Ele olhou para mim com uma expressão séria, porém curiosa, como se tentasse entender o que eu era — ou o que eu representava.
A sala estava em silêncio absoluto. Eu nem conseguia respirar direito. O soldado que me acompanhava se posicionou ao lado da porta e fez um gesto para que eu me aproximasse de Hitler.
Quando finalmente consegui dar um passo, minha mente ficou em branco.
O que eu ia dizer? O que eu faria? Era claro que ele me via como uma figura importante — talvez até um emissário dos Estados Unidos — e eu sabia que não podia, de forma alguma, demonstrar o medo que estava sentindo.
— Senhor, o que o traz aqui? — disse Hitler, com uma voz calma e controlada e concluiu: quero respostas claras e explicativas. Não sei o porquê que dizem que é apenas para responder sim ou não. Vou até anotar aqui pra ver isso depois.
Eu olhei para ele, sentindo o peso de sua presença. Um homem que havia comandado a Alemanha, e que estava no ápice do seu poder. Mas, ao mesmo tempo, ele parecia tão humano, tão frágil e incrivelmente fingido. Era como se, por um momento, ele tivesse se despojado da sua imagem monstruosa e vestido a casaca dos justos.
Respirei fundo e, em um esforço para manter a calma, respondi:
— Eu sou Franklin Delano Roosevelt... ou, melhor dizendo, uma versão... alternativa dele.
O silêncio foi absoluto. Os olhos de Hitler se estreitaram. Ele não entendeu imediatamente o que eu queria dizer. Provavelmente pensou que eu estivesse brincando ou tentando ludibriá-lo. Mas, quando ele viu minha expressão séria, ele se recostou na cadeira e ficou em silêncio, analisando-me com mais atenção.
— Você diz que é Herr Franklin Roosevelt? — ele perguntou, como se estivesse tentando montar as peças do quebra-cabeça.
Eu assenti.
— Sim, mas não o Roosevelt que todos conhecem. Sou um Roosevelt de uma outra realidade, talvez uma linha do tempo paralela. O senhor deve estar se perguntando o que isso significa, e eu também. Porém uma coisa é certa: eu não sou a pessoa que o senhor espera.
Hitler olhou para mim com uma expressão indecifrável. Depois, olhou para o seu ordenança, que estava à porta, e fez um gesto para que ele se aproximasse. O soldado obedeceu rapidamente.
— Traga o Goebbels. E mande chamar o Wernher. Quero ouvir mais sobre essa história.
Eu m*l pude acreditar no que estava acontecendo. Eles estavam levando-me a sério! Estavam tratando isso como uma questão de interesse estratégico. O Führer não parecia mais tão seguro de si. Ele sabia que havia algo mais por trás de minha presença ali. Algo tinha funcionado... errado, mas tinha.
A porta se fechou com um estrondo, e a sala ficou em silêncio novamente. Eu não sabia se devia relaxar ou ficar ainda mais tenso. O que aconteceria a seguir? Seria eu tratado como um prisioneiro ou como alguém que poderia ser útil para a causa nazista? Só o tempo diria.
Enquanto isso, minha mente fervilhava. Eu pensava no quanto minha vida tinha virado de cabeça para baixo em questão de horas. Uma viagem ao passado, a uma realidade alternativa, me colocara diante do mais temido tirano da história. Era como se as regras do universo tivessem sido quebradas, e eu tivesse sido arrastado para esse pesadelo.
Enquanto aguardávamos a chegada dos convocados para desvendar o mistério, Hitler puxou conversa:
— E o Getúlio, como vai?
— Meu Führer, eu venho do ano de 1981. O presidente do Brasil é o general Figueiredo, João Baptista de Oliveira Figueiredo. O Getúlio suicidou-se em 1954.
— Foi chifre? — pergunta o alemão.
— Não, meu Führer. Foi muita pressão interna. Ele até deixou uma linda carta de despedida.
— Herr Roosevelt, você acha possível trazer Getúlio para o Eixo? — pergunta Hitler.
— Não, meu Führer. O Brasil vai entrar na guerra, mas do lado dos Aliados.
