamos a chegada dos convocados para desvendar o mistério, Hitler puxou conversa: — E o Getúlio, como vai? — Meu Führer, eu venho do ano de 1981. O presidente do Brasil é o general Figueiredo, João Baptista de Oliveira Figueiredo. O Getúlio suicidou-se em 1954. — Foi chifre? — pergunta o alemão. — Não, meu Führer. Foi muita pressão interna. Ele até deixou uma linda carta de despedida. — Herr Roosevelt, você acha possível trazer Getúlio para o Eixo? — pergunta Hitler. — Não, meu Führer. O Brasil vai entrar na guerra, mas do lado dos Aliados. A fisionomia do ditador se fechou. Em seus olhos havia algo maligno; seus punhos se cerraram e, esbravejando, concluiu com estas palavras: — Também, que ajuda militar poderia vir de um país desses... Canoas, arco e flechas ou mosquetes? E ordenou: — Se lhe for perguntado isso, você responderá: "Claro que apoiamos o Eixo." E, com um olhar que ultrapassou o meu eu, finalizou: — Você me entendeu, Herr Roosevelt? — Sim, meu Führer. E pensei comigo mesmo: como eu, um simples professor de História, entrei numa enrascada dessas? Tantas opções que existem na linha do tempo, e eu caio logo aqui — nesse manicômio de lunáticos satânicos. Nesse momento, a presença de Goebbels e de Werner von Braun foi anunciada. Eu gelei. O ministro da propaganda, que mentia tanto que a mentira virava verdade. O inventor das bombas voadoras. O chefe da gangue. E eu, um natalense tentando se manter vivo. Não sei pra quê, mas algo me dizia que eu era a parte mais fraca. Para o meu (relativo) conforto, pelo menos fisicamente falando, ele — o ministro da Propaganda do III Reich — era a parte fraca... reconheci Joseph Goebbels facilmente dos livros de História, mas não tinha ideia de que o homem parecia um faquir. Magro, alto, manco, se enrolasse um lençol nele seria a metamorfose perfeita. Muito bem-vestido, cabelos negros com uma farta porção de brilhantina, falante, porém com um bafo capaz de entortar metais. Por isso a saudação nazista ele fez lá na porta — uma precaução sanitária, talvez. Mas uma indiscreta rajada de vento trouxe até nós um genuíno aroma de bosta ariana. Hitler, com um lenço no nariz, comentou: — Caro Herr Ministro, sua posição dispensa a saudação... principalmente nesses decibéis. Já Werner, discreto e submisso (afinal, quem não seria?), se colocou à disposição para qualquer esclarecimento técnico ou metafísico, se preciso. Hitler hesitou um pouco, fez um gesto para o gramofone, e a ópera “As Valquírias” começou a tocar. Então concluiu: — Acho melhor chamar também o Göring. Não demorou e o ordenança de Göring respondeu: — Meu Führer, o Marechal do Reich Herr Göring foi caçar. Fui o quê? Será que eu ouvi direito... foi caçar javali? — Sim, meu Führer. O marechal e a cúpula do Ministério da Aeronáutica só trabalham até as quartas-feiras. Com um aceno impaciente, Hitler dispensou o ordenança e explodiu: — Esse usuário de morfina deve ter fumado maconha estragada! O que esse gordo — mais rechonchudo que o dirigível Hindenburg — pensa que isso aqui é? Uma republiqueta pé de chinelo? Fez uma pausa dramática, apontou para o chão como quem finca uma bandeira, passou a mão na testa para ajeitar seus finos fios de cabelo no lugar, caminhou até uma das janelas e cruzando os braços e concluiu: — Gente, isso aqui é o Terceiro Reich Alemão! Esse império vai durar mil anos... ou mais uma coisinha. E não vai ser nenhum Zé Ruela que vai atrapalhar meus planos. Eu falei... meus planos. E depois de alguns minutos de um silêncio gritante, Hitler dirigiu-se ao seu engenheiro de foguetes — chamado, por seus desafetos, de fogueteiro pirotécnico: — Wernher, como um artefato de tal importância sai do Reich Alemão pelo mundo afora sem meu conhecimento? Quem traçou a rota e determinou trazer para nós um nordestino de um país que, de destaque, só tem samba e b***a? Hein? Explique aí... — Meu Führer, no dia do ocorrido, 2 de outubro do corrente ano, estávamos fazendo a revisão mensal do artefato multidimensional atemporal, conhecido simplesmente como “Sino”. Nesse procedimento, simulamos sua partida. Ligamos o gerador, o transportador pneumático de matéria orgânica, o