A fisionomia do ditador se fechou. Em seus olhos havia algo maligno; seus punhos se cerraram e, esbravejando, concluiu com estas palavras:
— Também, que ajuda militar poderia vir de um país desses... Canoas, arco e flechas ou mosquetes?
E ordenou:
— Se lhe for perguntado isso, você responderá: "Claro que apoiamos o Eixo."
E, com um olhar que ultrapassou o meu eu, finalizou:
— Você me entendeu, Herr Roosevelt?
— Sim, meu Führer.
E pensei comigo mesmo: como eu, um simples professor de História, entrei numa enrascada dessas?
Tantas opções que existem na linha do tempo, e eu caio logo aqui — nesse manicômio de lunáticos satânicos.
Nesse momento, a presença de Goebbels e de Werner von Braun foi anunciada.
Eu gelei.
O ministro da propaganda, que mentia tanto que a mentira virava verdade.
O inventor das bombas voadoras.
O chefe da gangue.
E eu, um natalense tentando se manter vivo.
Não sei pra quê, mas algo me dizia que eu era a parte mais fraca. Para o meu (relativo) conforto, pelo menos fisicamente falando, ele — o ministro da Propaganda do III Reich — era a parte fraca... reconheci Joseph Goebbels facilmente dos livros de História, mas não tinha ideia de que o homem parecia um faquir. Magro, alto, manco, se enrolasse um lençol nele seria a metamorfose perfeita.
Muito bem-vestido, cabelos negros com uma farta porção de brilhantina, falante, porém com um bafo capaz de entortar metais. Por isso a saudação nazista ele fez lá na porta — uma precaução sanitária, talvez. Mas uma indiscreta rajada de vento trouxe até nós um genuíno aroma de bosta ariana.
Hitler, com um lenço no nariz, comentou:
— Caro Herr Ministro, sua posição dispensa a saudação... principalmente nesses decibéis.
Já Werner, discreto e submisso (afinal, quem não seria?), se colocou à disposição para qualquer esclarecimento técnico ou metafísico, se preciso.
Hitler hesitou um pouco, fez um gesto para o gramofone, e a ópera “As Valquírias” começou a tocar. Então concluiu:
— Acho melhor chamar também o Göring.
Não demorou e o ordenança de Göring respondeu:
— Meu Führer, o Marechal do Reich Herr Göring foi caçar.
Fui o quê? Será que eu ouvi direito... foi caçar javali?
— Sim, meu Führer. O marechal e a cúpula do Ministério da Aeronáutica só trabalham até as quartas-feiras.
Com um aceno impaciente, Hitler dispensou o ordenança e explodiu:
— Esse usuário de morfina deve ter fumado maconha estragada! O que esse gordo — mais rechonchudo que o dirigível Hindenburg — pensa que isso aqui é? Uma republiqueta pé de chinelo?
Fez uma pausa dramática, apontou para o chão como quem finca uma bandeira, passou a mão na testa para ajeitar seus finos fios de cabelo no lugar, caminhou até uma das janelas e cruzando os braços e concluiu:
— Gente, isso aqui é o Terceiro Reich Alemão! Esse império vai durar mil anos... ou mais uma coisinha. E não vai ser nenhum Zé Ruela que vai atrapalhar meus planos. Eu falei... meus planos.
E depois de alguns minutos de um silêncio gritante, Hitler dirigiu-se ao seu engenheiro de foguetes — chamado, por seus desafetos, de fogueteiro pirotécnico:
— Wernher, como um artefato de tal importância sai do Reich Alemão pelo mundo afora sem meu conhecimento? Quem traçou a rota e determinou trazer para nós um nordestino de um país que, de destaque, só tem samba e b***a? Hein? Explique aí...
— Meu Führer, no dia do ocorrido, 2 de outubro do corrente ano, estávamos fazendo a revisão mensal do artefato multidimensional atemporal, conhecido simplesmente como “Sino”. Nesse procedimento, simulamos sua partida. Ligamos o gerador, o transportador pneumático de matéria orgânica, o transportador de micromatérias e adjacentes, e o rotor do solenoide e similares quando, inexplicavelmente — igual a dinheiro público — o artefato desintegrou-se e desapareceu na nossa frente.