transportador de micromatérias e adjacentes, e o rotor do solenoide e similares quando, inexplicavelmente — igual a dinheiro público — o artefato desintegrou-se e desapareceu na nossa frente. — Certo. E aí, o que vocês fizeram? — pergunta o Führer, já impaciente. — Nós aproveitamos para passar uma vassoura no local que... — Sua anta! Quero saber o que pode ter ocorrido para gerar tudo isso — e quais as providências para evitar sua repetição! Wernher continua sua explicação: — Depois de uma ampla, geral e irrestrita investigação detectamos que no exato momento do desaparecimento do artefato ocorreram nem uma, nem duas, mais três explosões solares que impactaram o campo magnético de todo o globo terrestre, menos na região de Madagascar e Natal, no Rio Grande do Norte. — Essas explosões danificaram o virabrequim, o que desencadeou todo o acontecido. O nosso radar de partículas transportáveis rastreou o Sino como se ele estivesse na capital americana, e aproveitamos e inserimos no decodificador modular o nome de Franklin Delano Roosevelt, nos referindo ao presidente não esse ser, sei lá o que. Mas, meu Führer, já tomamos todas as providências para que tal fato não venha a se repetir. Isolamos toda a área do sino com papel alumínio e amarramos um cordão da batina de um frei franciscano. Vai lá que... — Muito bem — falou Hitler, convidando a todos, inclusive eu, para tomar um chá na sala ao lado. Uma mesa enorme, bolos, doces, salgados, biscoitinhos dos mais variados formatos e sabores. Após o anfitrião se servir de uma generosa fatia de floresta n***a, fui de strudel, e os demais atacaram a delícia de sua preferência — menos o Goebbels, que, por problemas estomacais, não foi além de uma xícara de chá de boldo. Terminado o seu bolo, o Führer pediu a atenção de todos e comunicou algo que mudaria a minha vida para sempre: — Enquanto degustava esse delicioso chá, que me transportou à casa da vó Baden, concluí que Herr Roosevelt será meu assessor particular. Sei que todos devem estar pensando: “O Hitler está variando. Ele tá louco. Ele é isso, aquilo e outras coisitas más”. Porém, quem melhor para me assessorar do que alguém que conhece o futuro, que sabe os acontecimentos? Vou provar a vocês como estou certo. Caro assessor — ou melhor, futuro assessor — haverá em 1939 algum movimento bélico na Europa? De pé, encho o peito e respondo: — A invasão da Polônia pelas forças do III Reich. Todos os presentes ficaram estarrecidos. O boca de latrina, digo, ministro da Propaganda, já ficou em posição de sentido e, infelizmente, gritou: — Heil, meu Führer! No mesmo instante, Hitler chama seu ajudante de ordens para ver na agenda seus compromissos da semana. Faz questão de me apresentar à cúpula do partido e das forças armadas como seu novo assessor, em um banquete. — Minha agenda! — ordena Hitler. — Aqui está, meu Führer — responde o ajudante. — Leia, por favor. — Quinta-feira: Manhã: desfile militar. Tarde: discurso no Palácio dos Esportes. Noite: desfile militar com tochas. Sexta-feira: Manhã: discurso no Palácio dos Esportes. Tarde: desfile militar. Noite: desfile militar com tochas. — Pare, pode parar! — ordena Hitler, impaciente. — Não tem alguma programação diferente de discurso e desfile? — Tem, meu Führer. Sábado à noite... jantar com a mamãe. — Cancele esse compromisso e anote aí: banquete de posse do novo Assessor Pessoal do Adolf Hitler! Avise ao cerimonial, quero tudo impecável — sentenciou o chefe alemão. Tudo isso me pegou de surpresa, mas a garantia de que eu poderia me manter vivo aumentou bastante. Felizmente ou infelizmente, comecei a ter visões de Elizabeth — ela, sentada à mesa, me esperando para o almoço, enquanto um garçom lhe servia um guaraná champagne. Contudo, a imagem não era nítida. Parecia um filme que sempre retornava ao início, como se o tempo em que Elizabeth estava parada fosse o instante do meu transporte. Tudo isso ocorria em frações de segundos, mas me deixava angustiado, sem saber o que estava acontecendo com ela — e eu ali, cercado de malucos, agora promovido a assessor do próprio capeta com bigodinho.
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