— Certo. E aí, o que vocês fizeram? — pergunta o Führer, já impaciente.
— Nós aproveitamos para passar uma vassoura no local que...
— Sua anta! Quero saber o que pode ter ocorrido para gerar tudo isso — e quais as providências para evitar sua repetição!
Wernher continua sua explicação:
— Depois de uma ampla, geral e irrestrita investigação detectamos que no exato momento do desaparecimento do artefato ocorreram nem uma, nem duas, mais três explosões solares que impactaram o campo magnético de todo o globo terrestre, menos na região de Madagascar e Natal, no Rio Grande do Norte. — Essas explosões danificaram o virabrequim, o que desencadeou todo o acontecido. O nosso radar de partículas transportáveis rastreou o Sino como se ele estivesse na capital americana, e aproveitamos e inserimos no decodificador modular o nome de Franklin Delano Roosevelt, nos referindo ao presidente não esse ser, sei lá o que.
Mas, meu Führer, já tomamos todas as providências para que tal fato não venha a se repetir. Isolamos toda a área do sino com papel alumínio e amarramos um cordão da batina de um frei franciscano. Vai lá que...
— Muito bem — falou Hitler, convidando a todos, inclusive eu, para tomar um chá na sala ao lado.
Uma mesa enorme, bolos, doces, salgados, biscoitinhos dos mais variados formatos e sabores.
Após o anfitrião se servir de uma generosa fatia de floresta n***a, fui de strudel, e os demais atacaram a delícia de sua preferência — menos o Goebbels, que, por problemas estomacais, não foi além de uma xícara de chá de boldo.
Terminado o seu bolo, o Führer pediu a atenção de todos e comunicou algo que mudaria a minha vida para sempre:
— Enquanto degustava esse delicioso chá, que me transportou à casa da vó Baden, concluí que Herr Roosevelt será meu assessor particular.
Sei que todos devem estar pensando: “O Hitler está variando. Ele tá louco. Ele é isso, aquilo e outras coisitas más”.
Porém, quem melhor para me assessorar do que alguém que conhece o futuro, que sabe os acontecimentos?
Vou provar a vocês como estou certo. Caro assessor — ou melhor, futuro assessor — haverá em 1939 algum movimento bélico na Europa?
De pé, encho o peito e respondo:
— A invasão da Polônia pelas forças do III Reich.
Todos os presentes ficaram estarrecidos.
O boca de latrina, digo, ministro da Propaganda, já ficou em posição de sentido e, infelizmente, gritou:
— Heil, meu Führer!
No mesmo instante, Hitler chama seu ajudante de ordens para ver na agenda seus compromissos da semana. Faz questão de me apresentar à cúpula do partido e das forças armadas como seu novo assessor, em um banquete.
— Minha agenda! — ordena Hitler.
— Aqui está, meu Führer — responde o ajudante.
— Leia, por favor.
— Quinta-feira:
Manhã: desfile militar.
Tarde: discurso no Palácio dos Esportes.
Noite: desfile militar com tochas.
Sexta-feira:
Manhã: discurso no Palácio dos Esportes.
Tarde: desfile militar.
Noite: desfile militar com tochas.
— Pare, pode parar! — ordena Hitler, impaciente. — Não tem alguma programação diferente de discurso e desfile?
— Tem, meu Führer. Sábado à noite... jantar com a mamãe.
— Cancele esse compromisso e anote aí: banquete de posse do novo Assessor Pessoal do Adolf Hitler!
Avise ao cerimonial, quero tudo impecável — sentenciou o chefe alemão.
Tudo isso me pegou de surpresa, mas a garantia de que eu poderia me manter vivo aumentou bastante. Felizmente ou infelizmente, comecei a ter visões de Elizabeth — ela, sentada à mesa, me esperando para o almoço, enquanto um garçom lhe servia um guaraná champagne. Contudo, a imagem não era nítida. Parecia um filme que sempre retornava ao início, como se o tempo em que Elizabeth estava parada fosse o instante do meu transporte. Tudo isso ocorria em frações de segundos, mas me deixava angustiado, sem saber o que estava acontecendo com ela — e eu ali, cercado de malucos, agora promovido a assessor do próprio capeta com bigodinho.